Publicidade
Elite jurídica

O casamento de luxo da filha “empoderada” de Ayres Britto

Post republicado por Nara Ayres Britto no Instagram mostra os noivos durante a festa de casamento, realizada no último sábado (22), em Brasília
Post republicado por Nara Ayres Britto no Instagram mostra os noivos durante a festa de casamento, realizada no último sábado (22), em Brasília (Foto: Reprodução/Instagram)

Ouça este conteúdo

Um detalhe chamou a atenção na chegada das madrinhas do casamento dos jovens advogados Nara Ayres Britto e Bryan de Jongh Martins, no último sábado (22), em Brasília: as moças solteiras não entraram com pares “arranjados”, mas segurando pequenos pets da raça chihuahua. “A cerimônia refletiu a autenticidade do casal”, comentou uma convidada no Instagram.

Nara é filha do ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto e preside o Instituto Empoderar, voltado para mulheres — “um ambiente empático, amoroso e seguro de crescimento conjunto, de sororidade, de networking e de troca de experiências”. Bryan administra o escritório de advocacia do sogro e dirige outro instituto, o Victor Nunes Leal, que promove eventos jurídicos dentro do Supremo e do TSE.

O casamento aconteceu no Píer 40, no Lago Sul, um espaço conhecido na capital por receber eventos de alto padrão. Fotos e vídeos publicados nas redes mostram ambientes internos e ao ar livre, uma decoração carregada de velas, queima de fogos de artifício e um elogiado banheiro inteiramente espelhado (descrito como “um lavabo de impacto”). Foi uma “festa de princesa”, como definiu uma das convidadas.

A lista de convidados incluiu mais relações pessoais do que políticas — mas, em se tratando dessa família, “próximo” já é sinônimo de elite jurídica. Entre eles estava o ex-ministro do STF Marco Aurélio Mello, um nome que resume bem o tipo de círculo que Nara e Bryan frequentam: não era um “quem é quem” do poder em Brasília, e sim um encontro de gente que se cruza nos mesmos institutos, tribunais e escritórios.

Shows, drinks e “mimos”

A relação de fornecedores da festa ajuda a entender o tamanho da produção. A cerimonialista Laís Bergman, por exemplo, organiza casamentos de famílias ricas da capital e cobra algo entre R$ 20 mil e R$ 50 mil.

O fotógrafo Plínio Ricardo fica entre R$ 15 mil e R$ 30 mil. A filmagem de Ismael Martins pode custar de R$ 8 mil a R$ 20 mil. E o aluguel do próprio Píer 40 chega a passar de R$ 150 mil.

A programação musical não se limitou a uma banda de baile. A atração principal foi o cantor Silva, queridinho da “nova MPB”, cujos shows custam entre R$ 100 mil e R$ 200 mil. Mas o evento ainda contou com o grupo de dance music Kasino (cachê entre R$ 40 mil e R$ 80 mil), além de um DJ e do cantor e compositor brasiliense Allan Massay.

Só os fornecedores e atrações com valores que conseguimos levantar já somam algumas centenas de milhares de reais. A conta, no entanto, ainda não inclui decoração, iluminação, estrutura, som, palco, segurança, buffet e bebidas.

Lixinhos extravagantes

O bar, aliás, contou com dois cardápios. Um deles, batizado de “Jolie’s Classics”, reunia drinks como Cosmopolitan, Lychee Martini, Fitzgerald e Negroni, além de releituras de outros coquetéis famosos (batizados de Tom, Jack e Santana). O outro, “Severina’s Coffee Bar”, era dedicado a bebidas à base de café, como Carajillo, Velvet Coffee, Espresso Martini e Black Soul.

A lista de presentes também dá uma boa ideia do universo em que o casal circula. Considerando as quantidades escolhidas e os preços registrados no site da marca de luxo Tania Bulhões, o valor de todos os itens chega a cerca de R$ 1,57 milhão.

Entre os “mimos” estão quatro faqueiros de ouro com 104 peças (R$ 25.230 cada) e seis aparelhos de jantar Fleur Royal com 18 peças (R$ 15.300 cada). Há também seis champanheiras de R$ 10.300 e um centro de mesa com ouro de R$ 14.600.

Algumas extravagâncias são menos óbvias. Dois lixinhos para lavabo custam R$ 2.610 cada, enquanto 24 porta-ovos saem por R$ 400.

Campanha para Lula

Por trás da festa milionária, a história do casal passa por famílias influentes, carreiras bem construídas e conexões no mundo jurídico de Brasília.

Nara Ayres Britto se apresenta no Instagram como sócia do escritório fundado pelo pai e da Nova Lex, uma comunidade voltada para o desenvolvimento profissional de advogados e juristas. Ela ainda é palestrante, professora, presidente do já citado Instituto Empoderar e conselheira titular da OAB-DF. No próprio perfil, Nara resume sua área de atuação como “Tribunais Superiores e STF”.

Filha de um juiz que chegou ao Supremo por indicação de Lula e foi candidato a deputado federal pelo PT em Sergipe, ela também se posiciona politicamente à esquerda.

Em 2022, Nara Ayres Britto participou de mobilizações a favor da candidatura de Lula e, durante um evento público batizado de “Ato em Defesa da Democracia”, leu um texto do pai em apoio a Lula. A mensagem dizia que a figura ideal para proteger as instituições seria aquela com histórico de “encurtar distâncias sociais”. E concluía: “O nome desse candidato é Lula”.

Um país “extremamente patriarcal”

Na bioética, outra das áreas em que atua, Nara defende a eutanásia e o suposto “direito de morrer com dignidade”. “O Brasil está passando por uma fase mais conservadora”, afirma, condenando o peso da religiosidade nesse debate.

As chamadas questões de gênero também estão entre suas bandeiras. Ela questiona a falta de apoio dos partidos às candidaturas femininas e já criticou a tentativa do Congresso de perdoar o descumprimento das regras de incentivo à participação das mulheres na política. “São várias as violências que a gente vê, das mais sutis às mais escancaradas”, diz a advogada, que considera o Brasil um país “extremamente patriarcal”.

E um dado curioso: Simone Schnorr, procuradora federal, e Danielly Gontijo, corregedora-geral da República, ocupam cargos de liderança no Instituto Empoderar. É a burocracia federal de alto escalão abraçando a agenda identitária.

Papéis estratégicos

Mais discreto, Bryan de Jongh Martins se descreve como sócio-administrador do escritório Ayres Britto Advocacia, diretor institucional do Instituto Victor Nunes Leal e consultor do Prêmio Innovare (conhecido como “Oscar do meio jurídico” e apoiado pelo Grupo Globo).

Por meio do instituto, Bryan promove eventos que costumam envolver juízes do Supremo (em atividade e aposentados). Ele também media painéis e mesas-redondas, como uma homenagem ao ex-ministro Sepúlveda Pertence e um encontro sobre o aniversário dos 35 anos da Constituição de 1988 — com direito a palestra de Luís Roberto Barroso, então presidente do STF.

É um papel menos visível que o da mulher, mas igualmente estratégico: enquanto Nara aparece na mídia falando de gênero e bioética, Bryan circula pelos bastidores da capital, entre escritórios, entidades jurídicas, ministros e tribunais.

Juntando as peças, fica mais fácil enxergar o desenho completo desse “projeto”. No topo está Carlos Ayres Britto, com a filha e o genro trabalhando no escritório e à frente de institutos com trânsito permanente nos altos tribunais. Ao redor deles, aparecem advogados, ministros, procuradores, docentes, políticos e integrantes da burocracia federal.

Não é ilegal, nem incomum, que famílias de juristas construam esse tipo de rede de conexões. Mas, na Brasília dos privilégios, o verdadeiro “empoderamento” ainda depende do sobrenome e dos contatos certos.

A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com o escritório Ayres Britto Advocacia para solicitar uma entrevista, mas não obteve retorno até a conclusão deste texto.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.