O lockdown em Paris, com a inefiência do governo e o sentimentalismo e denuncismo do povo, lembrou a ocupação da França pelas forças alemãs.| Foto: Pixabay
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Durantes os muitos anos em que trabalhei como médico penitenciário, nunca se passou um dia sem que eu me perguntasse como reagiria à prisão. “Deus me livre e guarde” era um refrão na minha mente, quando não a pergunta de Hamlet a Polônio: “Trate cada homem conforme seu mérito, e quem escapará do açoite?”

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Claro que todos já fizeram na vida algo que talvez justifique sua prisão. Nunca sonhei, contudo, que 15 anos depois de me aposentar eu me submeteria a uma espécie de prisão, ainda que amena, em Paris, sem poder deixar meu apartamentinho por mais de uma hora por dia – e somente com permissão, ou laissez-passer. Só em um sentido minha prisão foi mais dura do que a prisão de verdade: eu não podia receber visitas e não tinha direito a nenhum contato social casual.

Trabalhando na prisão, me surpreendia ao descobrir que pessoas das quais talvez se dissesse que não suportariam a cadeia eram capazes de suportá-la com relativa facilidade, quando não prazer. Refiro-me a pessoas como eu mesmo: médicos profissionais de outras áreas e acadêmicos que às vezes (para meu constrangimento) acabavam presos.

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É de se pensar que a prisão seria uma tortura insuportável para eles, humilhados com a perda de prestígio, obrigados à promiscuidade social com pessoas com as quais eles normalmente não se relacionariam, ouvindo barulhos constantes que impossibilitavam a concentração, privados da sensação de controle da própria vida que até então eles não apreciavam, sem poder decidir o que comer, ler ou fazer e sujeitos aos favores de homens muito menos instruídos do que eles. Mas eles se adaptam sem maiores dificuldades. Eles não estavam, como muitos prisioneiros de primeira viagem, sujeitos a pensamentos suicidas. Citando o velho ditado usado pelos mais experientes para aconselhar os presos mais jovens, eles “abaixavam a cabeça e seguiam em frente”. Em outras palavras, não incomodavam as autoridades, reclamavam pouco e se mantinham dignos.

Por que eles eram capazes de se adaptar tão bem? Sejam lá quais forem as vantagens – e às vezes as desvantagens – que a educação e a inteligência possam conferir fora da prisão, dentro dela a educação e a inteligência permitiam que os prisioneiros se distanciassem da própria condição e se interessassem pelo entorno estranho: porque, assim como o passado, a prisão é um território estranho; eles fazem coisas diferentes lá e a diferença é interessante em si, mesmo que ela represente uma piora.

Também me surpreendia ao notar que a maioria dos presos não expressava hostilidade em relação àqueles das classes flagrantemente mais altas. Eles não nutriam aversão à hostilidade: um policial ou agente penitenciário na prisão enfrentam problemas. Mas professores, doutores e advogados não sofriam o mesmo tratamento. Talvez minha surpresa fosse prova de como as pessoas instruídas absorveram por completo a ideia da luta de classes, que naquela situação elas esperam ver se manifestar a todo instante.

Mas as pessoas instruídas eram bens preciosos para os demais prisioneiros: eles podiam pedir ajuda aos médicos e advogados, e todos podiam ajudá-los escrevendo cartas, sobretudo para as autoridades (mas às vezes cartas de amor também), uma vez que o talento para a escrita não era comum entre os prisioneiros.

O fato de a privação da liberdade ser o único castigo imposto aos criminosos contumazes, e não as dificuldades do regime prisional em si, tornou-se doutrina penal durante minha carreira. Assim, as condições físicas melhoraram nas prisões – tanto que em alguns casos as condições na prisão se tornaram melhores do que os lares de alguns presidiários. Isso descumpre um princípio da Lei dos Pobres de 1834, que determina que as medidas de alívio à pobreza devem ser menos atraentes do que as formas de se ganhar o sustento pelo trabalho.

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Ainda assim, para a maioria dos prisioneiros a privação da liberdade continua sendo profundamente desagradável. Os mais instruídos, contudo, estão mais bem preparados para enfrentar essa privação, já que também estão mais bem preparados para, como diz Ricardo II, “enfrentar esse mundinho” com seus pensamentos.

Piadas

O confinamento num apartamentinho em Paris não é, claro, comparável às prisões nas quais trabalhei como médico. Um apartamento não é uma cela. Eu ao menos podia ir de um cômodo a outro. Além disso, eu não estava nem mais nem menos preso do que todo mundo. A experiência, a consciência e a existência de um mundo livre fora da prisão são um tormento para muitos condenados, já que é a comparação com os mais afortunados, e não a situação em si, o que leva ao desespero. O fato de todos em Paris estarem no mesmo barco – iguais no infortúnio – era uma espécie de consolo. As opções de alimentação e a disponibilidade de vinho continuavam iguais, e eu podia me comunicar eletronicamente com quem eu quisesse, algo que os prisioneiros de verdade não podem fazer.

Mas se havia diferenças importantes entre mim, durante o confinamento, e os prisioneiros, também havia semelhanças. De acordo com as leis, eu podia, como um prisioneiro, fazer uma hora de exercício ao ar livre por dia e, embora não houvesse um pátio interno para eu ficar andando de um lado para o outro feito um animal, eu não podia me afastar mais de 1km da minha casa. Uma vez lá fora, eu tinha de levar comigo um documento especial com meu nome, data de nascimento, endereço e horário em que deixei meu domicílio. Eu tinha de apresentar esse documento, juntamente com uma prova de identidade, se um policial me pedisse.

Quando cheguei a Paris, o governo ainda não tinha imposto o lockdown total, embora todos os restaurantes, cafés e eventos públicos já tivessem fechado. O trem que partiu de Londres estava cheio de jovens trabalhadores franceses que temiam que em breve seriam proibidos de voltar para casa; e as estações de Paris estavam cheias de pessoas fugindo da epidemia, pegando trens (talvez os últimos, pensavam elas) para o interior, onde estariam em segurança. Cerca de 10% da população de Paris saiu da cidade, o que me fez lembrar do Êxodo de 1940, a fuga de milhões de franceses diante do avanço das tropas alemãs, ou talvez os ricos fugindo da peste nas cidades medievais, ainda que esse movimento populacional novo fosse menor e menos motivado pelo pânico – já que a ameaça não era exatamente crível.

O taxista da estação fez piada da coisa toda, dizendo que ao menos itens essenciais que não comida, como os cigarros, ainda estariam sendo vendidos – o tabaco não seria incluído nas leis de quarentena. Ele claramente não estava com medo; mas as ruas já estavam vazias e um tanto quanto tristes.

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Alguns dias mais tarde, estávamos proibidos de sair sem um bom motivo, como comprar itens essenciais, cuidar de um parente ou trabalhar (com a prova necessária emitida pelos empregadores) ou para uma hora de exercício ao ar livre. O formulário inicial o mandava jurar pela honra, mas isso acabou retirado. Era antiquado demais.

De certa forma, agora estávamos piores do que os presidiários: o contato cara a cara era basicamente impossível, já que éramos obrigados a manter uma distância de dois metros de qualquer estranho. A analogia mais próxima a isso na prisão era a distância que os prisioneiros comuns tinham de manter dos condenados por crimes sexuais que estavam sendo levados à capela ou à área de visitas. Isso era para proteger os condenados por crimes sexuais de ataques.

Exceto por umas poucas pessoas refratária às medidas (poucas no meu bairro), que não se importam muito com os decretos, todos realizados uma espécie de pas de deux nas ruas a fim de garantirmos que guardávamos distância uns dos outros. Do lado de fora dos mercados, surgiram homens cuja função era semelhante à dos leões-de-chácara: eles determinavam quem podia entrar, e quando. Um homem do lado de fora da agência dos correios fazia uma espécie de triagem dos que esperavam, de acordo com o serviço requisitado. As lojas menores, como a peixaria, criaram barreiras na entrada; não era possível entrar e ver o que estava à venda; era preciso fazer o pedido do lado de fora.

O que mais me impressionou foi a agilidade e totalidade da transformação da vida, e a passividade com que aceitamos isso. Isso era um caso de disciplina social elogiável ou uma confirmação da imagem que Tocqueville fazia dos futuros cidadãos da democracia como ovelhinhas acostumadas a regulamentações minuciosas criadas por uma autoridade supostamente benevolente, incapaz de pensar e agir com independência?

A obediência era ainda mais surpreendente porque o governo deu todos os sinais de incompetência e incoerência pouco antes do lockdown. Ele tinha “aconselhado” a população a guardar o distanciamento social – é incrível a rapidez com que termos novos entram para o nosso vocabulário e se tornam familiares, ao ponto de não lembrarmos mais de quando não os usávamos — mas insistiu em organizar eleições municipais, o que não é exatamente o melhor método para manter as pessoas distantes. Depois disso, o governo castigou a população por não ter acatado o conselho e impôs o que antes era apenas uma recomendação.

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Fantasma da Ocupação

No começo, o confinamento era quase divertido. Um pouco de inconveniência é visto como uma variação empolgante da monotonia da vida cotidiana. Todos gostamos de pensar que vivemos numa época importante. Poucos viveram algo comparável a essa epidemia, ou ao menos à reação que ela causou. Os que se lembram da Ocupação de Paris são raros e bastante velhos. Minha sogra era adolescente. Ela se lembra daquela época como um tempo de frio e fome, mas também – o que é estranho – de intensidade cultural.

O fantasma da Ocupação perde força, mas ainda está presente em Paris: numa história que já contei antes, por exemplo, minha sogra estava no ônibus um dia e começou a conversar com uma estranha, uma senhora da mesma idade dela. “Onde você mora?”, perguntou a estranha, e minha sogra lhe disse. “Qual o número do apartamento?” Minha sogra respondeu e a mulher se pôs a chorar. Era o apartamento onde ela, uma judia, vivera escondida durante toda a Ocupação, sem ousar olhar pela janela porque o prédio ficava diante de uma antiga delegacia de polícia transformada em posto de comando alemão. No apartamento em cima do da minha sogra mora uma senhora cujo irmão foi enviado num dos últimos comboios de deportados — em 1944, para a Estônia, de onde nunca mais voltou.

Alguns parisienses mais velhos, portanto, conhecem bem o confinamento sob condições muito piores do que as de hoje. Ainda assim, para a maioria das pessoas, a imagem da cidade estranhamente sem trânsito e com a vida quase comum é algo novo e completamente inesperado.

Uma inconveniência interessante por causa da novidade começa a irritar com o passar do tempo. Amigos de outros países me perguntavam como estavam as coisas em Paris, mas o que eu podia responder? Podia falar só do que eu observava nas poucas ruas ao redor da minha casa na hora diária em que me permitiam observar alguma coisa. Sim, eu era capaz de, olhando pela janela, observar algo que não tinha visto antes: o tráfico de drogas nos jardins do prédio em frente. Se isso começou a ocorrer por causa da situação nova ou se era uma tradição, não sei. Nunca tinha olhado muito pela janela antes. Notei que o canto dos pássaros aumentou também - ou foi o barulho dos carros que diminuiu, não sei.

Paris na primavera! O clima, dia após dia, era bom e ensolarado, sem nuvens, o chamando como o canto das sereias. Se o tempo estivesse cinza ou chuvoso, seria menos deprimente ter de ficar dentro de casa. Até mesmo durante a hora diária de liberdade – e a gente só aprecia o ar livre quando é privado dele – não havia espaços verdes porque os espaços verdes estavam fechados ao público.

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Esse fechamento se baseava em algo remotamente parecido com a ciência? Será que as pessoas nos espaços verdes corriam mais risco de pegar doenças do que as pessoas nas ruas estreitas? Por outro lado, as autoridades supostamente achavam que as pessoas se aglomerariam numa promiscuidade irresponsável se tivessem espaço para isso. Para as pessoas sem um jardim para chamar de seu – a maioria das pessoas na região central de Paris – a falta de espaços verdes era uma dificuldade a mais, sobretudo para as crianças e os mais jovens.

No final da minha rua há um jardinzinho público, fechado como os demais. Na entrada há um aviso que parecia de outra era, mais feliz: cuidado com as lagartas. Essas lagartas —Thaumetopoea pityocampa — que andam em fila e são capazes de causar muita destruição aos pinheiros, têm o corpo recoberto por pelos que, quando tocados, causam uma reação grave. Ah, o que eu não daria para ser livre e sofrer com as lagartas, para ser livre e ter medo das abelhas como se elas fossem a pior coisa que podia nos acontecer!

Coerção policial

Os policiais estavam nas ruas para ver se todos tinham seu laissez-passer em dia. Um jovem que estava sentado sobre uma cerca bebendo cerveja com o amigo a uma distância menor do que o exigido por lei nos disse que ele tinha sido parado e multado em 135 euros por estar com a data errada no documento. Ele parecia não se importar muito, talvez porque soubesse que jamais teria de pagar a multa, talvez porque aquele valor não significasse nada para ele (se bem que, se fosse rico, ele parecia o tipo que enriquecera traficando drogas) ou talvez porque ele simplesmente fosse de bem com a vida.

Minha esposa foi parada três vezes, mas os papéis dela estavam sempre em ordem. Eu fui parado uma vez. Esqueci de preencher um campo importante para explicar minha presença na rua: “Saída por não mais de uma hora e dentro de um raio de 1km de casa, seja para atividade física individual, excluindo-se todas as práticas esportivas coletivas, seja uma caminhada com os familiares ou para as necessidades do animal de estimação”.

Na verdade, fui ao correio pegar um livro que tinha comprado e do qual precisava para o trabalho, então eu provavelmente deveria ter marcado o campo “Saída para a compra de equipamento necessário à atividade profissional ou para a compra de itens de primeira necessidade em estabelecimentos cujo funcionamento continua permitido”. Minha justificativa, na verdade, era um meio-termo entre essas duas e, como o Asno de Buridan, eu não consegui me decidir e deixei o apartamento com o formulário incompleto. O policial que me parou foi compreensivo.

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Observei vários casos iguais. Enquanto três policiais averiguavam o laissez-passer de um pedestre, notava-se outros incapazes de manter a distância obrigatória entre si. “Deux metres!”, gritava o policial. Mas os policiais ficavam a poucos centímetros da pessoa cujos papéis estava averiguando e nenhum deles usava luvas ou máscaras. A ironia do pecunia non olet (dinheiro não tem cheiro) aparentemente foi substituída pela verdade de que os policiais não transmitem o vírus.

Noutra ocasião, na fila (cumprindo a distância regulamentar, com máscara e de luvas) para meu jornal diário, um carro de polícia estacionou cantando pneus perto de onde eu estava. Dois policiais saíram do carro, preparados para agir. Claro que era uma emergência. Será que um roubo ou um assassinato? Nada disso. Dois jovens, um negro e um branco, estavam sentados num banco, usando roupas naquele estilo tradicional das ruas e a menos de dois metros um do outro. A julgar pela forma agressiva como os policiais os abordaram, eles tinham em mente um alvo predeterminado: em outras palavras, alguém havia denunciado os homens. Esse tipo de denúncia têm um histórico na França: durante a Ocupação, cidadãos franceses fizeram ao menos 5 milhões de denúncias para a polícia e as autoridades invasoras, denunciando vizinhos, amigos, parentes, concorrentes e inimigos. Se é possível confiar nas matérias, a denúncia de pessoas que não estavam cumprindo as regras se tornou comum durante o lockdown; para algumas pessoas, é sempre um prazer criar problemas para estranhos.

Em outra ocasião, o policial parou um homem de cerca de 60 anos e exigiu os documentos dele. Ele saiu correndo. O policial poderia tê-lo alcançado facilmente, mas o deixou fugir. Concluí que a polícia era obrigada a cumprir tarefas das quais muitos não gostavam e que para outros eram humilhantes. Eles tinham de deter pessoas comuns nas ruas, o que sem dúvida era interessante para os policiais que tendiam à agressividade e ao mesmo tempo um alívio da responsabilidade do trabalho policial de verdade, como a prevenção e a investigação de crimes e a captura de criminosos. Por outro lado, muitos policiais sentiam que o que estavam fazendo durante a quarentena era indigno, um exercício de poder de justificativa duvidosa – daí o desinteresse em perseguir o homem de 60 anos.

Aplausos

Às oito da noite, as pessoas saíam às janelas ou sacadas para aplaudir os funcionários dos hospitais que estavam arriscando a vida para cuidar dos doentes. Isso era supostamente um gesto de agradecimento ou solidariedade, mas que eu via como uma demonstração sentimental kitsch.

Primeiro, o gesto era gratuito e isento de gratidão honesta. Ao que parece, os aplaudidos tampouco gostavam muito. De certa forma, o aplaudo tirava deles o heroísmo diário de se confrontarem não apenas com o horror da doença, mas também com o perigo de contraí-la: o heroísmo aplaudido no calor da hora, e não em retrospecto, perde seu caráter espontâneo e assume um quê de hipocrisia e até exibicionismo.

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Depois, o aplauso parecia ser um tanto quanto coercivo. Dava até medo de não participar, como se isso sugerisse que você era ingrato ao trabalho de médicos, enfermeiras e outros profissionais da saúde, o que, por sua vez, significava que você não tinha sentimentos. Não é de se surpreender, pois, que expressões de apoio aos trabalhadores da linha de frente durante a epidemia se tornaram mais entusiasmados, com assovios e gritos, mas depois o entusiasmo perdeu força e eles se tornaram mais tímidos. Não dá para manter o entusiasmo artificialmente por muito tempo sem uma força de coerção externa.

Além disso, os funcionários dos hospitais não eram os únicos a correr riscos. E quanto aos motoristas de ônibus e caixas de mercado, cujo equipamento de proteção era rudimentar, ou os entregadores que mantiveram a roda do comércio girando? Eles também não eram, cada um a seu modo, diligentes e heróis – precisando ainda mais de um agradecimento público, uma vez que seus esforços geralmente passam despercebidos? Não podia deixar de sentir que aquelas pessoas que aplaudiam nas janelas e sacadas na verdade estavam aplaudindo a si mesmos.

O gesto supostamente representava a solidariedade diante do inimigo contra o qual, como disse o presidente Emmanuel Macron, travávamos uma guerra. O aplauso também permitia certo contato social numa época em que a vida social tinha praticamente acabado. Mas também surgiram notícias de que, enquanto os funcionários dos hospitais eram aplaudidos nas regiões mais ricas da cidade, alguns eram insultados e até fisicamente atacados nas regiões mais pobres, onde os funcionários de salário mais baixo viviam, como se fossem portadores da peste, e não os curandeiros dela. A solidariedade não se restringe a gestos; o que une a sociedade também é capaz de desuni-la, às vezes ao mesmo tempo.

O fim

Incapaz de observar muita coisa, mas com bastante tempo disponível, recorri à leitura de jornais, revistas e sites em busca de notícias sobre a crise. Quando li que, assim como aconteceu nas manifestações de 2005, moradores estavam se revoltando contra o lockdown e jogando pedras e às vezes coquetéis Molotov contra ambulâncias, caminhões dos bombeiros e carros de polícia, não me surpreendi: na verdade, eu me surpreenderia se fosse o contrário. Mas quão séria era essa desobediência? Era uma minoria ou uma rejeição real ao Estado e sociedade franceses? Era a opinião da maioria dos moradores? Minha imaginação era livre para imaginar o pior ou considerar as notícias catastrofistas.

Os descontentes das periferias, contudo, estavam na vanguarda. O lockdown prosseguiu e também perdeu força. Mais pessoas começaram a descumprir as regras. Poucos usavam máscaras; eles passavam mais tempo ao ar livre e não guardavam distância como antes. As lojas começaram a abrir, com ou sem permissão oficial. A polícia, antes visível em nosso bairro o dia inteiro, e com suas averiguações severas, desapareceu.

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Eu me pergunto se deveria ter sido mais compreensivo ou solidário com o sofrimento dos presos cujos cuidados médicos me foram confiados. Eu sofri pouco com meu confinamento, mas teria sofrido bem mais se não tivesse nada para fazer nem acesso à Internet — em resumo, se eu fosse um presidiário. Além disso, minha experiência não contou com um dos aspectos da prisão que eu considerava intolerável, o mais insuportável – o barulho constante. Os discos de Strauss que meu vizinho tocava não entravam nessa conta; as músicas eram assustadoramente belas, se bem que não tenho certeza se era a melhor hora para elas.

Ao longo de todo o meu confinamento, mantive o velho ditado carcerário em mente. Eu abaixei a cabeça e cumpri minha pena. E me julguei uma pessoa de sorte por poder fazer isso.

Theodore Dalrymple é médico e escritor.

© 2020 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês
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