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Funciona mesmo?

Maconha medicinal em xeque: novo estudo não encontra benefícios para saúde mental

Estudo da Universidade de Sidney avaliou que maconha medicinal tem pouca eficácia em saúde mental
Estudo da Universidade de Sidney avaliou que maconha medicinal tem pouca eficácia em saúde mental (Foto: Kimzy Nanney/Unsplash)

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Qualquer um é livre para defender o uso recreativo da maconha. Mas atribuir a ela benefícios medicinais amplos, sobretudo na saúde mental, é questionável — para dizer o mínimo. 
 
Em meio ao avanço do uso de cannabis medicinal no Brasil e no exterior, pesquisadores da Universidade de Sydney, na Austrália, concluíram que a evidência atual ainda é fraca para sustentar o uso de canabinoides em boa parte dos casos de transtornos mentais. 
 
O trabalho foi publicado no último dia 16, na revista The Lancet Psychiatry, uma das mais importantes do mundo na área da psiquiatria. O estudo traz elementos importantes ao debate sobre os tratamentos com derivados da erva. 
 
Os cientistas australianos respondem: afinal, o quanto esses produtos funcionam?

O que o estudo sobre a cannabis analisou 

Os pesquisadores reuniram 54 ensaios clínicos randomizados publicados entre 1980 e 2025. Ao todo, a revisão incluiu 2.477 participantes e avaliou produtos à base de canabinoides para diferentes transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias. 
 
Pelo alcance, o trabalho está entre os mais amplos já feitos sobre o tema. A revisão cobre 45 anos de pesquisas e avalia, ao mesmo tempo, eficácia e segurança das substâncias em diferentes aspectos.  
 
O objetivo do grupo de estudo foi medir duas coisas: se esses produtos trazem benefício clínico e quais riscos aparecem no tratamento. A análise também observou eventos adversos, eventos graves e a taxa de abandono nos estudos. 

O que os autores encontraram 

Para ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático, a revisão não encontrou evidência de benefício. Segundo a pesquisa, o mesmo ocorreu para anorexia nervosa, transtornos psicóticos e transtorno por uso de opioides. 
 
No caso da depressão, o ponto é ainda mais delicado. Os autores afirmam que não encontraram ensaios clínicos randomizados sobre esse uso. Isso impede afirmar eficácia e mostra que ainda falta base clínica robusta para sustentar essa indicação. 

O que pesa contra a cannabis

Na análise de segurança realizada pelos australianos, os canabinoides apareceram associados a maior risco de eventos adversos em comparação com placebo. Ao mesmo tempo, a revisão não encontrou diferença clara em eventos adversos graves nem nas taxas de abandono do tratamento. 
 
Para o autor principal do estudo, Dr. Jack Wilson, os dados pedem mais cuidado justamente num momento em que a cannabis medicinal avança em vários países para quadros ligados à saúde mental. Ele afirma que os resultados “colocam em dúvida a aprovação” desse uso para depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. 
 
O cientista faz um alerta ainda mais duro: “Embora nosso estudo não tenha analisado isso especificamente, o uso rotineiro de maconha medicinal pode estar causando mais mal do que bem, piorando os resultados em saúde mental, por exemplo, aumentando o risco de sintomas psicóticos e desenvolvimento de transtorno por uso de cannabis”.  
 
Na mesma declaração disponibilizada à imprensa pela Universidade de Sidney, o pesquisador chama atenção para um efeito indireto importante. Wilson diz que o uso pode, inclusive, “atrasar a adoção de tratamentos mais eficazes”. Por causa disso, os autores defendem mais rigor na avaliação clínica antes da prescrição ampla desses produtos relacionados à maconha. 
 
Jack Wilson também resume o propósito do trabalho como uma tentativa de oferecer uma base mais sólida para médicos e reguladores. De acordo com ele, o estudo serve para apoiar decisões baseadas em evidências. 
 
“Nosso estudo fornece uma avaliação abrangente e independente dos benefícios e riscos dos medicamentos à base de cannabis, ajudando a garantir que os pacientes recebam tratamentos eficazes”, declara o Dr. Wilson. 

O que o estudo permite dizer 

O estudo não fecha a porta para toda e qualquer aplicação médica da maconha. Os próprios pesquisadores lembram que há evidências para alguns outros quadros clínicos, fora da saúde mental, como certos tipos de epilepsia, espasticidade na esclerose múltipla e algumas formas de dor. 
 
A revisão identificou sinais de possível benefício em situações mais específicas, como transtorno por uso de cannabis, insônia, síndrome de Tourette e transtorno do espectro autista. Ainda assim, os autores classificam a qualidade geral dessa evidência como baixa. 
 
“No caso específico do autismo, embora o estudo tenha mostrado algumas evidências de que a cannabis medicinal pode auxiliar na redução dos sintomas, é importante ressaltar que não existe uma experiência única ou universal de autismo, portanto, essa descoberta deve ser tratada com cautela”, comenta Wilson.  

O cenário no Brasil 

No Brasil, a Anvisa publicou em fevereiro de 2026 novas regras para a produção de cannabis medicinal, para a pesquisa na área e para a atuação de associações de pacientes. A agência também atualizou o marco regulatório de fabricação e importação desses produtos. 
 
As normas foram editadas após decisão do Superior Tribunal de Justiça e entram em vigor seis meses depois da publicação. No caso da produção, a regra prevê controle sanitário, rastreabilidade e limite de THC de até 0,3%, entre outras exigências. 
 
Esse movimento mostra que o tema está avançando no plano regulatório. A revisão científica, porém, sugere que esse avanço precisa caminhar com cautela quando a promessa envolve ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, depressão e outros transtornos mentais. 

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