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Um modelo representado o vírus Sars-Cov 2, causador da Covid-19.
Um modelo representado o vírus Sars-Cov 2, causador da Covid-19.| Foto: AFP

A origem exata da pandemia de novo coronavírus ainda não foi determinada. A mais provável é que, assim como a SARS, tenha vindo de mercados chineses que vendem animais silvestres, como morcegos e pangolins, vivos. Uma mutação no vírus permitiu que ele fizesse o salto necessário para contaminar humanos. Os Estados Unidos investigam outra possibilidade, a de que o vírus tenha escapado de um laboratório em Wuhan, cidade onde a pandemia começou. Porém nada foi provado por enquanto.

Na mesma China, no fim de 2018, foi anunciado o nascimento dos primeiros bebês modificados geneticamente. A técnica usada foi a Crispr (lê-se “Crísper”), uma ferramenta que permite editar trechos de genes. Embora esteja em fase embrionária, a técnica é promissora. Já existem estudos que a utilizam para tentar curar doenças genéticas como a talassemia beta e a anemia falciforme.

Desde que o novo coronavírus se tornou um problema mundial, foram iniciados estudos testando a técnica para matá-lo. Na Universidade de Stanford, uma equipe conseguiu matar 90% dos vírus em testes. Seria mais do que suficiente para evitar a doença por completo. Não dá para se animar ainda. Esse tipo de pesquisa passa por várias etapas até começar a ser testada em seres humanos. Coisa de vários anos.

O problema é que a Crispr também pode ser usada para criar vírus. “Eu temo que a Crispr faça a Covid-19 parecer brincadeira de criança”, escreveu o médico Neal Baer, que também é produtor de TV (ele é um dos responsáveis pelas séries ‘ER’ e ‘Law & Order: Special Victims Unit’), em um artigo para o site americano STAT, especializado em saúde.

A técnica Crispr é revolucionária justamente por ser fácil de usar. “O que impede um cientista mal-intencionado de usar a Crispr para criar uma versão ainda mais mortífera do vírus Ebola ou uma SARS ainda mais transmissível?”, questiona Baer.

Antes de existir a Crispr, manipulação genética era algo extremamente caro, demorado e difícil. E com resultados muitas vezes imprevisíveis. A Crispr mudou isso. "Um cientista ou biohacker com conhecimento básico de laboratório poderia comprar sequências de DNA e, usando a Crispr, editá-las para criar uma bactéria ou vírus", afirma Baer.

A longa história das armas biológicas

As possibilidades são ao mesmo tempo aterrorizantes e bastante plausíveis. Ditaduras como a norte-coreana e mesmo a chinesa podem usar a ferramenta para criar armas biológicas. Não é algo nem de longe inédito na história. Os Citas, uma tribo do século 7 A.C. que ocupava uma área vasta entre a Europa e Oriente Médio, usava veneno de cobra misturado a sangue humano na ponta de suas flechas. Em 1346, durante o cerco mongol a Caffa, uma cidade genovesa localizada onde atualmente fica a Crimeia, os mongóis catapultaram mortos pela Peste Negra para dentro dos muros. Ingleses disseminaram de propósito a varíola entre os indígenas norte-americanos. Durante a Guerra Civil Americana, os Confederados tentaram espalhar febre amarela nas cidades do norte.

Essa guerra biológica foi aprimorada a partir do século 19, quando o cientista francês Louis Pasteur finalmente desvendou o mecanismo das doenças infecciosas. Na 1ª Guerra Mundial, a Alemanha desenvolveu um programa voltado a atacar os animais de carga das tropas inimigas com antraz. Na 2ª Guerra Mundial, os japoneses usaram a China como campo de testes. Aviões jogaram trigo e arroz cheios de pulgas infectadas com a bactéria Yersinia pestis, causadora da peste bubônica, sobre a cidade de Ningbo, na província de Zhejiang, causando 106 mortes. Vários outros experimentos foram levados a cabo pelos japoneses. Estima-se que 250 mil chineses morreram, segundo informações levantadas pelo Exército norte-americano. A China comunista, que tomou o poder após a guerra e se mantém até hoje, iniciou seu próprio programa de guerra biológica, que perdura até hoje e sobre o qual pouco se sabe.

Em tempos recentes, a África do Sul usou armas biológicas contra os militantes do Congresso Nacional Africano (CNA), partido do qual Nelson Mandela fazia parte. Nos anos 80, o governo racista sul-africano desenvolveu um programa chamado Project Coast, cuja intenção era contaminar os líderes do CNA e seus apoiadores. Os sul-africanos cederam amostras de antraz e cólera para o governo da Rodésia (atual Zimbábue) combater as guerrilhas locais, matando milhares de pessoas.

Desde 2004, o Conselho de Segurança da ONU exige que seus membros assinem a resolução 1540, que previne o uso de armas biológicas.

No entanto, estes exemplos do passado mostram que governos totalitários ou ações de terroristas podem fazer uso sem preocupações éticas ou morais. Com a ascensão da Crispr, agora eles têm em mãos uma ferramenta de uso relativamente fácil. Baer, em seu artigo, diz que é necessário agir agora. “[A Crispr] está aqui, tão presente, imprevisível, e poderosa quanto a Covid-19.”

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