Dietrich Eckart: antissemita ferrenho, costumava culpar os judeus pelos problemas da Alemanha e pelos próprios fracassos pessoais| Foto: Reprodução
Ouça este conteúdo

“Conheçam o homem que um dia vai libertar a Alemanha! Um dia o mundo inteiro estará falando dele”. Com essas palavras, Dietrich Eckart apresentou seu amigo à socialite Helena Bechstein e ao editor Hugo Bruckmann. Mas a figura que se apresentava diante dos três não parecia impressionar.

CARREGANDO :)

Apesar de ele vestir ternos, chapéus e casacos adequados para eventos sociais entre figuras ricas e influentes da Alemanha, falava muito alto e estava sempre com a boca e as mãos cheios de comida — ele chegava a essas ocasiões com fome, depois de muitas vezes passar o dia todo sem se alimentar. As roupas eram presente de Eckart, que não desistiu diante das primeiras dificuldades.

Ele encontrava-se com o amigo em seu apartamento na rua Franz Josef, em Munique. Tentava ensinar boas maneiras. Escrevia artigos de jornal sobre ele. Em um deles, publicado no jornal Volkisch Beobachter, em agosto de 1921, descreveu-o como um líder tribal com poderes místicos e o chamou de Kommenden Grossen, algo como “O grande que está chegando”.

Publicidade

Eventualmente, Eckart alcançaria seu objetivo e faria com que sua profecia fosse concretizada: o mundo inteiro ainda hoje fala de seu amigo: Adolf Hitler.

Antissemitismo

Nascido em 23 de março de 1868 na Bavária, Dietrich Eckart era filho de um advogado. A mãe morreu quando ele tinha dez anos e o pai, em 1895. Estudou direito e medicina, mas não concluiu os cursos porque estava dedicado a viver das letras.

Queria ser poeta e dramaturgo. Tornou-se protegido do diretor teatral Georg von Hülsen-Haeseler. Com trinta anos, Eckart já era viciado em morfina, um vício que o acompanharia até o fim da vida. Adepto de um estilo de vida boêmio, escreveria boa parte da sua produção em bares.

Depois de escrever dezenas de peças, ele finalmente alcançaria sucesso profissional em 1912, com uma adaptação muito própria de Peer Gynt, uma peça de cinco atos escrita em versos pelo norueguês Henrik Ibsen. O texto correria o país ao longo de toda a década e garantiria estabilidade financeira ao autor — na juventude, ele havia herdado uma boa herança de seu pai, mas havia gastado tudo.

Na versão de Eckart, o texto se tornou um libelo contra os judeus. Ele era, de fato um antissemita ferrenho, que costumava culpar essa população pelos problemas da Alemanha e pelos próprios fracassos pessoais. “Em sua mente, a figura do judeu havia mobilizado as forças desintegradoras do capitalismo financeiro, do bolchevismo e da democracia para destruir um suposto passado brilhante da civilização”, descreve Joseph Howard Tyson na biografia Hitler's Mentor: Dietrich Eckart, His Life, Times & Milieu. “Ele acreditava que remover o espírito judeu da Europa resolveria essa crise, e por consequência transformaria a Alemanha numa utopia ariana”.

Publicidade

A partir de 1918, com a Alemanha em crise depois da derrota na Primeira Guerra Mundial, Eckart decidiu que, a fim de alcançar este objetivo, era chegada a hora de abandonar as artes e migrar para a política.

Profeta escolhido

Bem relacionado na sociedade local, especialmente em Munique, onde havia se instalado desde 1913, o dramaturgo começou então a produzir panfletos políticos e a participar de reuniões e eventos entre líderes que, em geral, queriam mudar a Alemanha eliminando os judeus — convenientemente para ele, esses eventos aconteciam à noite e em seu ambiente favorito, bares e tavernas.

Chegou a manter contato com a Sociedade Thule, um grupo de místicos que se organizava como uma maçonaria e buscava encontrar uma raça superior. Participou da fundação do Partido Alemão dos Trabalhadores, que daria origem ao partido nazista, e publicou muitos textos defendendo os ideais do grupo. Pessoalmente ou por escrito, Eckart insistia em um ponto: era preciso encontrar um líder carismático, um homem das massas. Ele chegou usar a expressão “messias”.

Entre o fim de setembro e o começou de outubro de 1919, o militar Karl Mayr, que já via potencial de liderança em Hitler, o apresentou a Eckart, que não deu muita atenção ao jovem 21 anos mais novo do que ele. Até que, em 13 de novembro do mesmo ano, na cervejaria Eberlbrauhus, Hitler levantou-se da mesa e fez um discurso.

Impressionado, Eckart percebeu que ele era o líder ideal para a revolução. Aproximou-se de Hitler, e os dois se tornaram amigos próximos. “Como o dramaturgo que era, ele trabalhou em Hitler como um personagem”, descreve Joseph Howard Tyson em seu livro. Usando sua experiência e sua habilidade com as palavras escritas, ele começou a depurar o pupilo, cujos discursos, no papel, eram desconexos.

Publicidade

A relação de pai e filho se manteve ao longo de 1920 e 1921. Eckart emprestou dinheiro a Hitler, e continuou seguindo o esforço de inseri-lo no círculo de pessoas ricas e influentes. Também exerceu um papel decisivo para que o jovem assumisse de forma definitiva o controle absoluto sobre o partido nazista.

Quando outros integrantes do grupo começaram a buscar fazer alianças com outros partidos, a fim de levar a influência do nazismo para além de Munique, Hitler faz uma cena e abandonou os nazistas. “O histrionismo de prima-dona era parte da maquiagem de Hitler — e continuaria a sê-lo”, descreve seu biógrafo Ian Kershaw. “Sempre numa posição maximalista, sem outra saída, ele arriscava tudo. E, se não conseguisse o que queria, tinha um acesso de raiva e ameaçava ir embora. E assim foi naquela ocasião”.

Eckart interveio e levou ao partido a exigência de Hitler: ele só retornaria caso fosse aceito como o ditador do grupo, sem contestações e sem acordos com outros partidos. Acabou por alcançar seu objetivo, graças à influência de seu mentor.

Homenagem póstuma

Quando Hitler tentou tomar o poder em Munique, entre 22 e 29 de outubro de 1922, a relação entre os dois estava abalada. O ditador do partido vinha dando ouvidos a outros líderes, muitos de origem militar, que defendiam o uso da violência para chegar ao governo — na época, a milícia nazista já desfilava pelas ruas, com suásticas nos braços, agredindo judeus e adversários políticos.

A tentativa de tomada de poder foi mal sucedida e o Führer acabaria preso. Ainda que não concordasse, Eckart participou da ação e também acabou atrás das grades. Liberado depois de sofrer um enfarto, morreu dias depois, em 26 de dezembro de 1923.

Publicidade

Hitler faria uma série de homenagens ao amigo falecido. Dedicou a ele a segunda edição do livro “Minha Luta”, que ele escreveu na prisão, e batizou com o nome dele o estádio de Berlim onde foram realizados os Jogos Olímpicos de 1936. Era um reconhecimento tardio para um amigo que ele havia abandonado em vida.

Eckart deixaria o pupilo como seu maior e infeliz legado. “Hitler vai dançar”, ele escreveu, “fui eu quem escreveu a música”.