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Qualquer um é livre para defender o uso recreativo da maconha. Mas atribuir a ela benefícios medicinais amplos, sobretudo na saúde mental, é questionável — para dizer o mínimo.
Em meio ao avanço do uso de cannabis medicinal no Brasil e no exterior, pesquisadores da Universidade de Sydney, na Austrália, concluíram que a evidência atual ainda é fraca para sustentar o uso de canabinoides em boa parte dos casos de transtornos mentais.
O trabalho foi publicado no último dia 16, na revista The Lancet Psychiatry, uma das mais importantes do mundo na área da psiquiatria. O estudo traz elementos importantes ao debate sobre os tratamentos com derivados da erva.
Os cientistas australianos respondem: afinal, o quanto esses produtos funcionam?
O que o estudo sobre a cannabis analisou
Os pesquisadores reuniram 54 ensaios clínicos randomizados publicados entre 1980 e 2025. Ao todo, a revisão incluiu 2.477 participantes e avaliou produtos à base de canabinoides para diferentes transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias.
Pelo alcance, o trabalho está entre os mais amplos já feitos sobre o tema. A revisão cobre 45 anos de pesquisas e avalia, ao mesmo tempo, eficácia e segurança das substâncias em diferentes aspectos.
O objetivo do grupo de estudo foi medir duas coisas: se esses produtos trazem benefício clínico e quais riscos aparecem no tratamento. A análise também observou eventos adversos, eventos graves e a taxa de abandono nos estudos.
O que os autores encontraram
Para ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático, a revisão não encontrou evidência de benefício. Segundo a pesquisa, o mesmo ocorreu para anorexia nervosa, transtornos psicóticos e transtorno por uso de opioides.
No caso da depressão, o ponto é ainda mais delicado. Os autores afirmam que não encontraram ensaios clínicos randomizados sobre esse uso. Isso impede afirmar eficácia e mostra que ainda falta base clínica robusta para sustentar essa indicação.
O que pesa contra a cannabis
Na análise de segurança realizada pelos australianos, os canabinoides apareceram associados a maior risco de eventos adversos em comparação com placebo. Ao mesmo tempo, a revisão não encontrou diferença clara em eventos adversos graves nem nas taxas de abandono do tratamento.
Para o autor principal do estudo, Dr. Jack Wilson, os dados pedem mais cuidado justamente num momento em que a cannabis medicinal avança em vários países para quadros ligados à saúde mental. Ele afirma que os resultados “colocam em dúvida a aprovação” desse uso para depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.
O cientista faz um alerta ainda mais duro: “Embora nosso estudo não tenha analisado isso especificamente, o uso rotineiro de maconha medicinal pode estar causando mais mal do que bem, piorando os resultados em saúde mental, por exemplo, aumentando o risco de sintomas psicóticos e desenvolvimento de transtorno por uso de cannabis”.
Na mesma declaração disponibilizada à imprensa pela Universidade de Sidney, o pesquisador chama atenção para um efeito indireto importante. Wilson diz que o uso pode, inclusive, “atrasar a adoção de tratamentos mais eficazes”. Por causa disso, os autores defendem mais rigor na avaliação clínica antes da prescrição ampla desses produtos relacionados à maconha.
Jack Wilson também resume o propósito do trabalho como uma tentativa de oferecer uma base mais sólida para médicos e reguladores. De acordo com ele, o estudo serve para apoiar decisões baseadas em evidências.
“Nosso estudo fornece uma avaliação abrangente e independente dos benefícios e riscos dos medicamentos à base de cannabis, ajudando a garantir que os pacientes recebam tratamentos eficazes”, declara o Dr. Wilson.
O que o estudo permite dizer
O estudo não fecha a porta para toda e qualquer aplicação médica da maconha. Os próprios pesquisadores lembram que há evidências para alguns outros quadros clínicos, fora da saúde mental, como certos tipos de epilepsia, espasticidade na esclerose múltipla e algumas formas de dor.
A revisão identificou sinais de possível benefício em situações mais específicas, como transtorno por uso de cannabis, insônia, síndrome de Tourette e transtorno do espectro autista. Ainda assim, os autores classificam a qualidade geral dessa evidência como baixa.
“No caso específico do autismo, embora o estudo tenha mostrado algumas evidências de que a cannabis medicinal pode auxiliar na redução dos sintomas, é importante ressaltar que não existe uma experiência única ou universal de autismo, portanto, essa descoberta deve ser tratada com cautela”, comenta Wilson.
O cenário no Brasil
No Brasil, a Anvisa publicou em fevereiro de 2026 novas regras para a produção de cannabis medicinal, para a pesquisa na área e para a atuação de associações de pacientes. A agência também atualizou o marco regulatório de fabricação e importação desses produtos.
As normas foram editadas após decisão do Superior Tribunal de Justiça e entram em vigor seis meses depois da publicação. No caso da produção, a regra prevê controle sanitário, rastreabilidade e limite de THC de até 0,3%, entre outras exigências.
Esse movimento mostra que o tema está avançando no plano regulatório. A revisão científica, porém, sugere que esse avanço precisa caminhar com cautela quando a promessa envolve ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, depressão e outros transtornos mentais.








