A ideia de que um computador onisciente é capaz de planejar e eliminar as falhas humanas no processo é uma fantasia.| Foto: Pixabay

O ensaio “Cálculo Econômico na Comunidade Socialista”, de Ludwig von Mises, faz referência à peça Os Pássaros, de Aristófanes, e à fantasia medieval da idílica Terra de Cockaigne no momento em que Mises nota, a respeito dos socialistas, que

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a economia como tal aparece esparsamente nas imagens glamorosas pintadas pelos Utópicos. Eles invariavelmente explicam como, em sua loucura, frangos assados de alguma forma voarão para dentro das bocas de seus camaradas, mas eles não demonstram como este milagre se dará. [1]

Fantasias utópicas

Da mesma forma, Don Lavoie aponta para o aspecto fictício/fantástico do planejamento socialista ao comentar, no livro Rivalry and Central Planning [Rivalidade e planejamento central], que

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Os detalhes da sociedade do futuro são algo que pertence não ao campo das ciências econômicas, e sim da literatura especulativa. [2]

Percebe-se o romance de fantasia sendo escrito no artigo “Planejamento Participativo”, de Michael Albert e Robert Hahnel, já que eles reforçam justamente os detalhes de como a versão deles do planejamento socialista vai funcionar:

Todo indivíduo, família ou unidade de vida pertenceria a um conselho de consumo da vizinhança. Cada conselho pertenceria a uma federação de vizinhanças do tamanho de um distrito urbano ou condado rural. Cada distrito pertenceria a um conselho municipal de consumo, cada conselho municipal e rural a um conselho estadual e cada conselho estadual pertenceria ao conselho nacional de consumo.

Um motivo para se criar os conselhos de consumidores é aceitar o fato de que tipos diferentes de consumo afetam certa quantidade de pessoas. A cor da minha cueca só diz respeito a mim e meus conhecidos mais íntimos. A grama por contar no meu quarteirão diz respeito a todos os que nele vivem (...) A segurança nacional afeta todos os cidadãos num país e a camada de ozônio afeta toda a Humanidade – o que significa que minha escolha do desodorante, ao contrário da minha escolha de roupa íntima, causa mais preocupação do que em mim e nos meus conhecidos íntimos! [3]

Isto é, para aqueles que perderam as contas, são ao menos cinco níveis de conselhos, cada qual tendo supostamente reuniões regulares para tratar do trabalho produzido pelos outros conselhos. Os socialistas vão estar bem ocupados. E terão de estar, já que algo pessoal como um simples desodorante será, aparentemente, questão de debate público no conselho. (É de se perguntar, por acaso, como Albert e Hahnel têm coragem de ignorar a imensa importância de se escolher algodão sem alvejante, orgânico e eticamente comercializado para a confecção das roupas íntimas. Mas o conselho da vizinhança deles supostamente lidará com esse lapso na responsabilidade social).

É impossível eliminar as falhas humanas

A fantasia maluca aqui é a de que essas reuniões não terão nenhum atrito, eliminarão infinitas oportunidades de se aproveitar das políticas governamentais, não se transformarão em regras impostas por pessoas com mais tempo disponível para frequentar as reuniões ou com mais facilidade para se expressar ou simplesmente com as vozes mais altas e intimidadoras.

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A fantasia é a de que reuniões frequentes permitirão que superemos a natureza humana. Por isso é fácil rir de planos como os de Albert e Hahnel. Perceber suas muitas falhas é algo que não exige mais experiência ou bom senso do que se pode ter frequentando uma ou duas reuniões do orçamento participativo local ou até reuniões de pais e mestres.

Talvez menos problemático seja o foco cada vez maior num tipo diferente de fantasia quanto a como podemos fazer com que o planejamento socialista realmente funcione desta vez. Essa é a fantasia do computador onisciente que automatiza o planejamento e elimina as falhas humanas do processo. É fácil e, confesso, tentador rir disso como uma cena de Star Trek que fugiu ao controle. Mas o argumento merece ser levado a sério por si só – não só por seu desafio técnico em potencial às objeções liberais clássicas ao planejamento socialista como também por seu problema moral.

Allin Cottrell e W. Paul Cockshott argumentam em “Cálculo, complexidade e planejamento” que aqueles que se opõem a um planejamento centralizado tendem a ignorar o argumento de que, para que o planejamento socialista funcione, é preciso apenas uma habilidade cada vez maior de se realizar cálculos velozes e corretos. Contudo,

o “argumento computacional” é relevante e (...) progressos recentes na tecnologia da computação tornam possível um sistema de planejamento socialista eficiente. [4]

A evolução rápida da inteligência artificial

A computação está evoluindo a uma velocidade impressionate. Como disse Christopher Lee no Washington Post:

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O primeiro supercomputador em “peta escala” será capaz de realizar 1000 trilhões de cálculos por segundo. Isso é aproximadamente duas vezes mais do que o modelo mais potente hoje, um monstro do tamanho de uma quadra de basquete conhecido como BlueGene/L, no Departamento de Energia do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, na Califórnia, que realiza 596 trilhões de cálculos por segundo.

O poder de computação das máquinas em peta escala será semelhante ao de mais de cem mil computadores domésticos juntos, dizem os especialistas. Um cálculo que leva horas num computador doméstico e que hoje pode ser feito em cinco horas nos supercomputadores atuais será feito em menos de duas horas.

Então somos capazes de fazer mais cálculos – e mais rápido. Mas é sobretudo nas redes neurais que os socialistas do século XXI parecem depositar sua fé. Essa evolução já começou a permitir que os computadores cheguem perto dos cérebros biológicos. Eles são, grosso modo, uma tentativa de se inspirar na complexidade das redes neurais e criar uma versão artificial que permita aos processadores se aterem a aspectos mais importantes de determinada informação e tomarem decisões sem precisarem “fazer todos os cálculos”.

Aprendendo com a borboleta

Cottrell e Cockshott falam de como uma borboleta supostamente avalia os curtos e benefícios quando está procurando néctar.

Parece que as redes neurais são capazes de produzir comportamento ótimo (ou ao menos extremamente eficiente), mesmo diante de restrições cada vez mais complexas, sem reduzir o problema ao aumento ou diminuição de uma grandeza escalar.

O fato de tal feito poder ser realizado por uma borboleta, argumentam, sugere que isso pode ser feito em larga escala por um computador para fins econômicos em geral. Isto é,

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se alguém quiser realizar cálculos globais sobre toda a economia, outras técnicas computacionais, tendo muito em comum com a forma como se supõe que os neurônios funcionam, talvez sejam mais adequadas, e isso pode, em princípio, ser realizado sem recorrer à aritmética.

Em outras palavras, uma tecnologia boa o bastante elimina a necessidade da matemática e o argumento de que o planejamento socialista é uma impossibilidade técnica.

A tecnologia tornará as utopias possíveis?

Argumentos como os de Cottrell e Cockshott, me parece, mostram um problema mais importante para os liberais clássicos e libertários do século XXI do que os argumentos risíveis dos socialistas à moda antiga. Como adoramos inovações e o progresso tecnológico, talvez seja tentador depositar muita esperança nas soluções técnicas. É uma questão com duas possibilidades. A primeira é a de sempre: a tecnologia já é capaz disso?

Alguns cientistas que conheço indicam que, até agora, não. Mas eles não estão inclinados a ignorar essa possibilidade para o futuro, levando em conta a velocidade de ampliação das nossas capacidades técnicas. Isso levanta a segunda e mais importante questão: mesmo que seja possível que um computador funcione de acordo com o argumento de Cottrell e Cockshott, nós deveríamos usá-lo para este fim?

E quanto à escolha entre agir moral e imoralmente? Entre a liberdade e a escravidão? Esse deve ser o novo foco do velho debate do cálculo socialista.

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1 Mises, Ludwig von, “Economic Calculation in the Socialist Commonwealth” em Collectivist Economic Planning: Critical Studies on the Possibilities of Socialism, editado por F. A. Hayek, 87-116. London: Routledge, 1947

2 Lavoie, Don. Rivalry and Central Planning: The Socialist Calculation Debate Reconsidered. New York: Cambridge University Press, 1985.

3 Albert, Michael e Robin Hahnel. “Participatory Planning.” Science and Society 56, no. 1 (Primavera, 1992): 39-59.

4 Cottrell, Allin e W. P. Cockshott. “Calculation, Complexity, and Planning: The Socialist Calculation Debate Once Again”. Review of Political Economy 5, no. 1 (Julho, 1993): 73-112.

Sarah Skwire é bolsista do Liberty Fund, Inc. Ela é poeta e membro da FEE.

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© 2019 FEE. Publicado com permissão. Original em inglês