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Estudantes universitários franceses protesto contra as reformas educacionais perto da Universidade Sorbonne, em Paris, França, em 10 de abril de 2018: as universidades são cada vez mais dominadas pela esquerda, especialmente nas áreas socioculturais
Estudantes universitários franceses protesto contra as reformas educacionais perto da Universidade Sorbonne, em Paris, França, em 10 de abril de 2018: as universidades são cada vez mais dominadas pela esquerda, especialmente nas áreas socioculturais| Foto: EFE/EPA/IAN LANGSDON

Thomas Piketty, economista socialista popular desde que publicou ‘O Capital no Século XXI’ (2014), é coautor de um estudo publicado em maio, junto a Amory Gethin e Clara Martínez-Toledano, a respeito de uma substancial mudança da base eleitoral da “esquerda” em um período de 72 anos (1948-2020) em 21 democracias ocidentais. Os três autores colaboraram no Laboratório da Desigualdade Mundial. Eles notaram que antes, nos anos 1950 e 60, o eleitor de partidos social-democratas, trabalhistas e socialistas tinha baixa renda e baixa escolaridade, mas depois, no século XXI, esse voto passou a ser associado a uma elite diplomada. Enquanto isso, a elite de alta renda, que Piketty chama de “direita comerciante”, continuou votando mais na “direita” durante todo o período. Os atuais conflitos políticos, portanto, são entre elites diferentes. No começo, a elite educacional também votava na “direita”, agora, o francês a chama de “esquerda brâmane”.

Os economistas atribuem essa mudança à ascensão dos movimentos ambientalistas e anti-imigração, além de uma mudança de pauta de classe para questões socioculturais, o que reflete um atual debate interno à “esquerda” com uma tensão entre os socialistas, que querem voltar a enfatizar classe, e os identitários, mais interessados em costumes. A divisão política das elites também tem uma faceta em política externa: enquanto a “esquerda brâmane” é “globalista”, interessada em um alinhamento internacional, a direita comerciante favorece mais o nativismo, interesses nacionais.

A base de dados dos pesquisadores é formada por pesquisas eleitorais. Comentando o estudo na London School of Economics, o cientista político Jan Rovny relata que os resultados não são exatamente originais, o declínio do voto baseado em classe na esquerda já era conhecido desde os anos 1970. Entretanto, o estudo dá à conclusão uma boa base em dados.

Rovny pensa que essa mudança não é devida a uma virada de estratégia da esquerda, mas às mudanças estruturais nessas democracias advindas da inovação tecnológica, aperfeiçoamento do comércio e a expansão do sistema educacional. No atual século, a educação deixou de ser uma seara exclusiva de médicos, advogados, professores universitários e engenheiros com emprego garantido após a educação superior.

A classe trabalhadora industrial, antes uma base importante para a esquerda, praticamente desapareceu das sociedades desenvolvidas enquanto se expandia uma classe média (o que contraria as previsões de Marx) e o setor de serviços. Nessa nova classe trabalhadora, atomizada em diferentes partes desse setor, a esquerda faz sucesso somente entre as minorias étnicas, o que explica em parte a aposta atual no progressismo identitário. Um evento recente em vídeo da Microsoft, por exemplo, atraiu atenção porque os apresentadores citaram mais de sete povos indígenas que “ocuparam tradicionalmente” o território do campus da empresa.

Outros fatores que formam a esquerda 

A concentração da base da esquerda numa elite diplomada forma um ciclo de retroalimentação: as universidades são cada vez mais dominadas por essa tribo política, especialmente nas áreas socioculturais. Em 2018, Mitchell Langbert, do Brooklyn College, pesquisou a afiliação partidária de mais de cinco mil professores das 51 mais prestigiosas universidades americanas. Na área da comunicação, por exemplo, em que se formam jornalistas, foram encontrados zero professores afiliados ao Partido Republicano, de direita. Na biologia, encontrou 21 professores filiados ao Partido Democrata, de esquerda, para cada republicano. Na engenharia a proporção ainda favorece a esquerda: 1,6 professor democrata para cada republicano.

É possível até que a insistência na divisão do pensamento político em esquerda vs. direita seja um produto da dominância da primeira nas instituições de ensino superior. A ideia, que surgiu na Revolução Francesa, é questionada por intelectuais ditos de “direita” como Thomas Sowell. Ele prefere separar o pensamento político entre aqueles que consideram a natureza humana maleável e melhorável (a “visão dos ungidos”) e aqueles que pensam que o ser humano não é perfectível à imagem e semelhança de utopias e que enfatizam não o direcionamento planejado do comportamento humano, mas a responsabilidade individual e a contenção da violência e outros vícios (a “visão trágica”). Essas categorias não se confundem com esquerda e direita, embora capturem parte das diferenças. Sowell também aponta que esses termos passam a falsa impressão de que os dois grupos políticos têm a mesma diversidade de pensamento, quando a “direita” é mais diversa agrupando conservadores, liberais, e libertários, que muitas vezes têm pautas antagônicas.

Outro efeito da dominância acadêmica da “esquerda” é que são produzidos muitos artigos, boa parte deles de baixa qualidade, atacando a “direita” com alegações de que ela é pouco inteligente, autoritária e cruel. Muitos desses artigos falham em ter resultados reproduzidos e interpretações corroboradas por outros pesquisadores. Não é o problema de estudos como o publicado em março por Chien-An Lin e Timothy Bates, psicólogos da Universidade de Edimburgo. Lin e Bates realizaram a replicação de resultados a respeito da psicologia dos aderentes a ideias associadas à “esquerda” como a redistribuição de renda. Os cientistas confirmam, com amostras de até 500 pessoas, que a defesa dessa ideia “esquerdista” está associada ao autointeresse, à benevolência e, o que foi uma descoberta específica do estudo, à inveja maliciosa. Este é o tipo de inveja em que se quer derrubar quem está bem, em oposição à inveja benevolente, que motiva o invejoso a tentar imitar o invejado.

O resultado a respeito da maior benevolência em quem quer usar o Estado como Robin Hood também merece um pouco de nuance. Laurie Paarlberg e colegas relatam em um artigo de 2018 que os condados americanos com uma proporção maior de eleitores republicanos têm mais contribuições para caridade. Contudo, isso só acontece quando o governo local também é republicano — quando esses conservadores e libertários estão sob governos de orientação política oposta, doam menos. Os cientistas também oferecem outra conclusão: quanto mais polarização política, menos filantropia.

No fim das contas, é improvável que uma agremiação política qualquer contenha mais virtudes ou mais vícios que outras, exceto quando as pessoas se unem em torno de vícios, como a perseguição e desumanização de outros grupos. Se uma tribo política em particular começa a se orientar em torno do exibicionismo moral, a explicação está em “exibicionismo”, não em “moral”.

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