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Antigo cartaz de propaganda comunista.
Antigo cartaz de propaganda comunista.| Foto: Wikimedia Commons

Na última quinta-feira (27), um momento aparentemente constrangedor jogou holofotes sobre a execução de uma música que para os socialistas é quase tão rotineira quanto o próprio hino nacional. Trata-se de ‘A Internacional’, nome pelo qual militantes de esquerda chamam a canção que ficou mais conhecida como Internacional Socialista, um antigo poema escrito há 151 anos e que já foi usado até como hino da União Soviética. A música foi tocada durante o evento do Partido Socialista Brasileiro (PSB), em Brasília, no qual estavam o ex-presidente Lula e o seu novo parceiro, o candidato à vice-presidência da República Geraldo Alckmin. Foi a primeira vez que o ex-tucano, apontado erroneamente como conservador por alguns, é gravado demonstrando respeito quase devocional a um símbolo comunista, entoado em ditaduras do mundo todo.

Embora tenha o mesmo nome, a música Internacional Socialista (L'Internationale, no original em francês) surgiu muito tempo antes da organização política intitulada Internacional Socialista, dedicada a difundir o que chamam de ‘socialismo democrático’. Essa entidade, caracterizada pelo símbolo da mão segurando uma rosa – exatamente o mesmo usado pelo PDT de Ciro Gomes - foi fundada em 1951, enquanto a origem da música remonta a 1871, tendo nascido como versos do francês Eugéne Pottier. Ele era membro da Comuna de Paris, uma insurreição comunista que chegou a tomar o poder na França naquele ano, mas, logo em seguida, foi derrotada pelos remanescentes do regime bonapartista deposto. Pottier teria escrito os versos como um lamento após o fracasso da investida, de modo a alimentar o sentimento de vingança entre seus pares.

Historiadores apontam que a intenção de Pottier era de que a letra fosse cantada ao som da Marselhesa, o hino nacional da França, mas em 1888, outro comunista, Pierre De Gayter, compôs uma melodia própria usando o poema de Pottier e foi essa a versão que se popularizou entre os partidos de esquerda de toda a Europa no final do século XIX. Em 1919, o próprio Lênin oficializa a canção como hino da União Soviética, o que foi mantido até 1943, quando Stalin decidiu fazer uma mudança, substituindo-o por outro mais patriótico e menos internacionalista.

As mentiras da letra  

Se funciona bem enquanto poema, por difundir uma versão utópica e romantizada do comunismo, a história da União Soviética e de outros países que se deixaram levar pelo marxismo é suficiente para explicitar as extravagantes contradições no conteúdo da letra.

Logo de início, os primeiros versos falam em “vítimas da fome”, mas se houve um governo que usou a fome para fazer vítimas como nenhum outro havia feito até então foi justamente a União Soviética. Entre 1932 e 1933, um programa de reorganização da agricultura ordenado por Stalin matou pelo menos dois milhões de ucranianos nos cálculos mais tímidos. A tragédia ficou conhecida como Holodomor e foi recentemente reconhecida oficialmente pelo Senado brasileiro como um genocídio.

Ao longo da música há também uma série de frases que remetem ao fim de figuras com autoridade, como “De pé, não mais senhores” ou “Uma terra sem amos”, afirmações que soam especialmente estranhas quando se conhece o quão autoritários foram e são os regimes de inspiração comunista, nos quais o ditador revolucionário acaba sendo ‘senhor’ de tudo, com pouco ou nenhum espaço para autênticas propriedades privadas, direitos humanos ou liberdade de expressão.

Por fim, convém destacar a estrofe que se refere à riqueza, na qual constam os versos ‘Sobre o suor de quem trabalha/Todo o produto de quem sua/A corja rica o recolheu’. Tendo em vista a prática da estatização de negócios particulares, a tomada de bens à força e as evidências do quanto os governantes comunistas enriqueceram, é difícil não se questionar se os socialistas de hoje, cientes da história dessa ideologia, estariam sendo ingênuos ou hipócritas.

Confira a íntegra da versão em português da Internacional Socialista:

De pé, ó vítimas da fome 
De pé, famélicos da terra 
Da ideia a chama já consome 
A crosta bruta que a soterra 
Cortai o mal bem pelo fundo 
De pé, não mais senhores 
Se nada somos em tal mundo 
Sejamos tudo, ó produtores

Bem unidos façamos 
Nesta luta final 
Uma terra sem amos 
A Internacional

Senhores, patrões, chefes supremos 
Nada esperamos de nenhum 
Sejamos nós que conquistemos 
A terra-mãe livre e comum 
Para não ter protestos vãos 
Para sair desse antro estreito 
Façamos nós por nossas mãos 
Tudo o que a nós nos diz respeito

Bem unidos façamos 
Nesta luta final 
Uma terra sem amos 
A Internacional

Crime de rico a lei o cobre 
O Estado esmaga o oprimido 
Não há direitos para o pobre 
Ao rico tudo é permitido 
À opressão não mais sujeitos 
Somos iguais todos os seres 
Não mais deveres sem direitos 
Não mais direitos sem deveres

Bem unido façamos 
Nesta luta final 
Uma terra sem amos 
A Internacional

Abomináveis na grandeza 
Os reis da mina e da fornalha 
Edificaram a riqueza 
Sobre o suor de quem trabalha 
Todo o produto de quem sua 
A corja rica o recolheu 
Querendo que ela o restitua 
O povo quer só o que é seu

Bem unidos façamos 
Nesta luta final 
Uma terra sem amos 
A Internacional

Fomos de fumo embriagados 
Paz entre nós, guerra aos senhores 
Façamos greve de soldados 
Somos irmãos, trabalhadores 
Se a raça vil, cheia de galas 
Nos quer à força canibais 
Logo verá que as nossas balas 
São para os nossos generais

Bem unidos façamos 
Nesta luta final 
Uma terra sem amos 
A Internacional

Pois somos do povo ativos 
Trabalhador forte e fecundo 
Pertence a Terra aos produtivos 
Ó parasitas, deixai o mundo 
Ó parasita que te nutres 
Do nosso sangue a gotejar 
Se nos faltarem os abutres 
Não deixa o Sol de fulgurar

Bem unidos façamos 
Nesta luta final 
Uma terra sem amos 
A Internacional

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