Um novo modelo de ensino superior nos moldes das universidades americanas chega ao Brasil | Foto: Divulgação PUC-PR

Fazer um curso de graduação está cada vez mais acessível. Mas o desafio agora de instituições, pais e também de estudantes é evitar a desistência dos alunos entre a matrícula e o diploma. Dados do Ministério da Educação mostram que quase metade (49%) dos estudantes que entraram no ensino superior no ano de 2010 desistiu do curso escolhido antes de 2015. De 2015 para 2016, mais de 1,28 milhão de alunos matriculados no ano inicial de um curso superior presencial privado evadiram em todo país, segundo levantamento da Hoper Educação e do Inep. Um novo modelo de ensino superior pode ajudar a reverter esses números. 

Entre os motivos para a alta taxa de desistência, na avaliação do secretário de Educação Superior do MEC, Paulo Barone, estão a oferta de cursos com modelos ultrapassados ou a falta de flexibilidade para que os estudantes mudem de curso dentro das instituições, conforme declarou à Agência Brasil. William Klein, CEO da consultoria Hoper Educação, acrescenta também o mau desempenho do estudante no início do curso, dificuldades financeiras para pagar as mensalidades ou mudanças na própria família do aluno. 

“Há uma tendência do jovem e do adulto de hoje de mudar muito fácil. O aluno começa a ir mal num curso que ele escolheu e isso aumenta muito a chance de desistência. Quando ele começa a tirar notas baixas e a ficar atrasado, passa a achar que o curso não é para ele. Então procura outra opção achando que o problema era o curso”, argumenta Klein. 

Outra preocupação tanto das instituições como dos próprios estudantes é de que o ensino superior os prepare para trabalhar em um futuro próximo, em que grande parte das profissões ainda não existe. Se esse futuro é incerto, é certo que esse profissional precisa ter capacidades analítica, de aprendizado contínuo e de solucionar problemas elevadas.

Opção

O modelo brasileiro de educação superior é calcado na profissionalização do aluno, ou seja, ele escolhe o curso na hora em que ingressa na graduação e vai conviver com essa opção, com a maior parte das disciplinas diretamente ligadas à profissão, por quatro, cinco ou seis anos. Este modelo exige do estudante uma grande maturidade para decidir qual carreira ele seguirá pelo resto da vida aos 16, 17 anos – idade em que conclui o ensino médio.

No modelo americano, decisão de qual profissão seguir acontece quando o aluno está mais maduro e tem uma visão de mundo mais ampla 

Esta realidade começa a mudar a partir deste ano, com a chegada de um modelo de ensino em que o aluno recebe uma formação mais ampla e voltada ao desenvolvimento de competências necessárias a todos os profissionais antes de fazer a opção de qual profissão quer aprender na faculdade.

Uma possibilidade é o American Academy e está sendo trazida pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e a Kent State University, universidade do estado de Ohio, nos Estados Unidos. Os estudantes terão acesso ao currículo das Liberal Arts Education* (entenda) da Kent State, com professores vindos de lá, mas dentro do campus da PUCPR, em Curitiba.

“O aluno ingressa na universidade, não tem um curso definido, passa por dois anos do Liberal Arts Education*, que são disciplinas amplas, fundamentais não só para a formação do ser humano, do cidadão, mas pra todas as profissões. E só a partir daí ele faz a sua escolha de carreira profissional. Tem diversas vantagens que podem ajudar a diminuir essa evasão que é um problema grave”, explica Paulo Mussi, diretor da American Academy.

“Liberal Arts Education*” é um conjunto de disciplinas baseado na ideia de que a pessoa precisa ter um conhecimento de mundo mais amplo. Os estudantes são expostos a disciplinas de artes, ciências naturais e físicas, comunicação, ética, filosofia, entre outras. Esta etapa leva dois anos, quando o aluno já recebe um diploma de ensino superior da Kent State. Só então ele faz a opção por curso – e esse processo é acompanhado por um profissional do próprio American Academy.

O brasileiro Bruno Beidacki acaba de receber seu diploma de Jornalismo pela Kent State University. Na opinião dele, a flexibilidade de carreira e curso foi um fator importante na escolha pela formação americana. 

“É muito bom ter a tranquilidade de saber que você não está totalmente preso a um caminho profissional. Aqui, se o aluno chega e decide que ele não curtiu aquela área de estudo ou percebe que tem vocação para algo diferente, a universidade facilita muito o processo de troca de curso também”.

Brasileiro Bruno Beidacki (dir.) vivênciou a experiência universitária americana na Kent State University. Na foto, quando foi eleito Homecoming King. 

Cultura brasileira

Mesmo com modelo americano, professores de lá e com a língua padrão em sala de aula sendo o inglês, o American Academy acredita na importância de estar inserido em sua localidade. “O profissional não é formado para atuar só aqui nesta região, ele é um profissional global. Claro que nossa ênfase é mais no global, mas ele não deixa o local de lado. Tratamos de problemas complexos que têm implicações globais e locais. E esses problemas vão ser trabalhados dentro e fora de sala de aula . Porque, diferente do modelo tradicional de ensino, não são só aulas expositivas, palestras. Muito do modelo americano é de resolução de problemas”, conta Mussi.

Após os dois anos iniciais, os estudantes do American Academy podem seguir dois caminhos: continuar seus estudos na PUCPR ou seguir para a Kent State University. Enquanto na instituição americana ele poderá optar por todos os cursos disponíveis apenas continuando sua formação por mais dois ou três anos , aqueles que ficarem em Curitiba poderão escolher alguns dos mais de 20 cursos compatíveis com o currículo das Liberal Arts ou fazer uma adaptação maior para preencher a carga de disciplinas exigida em alguns cursos como Engenharia ou Direito, por exemplo.

A integração desses alunos com aqueles que optaram pelo modelo tradicional é vista com bons olhos. 

“Minha ideia é que o American Academy vá funcionar como um catalisador de transformação da universidade como um todo, promovendo mudanças nos outros cursos. Seria como um piloto de uma grande transformação que a universidade vai passar ao longo dos tempos. Claro que com algumas dificuldades por conta da nossa cultura brasileira de ensino superior, que foi sempre essa universidade profissionalizante, do diploma. A gente precisa romper essa barreira”, defende Mussi.

Na visão de quem recebeu essa formação mais ampla, “o foco em Liberal Arts é transformador”. Bruno Beidacki acrescenta: “gostei muito de ter uma formação mais completa, que cobriu diversos assuntos diferentes e não foi focada especificamente no meu curso. Com certeza me ajudou a ter uma visão mais aberta do mundo”.

Serviço: 

A seleção para ingressar na American Academy acontece até o dia 30 de junho e a primeira turma inicia os estudos no dia 23 de julho . O início da segunda turma também já tem data: 25 de fevereiro de 2019. Mais informações sobre a instituição e o processo seletivo estão no site pucpr.br/americanacademy