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Moana (2016): elogios e críticas de conservadores e progressistas
Moana (2016): elogios e críticas de conservadores e progressistas| Foto: Divulgação

É infalível. A cada grande lançamento da Disney nos cinemas e no streaming, surgem julgamentos do produto em grupos de discussão e redes sociais partindo de conceitos produzidos pela luta cultural entre conservadores e progressistas. Nos últimos anos, a versão de que a companhia aderiu à agenda ideológica da esquerda norte-americana, e que isso afeta seus conteúdos, ganhou popularidade, levando o público politicamente mais engajado a sempre privilegiar essa lente ao analisar uma nova animação ou série. Há verdades constatáveis e admitidas nessa teoria, mas também exageros. Muito do que circula, especialmente no que diz respeito à intenção da empresa com determinada obra, não passa de leitura pessoal de quem analisa. Legítima, mas subjetiva e nem sempre bem fundamentada.

Tratando-se de uma das maiores empresas de entretenimento do mundo, avaliada em aproximadamente 276 bilhões de dólares e com cerca de 220 mil funcionários espalhados pelo globo, a Walt Disney Company é um gigante que gera muito lucro, não só com bilheteria de seus filmes, mas principalmente com o que é vendido a partir deles: brinquedos, roupas, material escolar, ingresso para parques temáticos e uma infinidade de outros derivados.

Esse lembrete básico sobre a natureza da organização soa desnecessário para alguns, mas não pode ser ignorado numa análise que se pretenda criteriosa sobre o real interesse da companhia em promover algum tipo de doutrinação de seus consumidores. Obviamente, seus dirigentes são dotados de preferências ideológicas, filosóficas e políticas que, inevitavelmente, afetam suas decisões, mas tratando-se de uma multinacional cujos resultados financeiros interessam a muitos, no mundo todo, o fator lucro não pode ser ignorado na equação. Dito isso, convém partir daquilo que a multinacional diz de si mesma, por meio de seus porta-vozes e documentos.

Diversidade, igualdade e inclusão 

A Disney expõe em seu site institucional e em diversas iniciativas o apoio à promoção da diversidade, da equidade e da inclusão, conceitos adotados em formato bastante amplo. Para a empresa, eles envolvem, por exemplo, questões mais consensuais, como inclusão de pessoas com deficiência, respeito por culturas de outros países e luta contra a discriminação racial, ao mesmo tempo em que entra em temas espinhosos, como versões extremas de combate ao “privilégio branco” e outros especialmente polêmicos para uma empresa que lida com público infantil, como promoção da identidade de gênero e campanhas contra a transfobia. No caso das etnias, a companhia mantém publicado um “quadro da diversidade”, com a porcentagem étnica do total de seus funcionários, incluindo gerentes e executivos.

Há também o inusitado para padrões latino-americanos, como o fato de que colocam o apoio a veteranos militares nessa mesma categoria. Aliás, na página dedicada às ações de diversidade, igualdade e inclusão dentro de seu site institucional, o financiamento de entidades de apoio aos “heróis de guerra”, uma categoria querida para conservadores norte-americanos, é exposto junto da foto que mostra os funcionários da Disney numa parada gay, o que aparentemente, tenta enfatizar o quão abrangente é o conceito de diversidade com o qual trabalham.

Um dos exemplos mais recentes e relevantes do quanto a Disney abraçou a defesa desse conceito, ao menos enquanto política corporativa e de marketing, foi o lançamento do programa Reimagine Tomorrow (Reimagine o Amanhã, em português), em setembro de 2021. Segundo a própria Disney, o objetivo é “amplificar vozes sub-representadas e histórias não contadas”.

Em entrevista ao site institucional da empresa para celebrar o lançamento do programa, a vice-presidente sênior e chefe da divisão de Diversidade da Disney, Latondra Newton, afirmou: “Por meio do crescimento fenomenal dos negócios e esforços conjuntos para refletir o mundo em que vivemos, somos uma empresa diferente do que éramos havia apenas uma década. O Reimagine Tomorrow celebra esse progresso”.

A declaração e o próprio lançamento do programa foi visto por muitos como um aceno a elites progressistas dos Estados Unidos, críticos do suposto passado conservador da empresa e que frequentemente acusavam a companhia de “resistir” às suas pautas.

Antes do lançamento, Christopher Rufo, editor do City Journal, chegou a publicar um artigo intitulado “Disney, o lugar mais progressista da terra”, no qual expõe o que seria o conteúdo de documentos internos da companhia, direcionados a funcionários e relacionados ao Reimagine Tomorrow. Num dos trechos expostos por Rufo, o texto diz que os Estados Unidos “têm uma tradição de transfobia e racismo sistêmico” e que os funcionários brancos precisam “trabalhar seus sentimentos de culpa e vergonha para entenderem o que está por trás deles e o que precisa ser solucionado”.

O apoio da companhia à organização de eventos dedicados ao público LGBT também é conhecido e recentemente migrou do apoio meramente financeiro a grupos específicos para a condição de anfitrião. Em 2019, a Disney promoveu a primeira parada gay no interior de um de seus parques temáticos. Foi no complexo de Paris, na Europa, sob o título de Disneyland Paris Pride. A pandemia impediu que o mesmo fosse repetido nos anos de 2020 e 2021, mas a edição de 2022 já foi confirmada para o dia 11 de junho. Em maio de 2021, a companhia também lançou uma linha de produtos voltados ao “orgulho LGBTQ+”, incluindo roupas com estampas de seus personagens infantis nas cores da bandeira gay.

Entre o progressismo ocidental e o dinheiro chinês 

Conforme o exposto, ao tomarmos por base apenas a política corporativa da empresa parece haver evidência o suficiente sobre a visão de mundo majoritária na companhia e sua tendência – ou até militância – progressista. No entanto, entre esse fato constatável e a conclusão de que seus filmes promovem o mesmo progressismo das cartilhas para funcionários, há variáveis e evidências que não tornam a resposta tão óbvia quanto parece.

Shanghai Disney Resort, na China, onde a companhia investiu US$ 5,5 bilhões.
Shanghai Disney Resort, na China, onde a companhia investiu US$ 5,5 bilhões.| Divulgação

A explicação para isso passa pelo dilema que apenas empresas com o tamanho da Disney enfrentam, o fato de que seu país-natal já não é mais suficiente. Para sustentar seu gigantismo, a Disney precisa de clientes em todo o mundo e, nesse momento, há uma parte do planeta que a atrai mais do que todas as outras: a China.

Em 2016, a Disney abriu seu primeiro parque temático no país, em Xangai, com um investimento de 5,5 bilhões de dólares. Na época, o próprio Bob Iger, CEO da companhia, afirmou que aquele era o maior passo que a Disney já havia dado para crescer em um mercado. Em entrevista à rede de TV CNBC, ao ser questionado sobre o quão diferentes eram os consumidores chineses, ele disse: “Na verdade, eles confirmaram para nós o que nosso fundador Walt Disney acreditava em sua época. Nossas histórias são projetadas não apenas para uma faixa etária – crianças, pais ou avós – não apenas uma nacionalidade, não apenas para uma religião, nem geração; eles são projetados para todos”.

Pode até ser que as histórias da Disney sejam produzidas “para todos”, mas o fato é que há alguns anos a Disney dá ao mercado chinês mais atenção do que a qualquer outro e isso não tem a ver com apreço pela ideologia comunista. Trata-se de um país com 1,4 bilhão de habitantes, uma economia que não para de crescer, que se abriu a empresas estrangeiras há poucas décadas, com uma classe média emergente e que, em 2021, pelo segundo ano seguido, superou os Estados Unidos como maior consumidor de filmes do planeta.

Portanto, não é o mero desejo de diversidade étnica o que justifica o lançamento de três blockbusters com explícito apelo ao público oriental, em especial o chinês, só nos últimos dois anos (Mulan, 2020; Raya e o Último Dragão, 2021; Shang-chi e a Lenda dos Dez Anéis, 2021). Na relação com o consumidor chinês, aliás, o precioso conceito corporativo de diversidade parece ser um elemento com o qual a companhia parece disposta a ser flexível.

Os dirigentes da Disney sabem que a China é uma mina de ouro para seus negócios, mas também sabem que estão lidando com uma ditadura que mantém a economia e a cultura de seu país sob constante vigilância e controle. O modelo de “capitalismo de estado” que a China inventou permite que multinacionais lucrem muito em seu território, contanto que joguem conforme as regras determinadas pelo Partido Comunista Chinês. Bandeiras identitárias como a luta contra transfobia, a misoginia e o racismo sistêmico, definitivamente, não fazem parte dos interesses de Xi Jinping e seus subalternos.

Embora não dê a mínima para reivindicações de direitos humanos e seja promotor do materialismo ateu, o regime chinês manteve em muito características milenares da cultura chinesa, como a obediência dos filhos aos pais e distinções claras entre masculino e feminino. Analisando apenas a questão da sexualidade, a China de hoje é um país muito mais conservador do que a maioria das nações ocidentais. A homossexualidade deixou de ser crime apenas em 1997 e até 2001 era considerada uma doença mental. Em 2020, o regime publicou o primeiro código civil chinês, deixando o casamento gay de fora.

Não para por aí. Em fevereiro de 2021, o ministro da Educação do gigante asiático anunciou um projeto para atacar a "crise da masculinidade", entendida como um “efeito colateral” da política do filho único, e fomentar a criação de meninos “fortes e viris”. Isso porque, segundo o comunicado oficial, a presença de professoras em escolas infantis e a popularidade de celebridades da cultura pop teria tornado os meninos “fracos, inferiores e tímidos”.

A discrepância entre aquilo que o governo chinês quer para sua juventude e aquilo que a Disney ensina em suas cartilhas corporativas é tão gritante, tão incontornável, que há certo ceticismo entre alguns influenciadores progressistas norte-americanos quanto à possibilidade da agenda identitária ganhar nos filmes o mesmo vigor que têm nas publicações corporativas. As três produções recentes mencionadas anteriormente (Mulan, Raya e Shang-chi) são exemplos de obras feitas sob medida para não aborrecer a sensibilidade moral dos chineses.

No entanto, o caso do filme Eternos, da Marvel, sua subsidiária, ajuda a ilustrar o quanto está sendo difícil para a Disney manter uma reputação de empresa “engajada” em seu próprio quintal, sem desagradar o cliente preferencial no Oriente. Além de ter entrado para a história como o filme com a pior avaliação de crítica e público entre todos já produzidos pela Marvel Studios, a cena do beijo gay entre dois personagens resultou na rejeição da obra pelas autoridades chinesas responsáveis por avaliar produtos audiovisuais que tentam entrar no país. Assim, o filme não passou nos cinemas da China, exatamente como aconteceu na Arábia Saudita, Qatar, Kuwait, Bahrein e Omã, países do Oriente Médio que também estão no radar expansionista da empresa. O prejuízo com o ocorrido não foi divulgado, mas o filme arrecadou em torno de US$ 400 milhões, mundialmente, resultado bem abaixo da média das produções recentes do estúdio. Homem-Aranha – Sem Volta para Casa, por exemplo, fez US$ 1,37 bilhões. Após os banimentos, produtores da Marvel que consideravam um Eternos 2 como certo passaram a dizer que uma sequência “não era necessária”.

O que mostram os filmes? 

Há, portanto, uma distância considerável entre o que a empresa diz sobre si mesma (bem como as posições político-ideológicas defendidas por seus gestores e funcionários), e o material que chega aos cinemas e ao serviço de streaming, dado que, mais de uma vez, a Walt Disney Company demonstrou estar disposta a alterar suas produções para que fossem aceitas por públicos mais conservadores. Uma análise criteriosa do material produzido pela Disney revela um cenário muito mais complexo do que os meros interesses financeiros da empresa e, para isso, vale fazer um mergulho histórico.

Nascido em Chicago, no estado americano do Illinois, em 1901, Walter Elias Disney, a personalidade que jaz no coração da gigante do entretenimento, era um homem profundamente cristão e de valores republicanos, ainda que um tanto “politicamente ingênuo”, segundo seu principal biógrafo, Neal Gabler – o que lhe rendeu alguns apuros, entre acusações falsas de antissemitismo, apesar de suas vultosas doações para grupos judeus. Em 1937, sob aplausos efusivos do público e da crítica, Disney entraria para a história com o primeiro longa-metragem animado, o projeto que se tornara sua “menina dos olhos”, “Branca de Neve e os Sete Anões”.

Logo o estúdio se especializaria na adaptação de contos de fadas e histórias folclóricas – uma paixão pessoal de Disney – para as telas, em um processo que nunca careceu de controvérsias. Acredite-se ou não, as acusações de doutrinação ou mesmo de perversão dos valores morais remontam à época em que Disney ainda era vivo. Segundo Gabler, o pai do Mickey era “amplamente identificado com a degradação cultural”. Intelectuais o acusavam de desfigurar clássicos como “Pinóquio” (1940) e produzir filmes “fingidamente recatados”, além de infantilizar a cultura ao promover versões adaptadas dos contos de fada que oferecem a “ilusão de uma vida sem nenhum problema”. Ninguém menos do que J. R. R. Tolkien implicava com o produtor, por cujas obras declarava “sincera aversão”.

Vítima de um câncer no pulmão, Walt Disney morreria em 1966, depois de supervisionar a produção de “Mogli”. Não viveria, portanto, para ver o auge dos movimentos feministas e pelos direitos civis que chacoalhariam os Estados Unidos entre as décadas de 1960 e 1970, marcadas também por um longo inverno no estúdio: poucos filmes de sucesso foram lançados nessa época. A década de 1990, por sua vez, traria a chamada Era de Ouro da Disney: inaugurada “oficialmente” em 1989, com o lançamento de “A Pequena Sereia”, a maioria dos filmes que hoje se entende por “clássicos da Disney” pertence a esta safra: logo após o sucesso retumbante da história de Ariel, viriam “A Bela e a Fera” (1991), “O Rei Leão” (1994), “Pocahontas” (1996), “O Corcunda de Notre Dame” (1996) e “Mulan” (1998).

É de conhecimento geral que esta geração de desenhos apresenta novos perfis de protagonistas – sobretudo quando se trata da realeza da casa, as famosas princesas da Disney. Já nesta época, pais cristãos preocupavam-se que a sereia Ariel fosse muito rebelde e usasse pouca roupa, que a indígena Pocahontas apresentasse valores panteístas e que “O Corcunda de Notre Dame” fosse anticristão. Até mesmo “O Rei Leão”, objeto de inúmeras análises e elogios por parte de intelectuais conservadores (como o próprio Jordan Peterson) por sua forte mensagem sobre amadurecimento e responsabilidade, já foi acusado de promover a pauta LGBT através dos personagens Timão e Pumba e do vilão Scar.

Essas histórias, contudo, caíram nas graças do público e fomentaram toda sorte de interpretações. Mais de uma vez, o psicólogo canadense Jordan Peterson teceu loas às histórias de Aurora, Ariel e Bela, elogiando sobretudo seu conteúdo simbólico acerca da masculinidade e da feminilidade. “Encontre um monstro que queira ser um bom homem – e torne-o bom. Homens fracos não podem ser virtuosos”, prega Peterson, em referência a “A Bela e a Fera”.

A virada do século marcaria uma nova guinada nos estúdios Walt Disney que, a partir de 2006, incorporou os estúdios Pixar. Uma das primeiras produções conjuntas Disney/Pixar seria também a última animação em duas dimensões produzidas pelo estúdio: “A Princesa e o Sapo” (2009) trouxe, enfim, a primeira princesa negra da casa. A história da jovem Tiana, que trabalha duro para construir o próprio negócio e acaba por ensinar lições de responsabilidade e mérito ao mimado príncipe Naveen sofreu críticas de todos os lados: de pais que viam na história uma apologia à magia e dos que viram na prática do vudu por parte do vilão uma representação pejorativa das religiões africanas.

Os novos ventos trariam resultados vultosos na bilheteria. Especialmente em virtude do casamento com a Pixar, versada na construção de roteiros infantis complexos e emocionantes, a Disney angariou aplausos com a representação da paternidade em “Procurando Nemo” (2003), a caridade em oposição ao egoísmo em “Carros” (2006), a formação da personalidade com “Divertidamente” (2015), e toda a mensagem sobre lealdade, sacrifício, tirania e liberdade nos três primeiros filmes de “Toy Story” (1995, 1999 e 2010). O recente “Viva” (2018), que retrata a festa dos mortos da cultura mexicana em meio a uma história de profunda valorização da família e respeito aos antepassados, já foi comparado com a famosa frase de Edmund Burke, escritor britânico considerado o pai do conservadorismo moderno: “a sociedade é um contrato entre os mortos, os vivos e os que ainda não nasceram”.

Isso não significa, contudo, que entre as novas produções não haja acenos ao progressismo que suscitam críticas entre os conservadores. Em certo momento da história, a princesa Merida, protagonista de “Valente” (2012), luta pela “própria mão” para se libertar de uma promessa de casamento e afirma que “não está pronta para se casar, e talvez nunca esteja” – fala que despertou elogios de grupos feministas. É possível que poucas animações na história tenham sido objeto de tantos debates quanto a saga das duas irmãs, herdeiras do trono do reino fictício de Arendelle. Estreado em 2013, “Frozen” é a franquia mais rentável do estúdio, a ponto de ser contabilizada à parte das outras princesas. Até ser batida pelo recente sucesso “We Don’t Talk About Bruno”, da trilha sonora de “Encanto” (2022), “Let it go” foi a música de maior sucesso da história da Disney.

As interpretações acerca da história de Elsa e Anna não poderiam ser mais diversas. Figuras como Jordan Peterson e o comentarista americano Ben Shapiro classificaram o filme como “mera propaganda” progressista, afirmando que a obra perverte os símbolos e papeis masculinos e femininos ao relegar às personagens mulheres o papel de “salvar” o final feliz. Por sua vez, grupos LGBT não hesitaram em associar a jornada de autoaceitação da protagonista à homossexualidade, e chegaram a pressionar o estúdio para que a rainha Elsa tivesse uma parceira na sequência. Durante as entrevistas coletivas, os diretores desviavam-se do assunto, sempre com respostas evasivas. No fim, não aconteceu: a personagem termina “Frozen 2” solteira, sim, mas torna-se (alerta de spoiler!) um espírito protetor do reino, cedendo a coroa à irmã caçula. Apesar das críticas, a saga ainda é bem aceita entre pais cristãos: há textos de comentaristas católicos e evangélicos enaltecendo o amor fraternal apregoado no filme, bem como o alerta contra as paixões à primeira vista.

A mesma ambiguidade ocorre com “Moana” (2016), desenho inspirado na mitologia polinésia que foi criticado pelo intelectual católico ortodoxo Jonathan Pageau. Segundo Pageau, especialista em simbolismo, a versão da Disney peca por solapar o arquétipo da masculinidade apresentado pela cultura polinésia na figura do semideus Mauí para substituí-la for figuras femininas. Houve, contudo, quem enxergasse no próprio filme os próprios modelos complementares de masculino e feminino: o guerreiro representante da ordem que é vítima de sua própria arrogância e deve ser restaurado pela humildade, e a “grande mãe” geradora da vida que, corrompida, transforma-se em fonte de destruição.

Qual é a leitura correta? 

Afinal, a Disney quer ou não doutrinar as crianças no progressismo? Até que ponto faz sentido falar em doutrinação deliberada, ou em um mero reflexo dos tempos? Para o historiador Diego Klautau, doutor em Ciências da Religião e professor do Colégio Catamarã e do Centro Universitário FEI, o debate sobre a doutrinação é válido – e antiquíssimo. “Platão já se preocupava com o poder dos poetas, daqueles que mexem com a fantasia, com a linguagem e com os nossos afetos. É claro que, em uma economia de disputa de interesses, é possível falar de doutrinação. A questão é como lidar com ela e, diante dessas dificuldades que são reais, muitas vezes se cometem imprudências”, afirma.

Para o professor, há, portanto, que se avaliar caso a caso, inclusive quando a bandeira da diversidade está em pauta, uma vez que ela não é, em princípio, oposta aos valores morais do cristianismo, por exemplo. “A própria ideia de encarnação reflete a ideia de algo eterno, imutável, se faz presente em algo que é particular, próprio, contingente. A gente não precisa ser um homem, barbudo e carpinteiro, um judeu do século I, para ser como Cristo.  Uma pessoa de qualquer etnia, raça, sexo é chamada a buscar o bem, o belo e o verdadeiro. O debate sobre a inculturação do Evangelho - o desafio de não solapar as culturas pré-existentes nas missões – reflete o valor da diversidade. Não à toa o Papa Francisco diz que a Graça pressupõe a cultura”.

Mãe de três filhos, Luciana Lachance, apresentadora do canal “Onde Vivem os Livros”, no YouTube, também acredita que é preciso separar o joio do trigo. “Primeiro, depende da sua percepção de doutrinação. Não é tão fácil assim de julgar esses filmes. A Pequena Sereia, por exemplo, já era forte e rebelde. Por que ninguém reclamava dela? Além disso, as meninas não se prenderam ao modelo da Cinderela, as mudanças aconteceram apesar dos modelos antigos, porque a cultura envolve muita coisa”, avalia Luciana, que vê com bons olhos a luta por representatividade. “Eu vejo a ideologia de gênero como um problema, mas podemos pensar em como dialogar com aspetos dessa pauta, como a luta contra o machismo, por exemplo. Poderíamos encarar com um pouco mais de naturalidade”, explica.

A representação da mulher é, de fato, um dos debates mais acalorados que vêm à tona a cada novo lançamento do estúdio. Nesse sentido, o historiador Klautau avalia que também é preciso ampliar o olhar. “Os papéis femininos representados no nascimento da Disney refletem um modelo que espelha a sociedade americana nos anos 1950. As várias modalidades de mulheres que surgiram ao longo da história - inclusive santas - não necessariamente se esgotam nos modelos clássicos. Não dá para achar que a Branca de Neve ou a Cinderella são a expressão definitiva da moralidade feminina”.

“O anticatolicismo é uma realidade e o pós-modernismo atenta, sim, contra a transcendência”, complementa. “Só que o machismo e o racismo também são um problema. Os conservadores precisam entender que é possível defender o cristianismo também defendendo as minorias que sofrem. É importante ter muito cuidado com isso: há entre os cristãos pessoas cujos filhos são parecidos com a Moana, com a Raya, e que veem valor nesses filmes. No fim, não podemos ser ingênuos e aceitar tudo sem reflexão, mas não devemos ser catastrofistas nem apocalípticos”.

Há um outro aspecto a ser levado em conta quando se trata de produções cinematográficas: a própria natureza da criação artística, muitas vezes mal compreendida pelos próprios progressistas afoitos por “cancelar” desenhos animados cujo conteúdo – frequentemente simbólico e passível de diversas interpretações - desvia milimetricamente de seus ideais. Partindo deste princípio, a Disney atenta contra a própria liberdade artística e interpretativa, por subjugar a criatividade de sua equipe a critérios estanques: em abril do ano passado, a chefe da Walt Disney Television, Dana Walden, afirmou que já havia dispensado “roteiros incrivelmente bem-escritos” porque não eram “diversos o suficiente”. Por outro lado, certos grupos parecem mais afoitos do que o próprio estúdio para atribuir rótulos a qualquer produção artística.

“Os contos de fada são histórias orais muito simples marcados pela ausência de personalidades. Quando a Disney começa a criar personagens mais complexos, está seguindo uma tradição literária diferente. As histórias modernas têm várias camadas de interpretação e, no fim das contas, isso é o que se espera de uma obra realmente boa”, avalia Luciana, que recorda que o próprio C. S. Lewis, autor das Crônicas de Nárnia, dizia que se uma história só vale ser lida para crianças, não vale a pena ser lida. “O crítico literário Northrop Frye também alerta para o vício de achar que as histórias infantis precisam passar uma lição de moral. A imaginação não precisa ter preocupação com a realidade”, explica a youtuber.

“Cada obra de ficção tem suas próprias premissas, e elas têm que ser analisadas de acordo com o que a obra entrega. Quem analisa a arte a partir de certos pré-requisitos não percebe que está justificando os cancelamentos. A história da Moana, por exemplo, pode ser lida como a restauração das tradições de um povo, que descobre a própria identidade. O critério de suspensão de descrença hoje passa por suspender as próprias crenças antes de assistir ao filme”, defende o professor Francisco Escorsim, colunista da Gazeta do Povo.

“Boa parte das reclamações partem da esperança de que a Disney mantenha uma visão cristã. Só que a empresa já não abraça isso há muito tempo, e não podemos desejar que o mundo seja como era há séculos atrás. Lembremos que o cristianismo não nasceu hegemônico: ele teve que se misturar ao seu tempo. Um conservador, portanto, não precisa ter medo das mudanças, porque os valores perenes sempre acabam aparecendo. A arte narrativa é um espelho da ação humana e, ainda que a propaganda possa diminuir a arte, aquilo que é inerente à condição do homem brilha mais forte”, avalia.

Sobre a preocupação dos pais com a formação do imaginário, Escorsim endossa a postura de separar o joio do trigo: “Primeiro, nada é mais forte para a formação dos filhos do que o exemplo dos pais, e nenhum desenho tem a força de anular tudo isso. Por outro lado, se os pais se fecham mundo, é o caso de perguntar: para que mundo você está criando seu filho? Para impedir o contato com todo esse conteúdo, você vai ter que criar uma bolha social que vai dificultar bastante a vida”, explica o professor. No fim das contas, entre princesas clássicas e rebeldes, histórias tradicionais e inovadoras, misturam-se narrativas, propagandas e valores, posto que a arte, enquanto símbolo, nunca se esgota. Cabe aos pais e educadores o desafio e caminhar pelos novos tempos com prudência e criatividade para aplicar o conhecido conselho apostólico: “examinai de tudo, retém o que é bom”.

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