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Projeto

Vale-tudo contra o descaso

História do brasiliense Antônio inspira ação social da principal academia de artes marciais do Brasil

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Há quase um ano, um jovem brasiliense tomou coragem e resolveu ir atrás de um sonho inspirado pelas revistas especializadas em esportes de combate que ele gostava de folhear. Trabalhando aqui e acolá, fazendo "de tudo um pouco", juntou uma pequena quantia em dinheiro e deixou casa, familiares e amigos para encarar 1.374 quilômetros de estrada rumo a uma cidade que para ele era totalmente desconhecida. Foi assim que, aos 18 anos, Antônio Santos Júnior chegou Curitiba, atraído pela fama dos expoentes da Academia Chute Boxe, uma das principais escolas de vale-tudo do mundo.

Na bagagem, algumas peças de roupa, muita esperança e pouco dinheiro. E era justamente esse o problema. Da rodoviária para a academia, ele assistiu a um treino, procurou Rafael Cordeiro e Rudimar Fedrigo, proprietários e treinadores da Chute Boxe, e abriu o jogo. Como não podia pagar a mensalidade, explicou a situação e pediu uma oportunidade. "Eles me deram e hoje sou muito agradecido", lembra Júnior, como é chamado pelos seus novos "familiares", os colegas de treino. Desde aquele dia, ele não apenas freqüenta, como também mora na própria Chute Boxe da Vila Hauer, na Região Sul da cidade. Apesar da pouca idade, Júnior já apresenta um cartel de cinco lutas e cinco vitórias no Mixed Martial Arts (MMA, como também é chamado o vale-tudo).

Inspirado em iniciativas como essa, os líderes da Chute Boxe resolveram estender chances como essa a jovens da própria cidade e estão prestes a pôr em prática um projeto intitulado "Da rua para o ringue". O local escolhido foi a Vila Nova Barigüi, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), o maior e mais populoso bairro da capital paranaense, onde uma academia, com inauguração prevista para daqui a um mês, está aos poucos sendo equipada para receber cerca de 300 alunos, principalmente crianças e adolescentes. "Só falta chegar um tatame de São Paulo", afirma Fedrigo. Os alunos serão selecionados na comunidade, com critérios que ainda serão definidos, e poderão participar gratuitamente dos treinos de muay thai e jiu-jítsu nos períodos da manhã, tarde e noite.

Os custos correrão exclusivamente por conta da Chute Boxe. "Nossa academia ficou muito famosa. Vem gente de toda parte do planeta aprender aqui. No entanto, muitos jovens que moram aqui perto, em Curitiba mesmo, gostariam de assimilar a nossa técnica, mas não têm condições de pagar a mensalidade, que varia em média de R$ 70 a R$ 100", justifica Fedrigo. Essa barreira, segundo o treinador, deixará de existir para quem se beneficiar do projeto. "Eles serão introduzidos a uma vida mais saudável e disciplinadora, o que pode contribuir para tirá-los da ociosidade e de caminhos errados, como a criminalidade", ressalta.

O projeto ainda tem outras metas, como possibilitar a descoberta de jovens talentos para as artes marciais e indicar rumos profissionais a quem não tem perspectiva de trabalho. "Depois de cinco anos de prática ininterrupta e supervisionada por um faixa preta, alguns podem até se tornar novos instrutores, lutadores, técnicos, empresários de esportes de combate ou ainda se interessarem pela preparação física, entre outros. Isso tudo depende do interesse e do desempenho de cada um deles", explica Fedrigo. "Muitos só precisam de uma chance, e é isso que queremos proporcionar."

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