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Bandeira de Israel na Zona Norte do Rio de Janeiro: enclave fundamentalista
Bandeira de Israel na Zona Norte do Rio de Janeiro: enclave fundamentalista| Foto: Reprodução

Símbolo do judaísmo e do Estado de Israel, a estrela de Davi que brilha em neon do alto de uma estação de tratamento de água no coração de uma favela da Zona Norte carioca serve para demarcar o nascimento de uma teocracia fundamentalista em pleno Rio de Janeiro. Revelado por uma reportagem da TV Globo na última sexta-feira (24), o Complexo de Israel é como vem sendo chamado o território composto pelas comunidades da Cidade Alta, Vigário Geral, Parada de Lucas, Cinco Bocas e Pica-Pau, sob o domínio da facção criminosa denominada Terceiro Comando Puro (TCP). Segundo a reportagem, moradores do bairro conhecido como Vila Santa Edwiges relatam que o grupo seria responsável pela remoção de uma imagem da santa que fica na entrada de uma quadra e dá nome ao logradouro. Nos muros do ‘Complexo’, entretanto, abundam versículos bíblicos e frases religiosas, o nome de Jesus e a bandeira israelense.

À frente da facção que domina a área há décadas – ainda que sem promover a dita “unificação” -, está o traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão. Aos 34 anos, o criminoso acumula 35 anotações criminais, envolvendo tráfico de drogas, homicídio e ocultação de cadáver. É a ele que se referem as pichações do personagem infantil Peixonauta, também comuns na região.

A figura de Peixão tem seu quê de mistério: dizem que foi ordenado pastor evangélico, embora a Polícia Civil nunca tenha confirmado a informação. Para evitar a estigmatização dos fiéis, os delegados evitam divulgar em qual igreja se deu sua suposta conversão ao cristianismo. Além de estar na mira da Delegacia de Combate às Drogas (Decod), Peixão é alvo de investigações da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) do Rio que, atualmente, apura três inquéritos ligando o TCP a ataques a centros religiosos de matriz africana nos municípios de Duque de Caxias e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

O líder, que se autointitula Arão – nome do irmão de Moisés, na Bíblia - nunca foi preso, mas seus comparsas submetidos a interrogatórios afirmam, entre explicações evasivas, que a justificativa para os crimes é, muitas vezes, religiosa.

Fé distorcida

“As motivações são diversas e não são completamente expressas”, conta o delegado responsável pela Decradi, Gilbert Stivanello. “Alguns dizem que fazem apenas para agradar o chefe do tráfico. Outros, relatam a ‘conversão’, que muitas vezes acontece dentro do presídio. Trata-se uma fé completamente distorcida: eles acreditam que estão perdoados por qualquer crime que venham acometer. Veem como um ato de aceitação da fé”, explica.

Para Stivanello, problema do Complexo de Israel diz mais sobre a personalidade e o método de atuação de Peixão do que sobre a relação entre igrejas evangélicas e tráfico, dado que, até o momento, sua facção é a única envolvida nos três inquéritos envolvendo intolerância religiosa e crime organizado na Decradi. O caso da santa na entrada da quadra, por exemplo, ainda não passou pela delegacia.

Há, é claro, o fantasma da subnotificação, dado que o terror implantado por Peixão interfere na vida de todos moradores – inclusive os evangélicos. A Gazeta do Povo teve acesso a uma troca mensagens na qual um morador da região, cristão, confirma ao interlocutor que a situação retratada pela reportagem – que inclui toques de recolher, barricadas nas ruas e desaparecimentos constantes – é real, e que os criminosos chegam a fiscalizar os celulares do povo alegando que é “em nome de Jesus”.

A antropóloga Rosiane Rodrigues, pesquisadora do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos da Universidade Federal Fluminense (Ineac/UFF) pesquisa violência contra terreiros desde 2010 e afirma que,  além de encontrar casos de intolerância religiosa ligados a outras facções criminosas e a grupos paramilitares, existe a possibilidade de que criminosos utilizem as igrejas evangélicas para lavar o dinheiro do comércio ilegal de armas e drogas. “Nesses casos, a orientação para depredar ou não um local de culto depende mais da orientação do religioso que vai lavar o dinheiro do que da ordem do chefe do tráfico”, explica Rosiane. Ouvidas pela reportagem da Gazeta, a Decodi e a Decrasi afirmam que, até o momento, não há indícios desta forma de atuação.

“Oração de traficante”

Como resultado da expansão das igrejas pentecostais e neopentecostais pelo Brasil entre os anos 1990 e 2000 – com ênfase no Rio de Janeiro onde, em 1977, nasceu a Igreja Universal do Reino de Deus –, os evangélicos chegaram às periferias e transformaram o cotidiano marcado pela ausência do Estado.“Até a década de 1980, a religião predominante era de matriz afro-brasileira entre traficantes e assaltantes. Como eles são produto de um meio social, como todos nós o somos - embora não exclusivamente - o crescimento de evangélicos em suas áreas de moradia, a conversão de chefes muito conhecidos e poderosos (presos ou não) e a formação cristã de vários dos traficantes que passaram a atuar no período ajudam a entender como no início dos anos 2000 a vinculação religiosa anunciada era principalmente evangélica”, explica a socióloga Christina Vital, professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora do livro “Oração de Traficante”.

Na obra, a autora explica que a adesão ao protestantismo por parte dos traficantes muitas vezes é genuína: muitos vão aos cultos com frequência ou o fazem em suas casas e pagam o dízimo. Por outro lado, a cosmovisão pentecostal, calcada na guerra constante do bem contra o mal, ajuda a compor o imaginário destes jovens. "É verdade que vários líderes evangélicos reforçam uma noção que já existe entre traficantes  de que vivemos diuturnamente uma batalha – seja pela vida nua que levam, seja pelo caldo cultural no qual vivem recheados desta perspectiva da guerra espiritual – uma guerra constante entre o bem e o mal”, afirma Vital.

Há que se considerar também situação dos líderes religiosos envolvidos. "É claro que a conversão de traficantes interessa aos líderes das igrejas”, avalia a socióloga. “Mas não se trata necessariamente de um interesse escuso, financeiro. Em alguns casos sim, noutros, na maioria, a dinâmica testemunhal e de exemplaridade é o que conta. Quanto mais extrema for a situação da pessoa, maior será o impacto que sua conversão causa em um coletivo ainda mais amplo. A conversão delas fortalece, assim, o capital político e social das denominações", diz Vital, que reitera que os religiosos interessados no dinheiro dos traficantes certamente não conformam um núcleo significativo. “Há mais evangélicos engajados e crédulos na mensagem bíblica do que os mais preconceituosos conseguem imaginar”, conclui.

Veterano do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), o antropólogo Paulo Storani conta que a relação do pastor local com as facções locais muitas vezes se dá por força da necessidade. “Já vi pastor intervir em ‘julgamentos’ de traficantes capturados e evitar mortes. Apesar de ser um número insignificante com relação ao montante de jovens que entra no tráfico, vejo também que a esmagadora maioria dos que conseguiram deixar a prática o fizeram por conta de uma conversão religiosa”, conta o ex-policial.

Intolerância vem de longe

É necessário ressaltar  que o problema da intolerância religiosa não começou com o tráfico e tampouco foi inaugurado – em sua versão sistemática e armada – pelo Peixão. “Para cada denúncia de agressão envolvendo locais de culto e crime organizado, tenho outras duzentas de xingamento na rua, pedra jogada pela janela ou até comentários no Uber. A maioria está ligada a religiões de matriz africana, mas recebo denúncias de wicca, evangélico, católico... Tem de tudo”, diz Stivanello.

Antes de o Peixão assumir a liderança do Terceiro Comando, o traficante conhecido como Fernandinho Guarabu – morto pela polícia no ano passado -, protagonizou ataques a terreiros depois de se converter à Assembleia de Deus Ministério Monte Sinai. Chefe do Morro do Dendê por décadas, Guarabu tinha o nome de Jesus Cristo tatuado no braço e frequentava cultos na favela. Segundo relato do fotógrafo João Pina, que conheceu o traficante durante a realização de uma reportagem para a revista Época, Guarabu era próximo de pastores locais, que nem por isso deixavam de admoestar os fiéis contra a violência e o tráfico.

À revelação do Complexo de Israel, seguiu-se uma série de manifestações de líderes católicos, judeus e evangélicos contra as ações do grupo que usurpa o nome de Cristo para espalhar o terror na favela. "Toda a emoção e engajamento que estes símbolos produzem representam um desafio a mais para o Estado na gestão da segurança pública. É mais fácil combater um crime que visa o lucro. Entretanto, quando a ação se vale de inspirações morais e tem forte adesão emocional é, sem dúvida, mais efetiva. A mobilização dos criminosos nessas redes deve ser acompanhada cuidadosamente pelo Estado e pelos pesquisadores", ressalta Vital. A avaliação da especialista é corroborada pelo antropólogo Storani. “A aliança com as lideranças responsáveis por formar e mobilizar estes jovens se torna peça essencial”, diz o ex-policial. À polícia, portanto, cabe a responsabilidade de investigar, com rigor, as motivações expressas e ocultas dos envolvidos. À religião, cabe o papel de rechaçar o fundamentalismo.

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