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Estudo progressista mente sobre os benefícios da jornada de trabalho reduzida.
Estudo progressista mente sobre os benefícios da jornada de trabalho reduzida.| Foto: Bigstock

Enquanto a verdade veste as calças, a mentira roda o mundo, diz um ditado atribuído apocrifamente a Mark Twain, Winston Churchill ou Jonathan Swift.

Uma mentira desse tipo é o que chamo de “noticiário progressista popular” – trechos de notícias, em geral estudos semiacadêmicos ou que usam evidências anedóticas para confirmar uma visão de mundo que tende ao progressismo. São notícias que geralmente têm a ver com o meio ambiente (pense no Ártico ou no derretimento das geleiras), mas que servem para tudo, desde a igualdade racial aos conselhos administrativos cheios de diversidade de gênero, passando pelas leis que ditam o valor do salário mínimo.

Na semana passada, os queridos progressistas se depararam com o problema do trabalho em si – e das empresas más que nos obrigam a trabalhar demais e nos pagam muito pouco. Portanto, deveríamos trabalhar menos em troca do mesmo salário (o que significa um aumento).

Duas experiências com semanas de trabalho reduzidas na Islândia, realizadas entre 2015 e 2019, geraram um resultado incrivelmente positivo, sugerem a ONG britânica e o partido islandês que encomendaram o estudo. (Sem querer parecer assessoria de imprensa deles, me recuso a citar os nomes ou dar link para os sites. Suponho que os autores interessados conheçam as artes da procura no Google).

Depois de “vários pedidos de organizações e sindicatos”, os ativistas conseguiram convencer a cidade de Reykjavík a fazer a experiência com 66 pessoas em alguns departamentos, comparando o desempenho com um grupo de controle.

A semana de trabalho foi reduzida em uma, duas ou três horas por semana, mas o salário foi mantido. Depois de alguma controvérsia e “sucesso inicial”, a experiência foi ampliada para 2.500 funcionários em todos os níveis do Estado islandês, em departamentos que se voluntariaram. Qualquer noção de controle desapareceu.

Os participantes eram funcionários públicos em cargos que iam desde os mais importantes, como na Biblioteca Pública e no Museu Municipal, até funcionários dos parques e curadores do jardim botânico (isso mesmo). Entre os funcionários com a maior redução na carga de trabalho, até quatro horas por semanas, estavam os policiais de Westfjord (que recentemente apareceu nas manchetes por causa de rumores da existência de um urso polar à solta) – uma região remota e montanhosa com 7 mil habitantes e 22 policiais.

Os resultados foram, aparentemente, impressionantes, com muitos comentários positivos dos participantes e nenhuma queda de rendimento. A BBC disse que a experiência da “Semana Útil de 4 Dias” foi um “impressionante sucesso”, sentimento ecoado pela HuffPo e CNBC. Envolvendo 1% da força de trabalho islandesa, o plano mirabolante agora foi ampliado para alcançar até 86% dos empregados. É o que somos levados a acreditar. Nas mãos do nem sempre cuidadoso Chris Weller, da Business Insider, o estudo se transformou em “86% das pessoas estão aderindo ao horário de trabalho reduzido”. A matéria apareceu também na Bloomberg. O Independent publicou frases cheias de esperança de um dos “diretores de pesquisa” de um think tank. A notícia também se espalhou pelo noticiário nórdico.

E, sim, o estudo é uma bobagem. Assim como todo o noticiário progressista popular, as afirmações eram atraentes e o escrutínio jornalístico deixou de ser realizado.

Vamos começar com as organizações cujo nome não citarei. A britânica se descreve como uma organização que “foca no futuro no trabalho e do planejamento econômico”, como se o planejamento econômico fosse motivo de orgulho. A organização islandesa é uma típica iniciativa de fundo de quintal, do tipo que pede mais democracia na economia, que defende empresas controladas pelos funcionários e a devolução do poder ao povo, que teria esse poder roubado por “grupos poderosos” que hoje supostamente controlam tudo.

Ótimo. Essa é a versão progressista de se permitir que um porta-voz do ISIS estipule a política externa dos Estados Unidos.

Depois, algumas afirmações ridículas. A experiência não foi a da semana de quatro dias e, quanto ao sucesso, deixarei para o leitor decidir. Dependendo dos cargos envolvidos na pesquisa, alguns tiveram só mais flexibilidade de horário e outros alternavam semanas mais curtas e mais longas (ou tinham horário reduzido ou folga na sexta-feira). A maioria dos departamentos reduziu a jornada em apenas uma ou duas horas por semana. Mas, graças aos ativistas do teclado na “semana de quatro dias” – supostamente porque as organizações por trás do estudo têm isso como objetivo político. Outro comentário patético foi publicado no Yahoo Finance, que dizia que os funcionários tiveram três dias de folga extra por semana.

Na primeira experiência, com 66 pessoas, aparentemente foram usados grupos de controle. Depois, o “sucesso” inicial permitiu a ampliação da experiência, alcançando os sensacionais “1,3% da força de trabalho” que o noticiário explorou. Entre a descrição pomposa e a “análise” do estudo, o grupo de controle simplesmente desapareceu, provavelmente se juntando ao ímpeto aproveitador em toda a sua glória.

A métrica superficial usada pelos departamentos para avaliar o próprio desempenho durante a experiência era vaga e incluía as atividades de todo o departamento (alvarás concedidos, multas de trânsito, casos de imigração encerrados e tempo de espera no guichê) impactadas pela enorme variação de umas poucas horas de trabalho reduzido. Legada ao fim do relatório, as comparações quantitativas do desempenho antes e depois da experiência indicavam que não houve qualquer efeito negativo. Para que grupos de controle se você pretendia fazer uma pesquisa anedótica?

Por sorte, parece que os policiais de Westfjord foram capazes de multar tanto quanto multavam antes da experiência e conseguiram encerrar mais casos no ano seguinte à experiência do que nos dois anos anteriores a ela. Oba!

A maioria dos novos veículos de comunicação, em sua ânsia por disseminar o evangelho progressista, usa os números sem cuidado algum. Alguns se atêm ao 1% da força de trabalho que, ainda que real, leva ao erro num país cuja população mal chega aos 370 mil habitantes. Outros reuniram todos os que aderiram às jornadas reduzidas e os que “conquistaram o direito de adequar sua jornada” e os que “em breve conquistarão esse direito” por meio de negociações sindicais.

Impressionantemente, essa aritmética inclusive dá como resultado 86% da força de trabalho. Nas mãos incompetentes da jornalista Annie Nova, da CNBC, essa mágica aritmética se transformou numa certeza. Ela cita Jack Kellam, pesquisador da ONG britânica, que diz: “Ainda que a Islândia tenha uma economia comparativamente diminuta, 86% da população passaram a cumprir jornadas reduzidas”.

Para recapturar a transformação ridícula da notícia na imprensa progressista do mundo todo nos últimos dias, passamos de 1% da força de trabalho na experiência de jornada horária reduzida para 86% da força de trabalho sindicalizada podendo, quem sabe, ter jornadas reduzidas para 86%  de toda a população já aderindo à semana de quatro dias. Incrível como uma mentira cresce, se multiplica e se espalha pelo mundo.

Uma empresa privada que não fez parte da experiência foi pressionada pelo sindicato, em 2020, para que reduzisse a jornada semanal em 35 minutos. Notícia quente, hein? O relatório não revela os resultados nessa empresa.

E agora a maior bobagem de todas: a experiência incluía apenas funcionários públicos. Do tipo que ganha a vida carimbando papeis, quando não nos irritando com inutilidades burocráticas. O relatório dizia que “para conseguirem trabalhar menos prestando o mesmo serviço, foram necessárias mudanças nas organizações. Em geral, isso foi feito repensando os processos: reduzindo reuniões, eliminando tarefas desnecessárias e organizando os turnos”.

Ou seja, a experiência sugere que o fato de funcionários públicos trabalharem menos não causa nenhum dano à sociedade. Não me diga! Você está querendo me convencer de que os mestres da burocracia, em geral empregados em serviços governamentais desnecessários, poderiam trabalhar menos e nada mudaria em seu desempenho já questionável?

As entrevistas realizadas com alguns funcionários foram positivas – surpresa! –, com várias falas sobre tempo livre com a família e bem-estar emocional. Bom, você também não se sentiria melhor se pudesse trabalhar menos em sua função improdutiva numa repartição pública, e sem redução de salário?

Deixando o sarcasmo de lado, acredito que ninguém reclama de não ter que exercer “funções desnecessárias” ou de ter “reuniões mais curtas” – dentro e fora do governo. A questão relevante, claro, não é o que isso tem a ver com o tamanho da jornada de trabalho, e sim com a natureza do trabalho governamental.

Posso ousar e sugerir uma ampliação dessa experiência? Vamos exagerar e promover uma redução pela metade na jornada semanal. Depois podemos ir ampliando até que os funcionários públicos não trabalhem nada. No começo, ficaria feliz em pagar a esses funcionários o salário integral, só para tirá-los de trás do guichê, até que deixássemos de pagá-los também.

Sim, vamos todos livrá-los de seus deveres funcionais contraproducentes. É bem provável que encontremos várias outras funções desnecessárias, vários outros serviços que só servem para incomodar o povo e muitos funcionários públicos gerando trabalho para si mesmos, em vez de gerar valor para a sociedade.

Nesse “estudo” horrível, a Islândia mostrou que podemos reduzir a jornada de trabalho dos funcionários públicos sem qualquer consequência negativa para a sociedade. Incrível, eu sei.

Joakim Book é escritor e pesquisador. Ele é mestre por Oxford e trabalhou para o American Institute for Economic Research em 2018 e 2019.

©2019 AIER. Publicado com permissão. Original em inglês
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