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Há dois anos, Mulher Maravilha mostrou que um filme de super-herói protagonizado por uma mulher era capaz de atingir os patamares mais elevados do gênero, com Gal Gadot numa interpretação sólida e respeitável, e ao mesmo tempo charmosa e feminina. Assisti a Capitã Marvel esperando Gadot. Mas o que encontrei foi mesmo Brie Larson: sem charme ou humor, uma personagem tão sem textura que bem poderia ter sido feita de alumínio. 

Capitã Marvel talvez seja o primeiro blockbuster feito sob a motivação do medo. A cada página, o roteiro deixa claro o pavor do que as pessoas poderão dizer sobre o filme nas redes sociais.

Criar um par romântico para Carol Danvers? De jeito nenhum! As mulheres não podem ser definidas pelos homens em suas vidas!

Retratá-la como vulnerável? Ah, meu Deus, nunca, isso é uma loucura!

Feminina? Em que século você acha que está para pensar que as mulheres devem ser femininas?

Já mais para o fim do filme, quando um vilão está se preparando para um confronto épico contra Carol (a piloto de caça que se transforma em supermulher) e a provoca dizendo que ela fracassará porque não é capaz de controlar suas emoções, não há tensão alguma. Passamos duas horas vendo-a não ser afetada por absolutamente nada. Conferir a Carol emoções de verdade levaria, claro, ao menos vinte e sete pessoas a chamarem o filme de misógino no Twitter, e os diretores Anna Boden e Ryan Fleck morrem de medo disso. 

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Só para ficarem completamente, infalivelmente, vamos-embrulhar-o-Universo-em-plástico-bolha seguros, Boden e Fleck optaram por fazer de Danvers uma mulher mais forte do que a força, mais determinada do que a determinação, mais corajosa do que a coragem.

Larson passa o filme todo apática, dando chutes e socos, recitando suas falas num tom enfadonho e encarando tudo com um olhar frio de suprema autoconfiança. Os super-heróis são definidos por suas limitações — a kryptonita do Superman, a mortalidade de Batman —, mas a Capitã Marvel é tão-somente um tédio invencível.

O roteiro escrito por Boden, Fleck e Geneva Robertson-Dworet, com argumento dos três e mais de Nicole Perlman e Meg LeFauve, nos revela uma Carol, interpretada por Brie Larson, como alguém incrivelmente forte e resiliente no começo, meio e fim do filme. Isso não é um arco narrativo; é uma linha reta. 

Extremamente chato

Quando somos apresentados ao personagem-título, ela se chama “Vers” e é uma soldado da civilização Kree, num planeta distante. Instruída pelo seu mentor (Jude Law), ela trava uma batalha contra uma raça mutante – os skrulls — quando acaba lançada pela galáxia e jogada no “Planet C-53”. Sendo mais específico, isso significa o teto de uma locadora Blockbuster na Los Angeles de 1995.

Descoberta pelos agentes da SHIELD Nick Fury e Phil Coulson (Samuel L. Jackson e Clark Gregg, ambos interpretando versões trinta anos mais novas do que eles mesmos, graças ao uso de uma nova tecnologia de rejuvenescimento digital), ela descobre os segredos de seu passado misterioso: ela não é uma guerreira Kree, e sim uma piloto norte-americana de caças chamada Carol Danvers. Ela estava testando uma arma secreta com a ajuda de uma oficial superior (Annette Bening) quando perdeu a consciência. Enquanto isso, os skrulls e os krees a seguem até a Terra, e aí tem início uma reviravolta não muito interessante. 

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Carol se inspira numa velha amiga, uma piloto feminista chamada Rambeau. Da forma como ela é interpretada por Lashana Lynch, trata-se de outra Perfeitinha, insuportavelmente capaz, sem falhas e forte. Rambeau é mãe solteira, mas, quando ela cogita deixar o planeta para se juntar a Carol na luta contra os alienígenas, a ideia de abandonar a filha é de dar risada, não de fazer chorar. Os diretores têm medo de que sugerir que as mulheres tendem a priorizar os filhos acima de qualquer coisa faça com que sejam chamados de retrógrados pela Jéssicas Furiosas do Twitter. Eles não percebem que tratar todo obstáculo em potencial como um não-problema torna o filme extremamente chato. 

Apesar de a trilha sonora dos anos 1990 — No Doubt, Nirvana, Hole — dar ao filme certo impulso, os diretores mal conseguem expressar a comicidade do período. O problema da nostalgia dos anos 1990 é que, a não ser pela Internet ou pelos celulares, as coisas não parecem tão diferentes de hoje assim. Não dá para se fazer muitas piadas com “celulares eram enormes” ou “o mecanismo de busca era o Alta Vista”. Danvers tampouco parece ingênua ou um peixe fora d’água como o Superman ou a Mulher Maravilha: ela chama o “pager super moderno” de Nick Fury de “comunicador”, mas, fora isso, ela se ajusta de imediato a tudo.

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Larson, que se tornou estrela com Anjos da Lei há sete anos e não fez nada melhor desde então (principalmente sua atuação vencedora do Oscar no pavoroso filme ‘O Quarto de Jack’), rapidamente se tornou uma das atrizes mais insuportáveis e chatas de Hollywood, e sua personalidade contamina a personagem. Não há um só grama de autodepreciação nela. 

A armadilha que os diretores armaram para si mesmos é esta: eles se puseram a contar uma história de empoderamento feminino – mas ficaram com medo de reconhecer quaisquer diferenças entre homens e mulheres.

Apesar do corpo esbelto de Larson, não há em nenhum momento nada que indique que ela seja capaz de vencer um homem quarenta ou cinquenta quilos mais forte, como Djimon Hounsou. Quão interessante é definir uma mulher como “um ser exatamente igual a um homem, só que mais resiliente”? 

Tradução de Paulo Polzonoff Jr.

©2019 National Review. Publicado com permissão. Original em inglês
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