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História

A história secreta do grupo de mulheres que mudou o curso da 2ª Guerra Mundial

O livro “Code Girls” relata o papel crucial das decodificadoras norte-americanas durante os anos 1940

  • Randy Dotinga The Christian Science Monitor
Desembarque das tropas aliadas, na região da Normandia, no Dia “D” da Segunda Guerra Mundial | Arquivo Nacional/EUA
Desembarque das tropas aliadas, na região da Normandia, no Dia “D” da Segunda Guerra Mundial Arquivo Nacional/EUA
 
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"Trabalho feminino" tem uma definição não escrita: longo em horas, curto em termos de respeito. Tedioso, desgastante e mal pago (quando pago). Trabalham como empregadas, enfermeiras, atendentes, em fábricas e em casa, como donas de casa e mães. Mas é importante adicionar outra categoria à lista: decodificadoras. 

Antes e durante a Segunda Guerra Mundial, mais de 10 mil mulheres norte-americanas se dedicaram secretamente a quebrar e criar os códigos complexos usados pelas forças militares e diplomáticas. O que estava em risco era a vitória ou a derrota, ambas escondidas em padrões confusos de números e letras. 

"A importância militar e estratégica do trabalho delas era enorme", escreve a jornalista Liza Mundy em seu novo livro "Code Girls: The Untold Story of the American Women Code Breakers of World War II" (Garotas do Código: a história não contada das decodificadoras norte-americanas da Segunda Guerra Mundial, em tradução livre). Mas o papel crucial dessas jovens mulheres, muitas retiradas sorrateiramente de faculdades femininas, foi um "dos segredos melhor guardados de todo o conflito". Pelo menos até agora. 

Mundy descobriu o trabalho dessas mulheres em um livro sobre décadas de operações de contrainteligência que notava a grande quantidade de criptógrafos de códigos de guerra que eram professoras escolares. Intrigada, descobriu um mundo esquecido.  

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Livro “Code Girls”: autora Liza Mundy entrevistou várias decodificadoras, mulheres hoje com 90 anosHachette/Handout

Como costuma acontecer em tempos de guerra, mulheres assumiram trabalhos que, de outra forma, seriam dados para homens, aceitando muitas vezes pagamentos mais baixos do que eles recebiam. E decodificar códigos era outra linha de frente, segundo Mundy, mas que permitia que mulheres atacassem o inimigo com a inteligência em vez de bombas. 

Mundy não tem sucesso em decifrar completamente a complexidade extraordinária dos códigos e da criptografia para leitores leigos. Pode ser difícil entender exatamente como os códigos eram criados e decifrados. Mas fica claro que era necessário um trabalho intelectual intenso, assim como uma mistura de gênios individuais e coletivos. Sobretudo, decodificadores precisam encontrar padrões, necessitando de uma compreensão profunda do funcionamento da linguagem, dos formatos de mensagem e da própria matemática. 

Segundo Mundy, o fato que muitas mulheres sabiam usar calculadoras, máquinas de escrever e fazer relatórios foi de grande ajuda. 

As milhares de decodificadoras também se depararam com outros desafios. Elas não podiam falar sobre seus trabalhos e muitas viveram em condições precárias. Brigas internas e dramas no escritório eram comuns. Elas trabalhavam em "ambientes com egos masculinos grandes e conflitantes", escreve Mundy, exacerbados pelas tensões entre unidades de decifração do Exército e da Marinha. Para piorar as coisas, os homens costumavam ignorar os feitos das mulheres, com frequência por razões competitivas, e as julgavam pela aparência. 

Mas essa não é, porém, uma história de ressentimento e vitimização: apesar das frustrações e do isolamento, essas jovens procuraram e encontraram camaradagem, companheirismo e romance. 

Algumas cartas de amor contam parte das histórias delas, mas as memórias pessoais das próprias mulheres estão no centro de "Code Girls". Mundy entrevistou várias decodificadoras, mulheres que hoje estão com 90 anos. Mas nem mesmo a fragilidade da idade esconde a determinação delas.  

Uma se recusou a cancelar o compromisso mesmo depois de ter quebrado o quadril e pediu que Mundy fizesse a entrevista no centro de emergência, enquanto outra andou várias quadras para encontrar a autora quando o metrô da cidade parou. Uma terceira deu para a entrevistadora bolas feitas de meias para "jogar na televisão sempre que um político dissesse algo inútil".  

Outra decodificadora, uma das estrelas do livro, se preocupou em contar os segredos mesmo depois de agentes federais terem dado permissão e vários homens do mesmo período já terem espalhado detalhes por aí. "Conta, mãe!", pediu seu filho. Então ela contou. 

"Foi fácil", escreve Mundy, "entender como mulheres com tanta presença de espírito e coragem ajudaram os aliados durante a guerra"

Falando em presença de espírito e coragem, muitos leitores podem comparar "Code Girls" com o best-seller de 2016, “Estrelas além do tempo” (Margot Lee Shetterly, Balão Editorial, R$ 39,90), que foi adaptado para o cinema e indicado ao Oscar de Melhor Filme. Os dois livros se baseiam em entrevistas pessoais, histórias orais e arquivos, e nenhuma autora se inclina a imaginar cenas ou criar diálogos. 

A autora de Estrelas além do tempo, Margot Lee Shetterly, escreve que o título do seu livro é uma espécie de engano (em inglês, tanto o livro como o filme se chamam Hidden Figures, Personagens Escondidas em tradução literal). A história das matemáticas negras da NASA "não era tão escondida, apenas não vista", e estava à espera de alguém que encontrasse os pedaços e os juntassem em uma história maior.  

Livros como esses mostram uma devoção em mostrar histórias negligenciadas de heroínas do século 20. Fica aqui a esperança que esses livros comecem uma tendência editorial tão importante quanto o trabalho dessas mulheres.


Tradução Gisele Eberspächer

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