Jair Bolsonaro: incapacidade de ser dissimulado e pouco autocontrole verbal.| Foto: Alan Santos/PR

Um jovem chamado Bruno Sartori, hábil (porém esquerdista) tem divertido a ala antibolsonarista da internet com suas montagens ultrarrealistas. Um dos vídeos editados por ele mostra o rosto (e a voz) de Jair Bolsonaro no corpo de Chapolin Colorado, atrapalhando-se com as palavras. Sartori, que não esconde sua antipatia com o presidente, pretendia ridicularizá-lo, e talvez tenha conseguido. Mas, vendo o vídeo, me ocorreu uma pergunta: e se Jair Bolsonaro for mesmo uma espécie de Chapolin Colorado?

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Antes de prosseguir, uma digressão: eu quase namorei Jair Bolsonaro. E quem disse isso foi o próprio Jair Bolsonaro.

A primeira entrevista coletiva de Jair Bolsonaro depois do primeiro turno aconteceu num hotel no Rio de Janeiro. Além de dezenas de jornalistas, havia um número ainda maior de militantes do PSL e parlamentares eleitos. Enquanto eu esperava o microfone para fazer minha pergunta, ele fez uma graça que provocou risos na plateia: “Saudades do Gabriel. Quase que pintou um namoro entre nós”.

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Tudo bem que, sem ter grande talento para metáforas, Bolsonaro costuma recorrer muitas vezes à do namoro/noivado/casamento. Mas também é verdade que, como jornalista, convivi com o Bolsonaro do baixo clero e aprendi algumas coisas sobre ele. Depois convivi de perto com o Bolsonaro candidato e aprendi ainda mais coisas sobre ele.

Numa das vezes que o entrevistei em seu gabinete, em 2012, ele me ofereceu uma dose de uma cachaça chamada Cura Viado. Quando minha filha (a segunda menina) nasceu, ele me desejou felicidades de um jeito peculiar: “Está pagando seus pecados…”. Na véspera da facada, eu estava no alto do carro de som, em um caótico comício de Bolsonaro na periferia de Brasília. Em outra  entrevista coletiva, já como presidente eleito, ele me convidou para tomar um “choppinho”.

E daí?, perguntará o leitor. Daí que não se pode dizer que eu não conheço o sujeito. E conheço bem. Bem o bastante para ter um livro sobre a campanha, em parceria com o publicitário Lucas Salles, responsável, dentre outras coisas, pela criação do jingle de Bolsonaro.  E bem o bastante para dizer algo com convicção: sempre que adversários e inimigos tentam decifrar alguma intenção oculta por trás de alguma atitude ou declaração de Bolsonaro, a explicação inexiste. Ele é o que é, com toda a sua impulsividade e falta de autocontrole.

A forma mais garantida de analisar o governo dele de forma errada é pressupor que há coisas como cortina de fumaça, estratégia de longo prazo, xadrez 4D etc. O traço mais característico da personalidade de Bolsonaro é que ele não sabe ser dissimulado e tem disciplina verbal (e mental) muito baixa. É por isso que, vez ou outra, o presidente encerra as entrevistas abruptamente e vai embora quando alguém lhe pergunta algo espinhoso.

O lado ruim disso: Bolsonaro tem dificuldades de manter uma coalizão de apoio por ignorar a regra — adotada pelos políticos hábeis — de que não se deve perder a calma, a não ser de propósito e por uma razão nobre.

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O lado bom: não haverá mensalão nem petrolão no governo Bolsonaro. Se não por honestidade, pela total incapacidade de montar um esquema complexo como esse, que por definição envolve múltiplos pactos de silêncio.

Em menos de um ano de governo, os defeitos de Bolsonaro já estão evidentes: a oratória confusa, a falta do decoro que o cargo exige, os filhos problemáticos e sem reprimenda paterna, o horizonte raso em temas importantes, a obsessão com assuntos secundários. E, no entanto, como dizer que o governo vai mal? O crime está em queda, a Reforma da Previdência passou, as privatizações começam a acontecer, o governo deixou de patrocinar imoralidades nas escolas, não se tem notícia de estatais sendo usadas para abastecer bolsos privados.

Se a economia continuar melhorando, a segurança evoluindo, a infraestrutura avançando e não houver escândalo de corrupção comparável ao dos últimos governos - cenário que eu acredito ser o mais provável - Bolsonaro terá sido o melhor presidente da Nova República. Isso não apagará os defeitos do homem de Eldorado Paulista, que não são pequenos, mas o tornará um presidente respeitável como poucos na nossa turbulenta história republicana.

E Chapolin?

Ora, se um dia tivermos um herói brasileiro, provavelmente será alguém parecido com o Chapolin. Praticamente sem superpoderes, sempre meio atrasado, sempre atrapalhado, ele se enrola com as palavras e passa vergonha periodicamente. Mas, no fim das contas, acaba pegando o bandido e salvando a mocinha.

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Gabriel de Arruda Castro é jornalista e autor do livro Imprevisível: como Bolsonaro chegou lá