Carol King, que tem Alzhe­imer, e o filho dela, em uma casa de repouso para idosos | LAURA MORTON
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Carol King, que tem Alzhe­imer, e o filho dela, em uma casa de repouso para idosos| Foto: LAURA MORTON NYT

O incidente foi do tipo que acontece em instituições que cuidam de pessoas com demência. Em uma casa de repouso em San Francisco, em meados do ano passado, Carol King deixou momentaneamente uma área comum para descanso. Quando voltou, viu que outra residente ocupara sua cadeira, relatou uma enfermeira que testemunhou o episódio. King agarrou o punho da usurpadora. 

Embora membros da equipe tenham agido rapidamente e ninguém parecesse ter se ferido, a outra moradora (também com demência) acionou a polícia para dizer que fora agredida. Em breve, o filho de King, Geoffrey, foi convocado e quatro policiais chegaram. 

Mesmo com objeções dos funcionários e do filho, os policiais decidiram levar King a um centro psiquiátrico de detenção involuntária, que permite prisões por 72 horas quando um policial acredita que a pessoa é incapaz de se cuidar ou oferece riscos a si mesma ou a outros.  

Enquanto revistavam e algemavam King e a colocavam na radiopatrulha, "ela começou a chorar", conta o filho. 

No serviço de emergência psiquiátrica do Hospital Geral de San Francisco, um psiquiatra considerou King "tranquila e cooperativa", sem demonstrar sinais de enfermidade mental, liberando-a sete horas após sua detenção.  

Tais episódios podem se tornar cada vez mais comuns. O número de idosos está crescendo e, com eles, a quantidade de pessoas com demência. Por causa disso, idosos e policiais estão se encontrando com maior frequência, sugerem dados recentes – por vezes com consequências horríveis. 

Vejamos as cifras de prisão. Entre 2002 e 2012, o índice caiu 11 por cento entre as pessoas com idades entre os 18 e os 64 anos, segundo dados federais analisados por pesquisadores da Universidade da Califórnia, campus de San Francisco (UCSF). 

Contudo, a taxa de prisões subiu 23 por cento no caso das pessoas com mais de 55 anos. E cresceu de forma ainda mais acentuada – na casa dos 28 por cento – entre as pessoas acima de 65 anos, sendo que mais de 106 mil delas foram presas em 2012, último ano com estatísticas disponíveis. 

"Tais contatos ocorrem com mais frequência", diz a Dra. Brie Williams, geriatra e diretora do projeto Justiça Criminal e Idosos, da UCSF. 

Sem dúvida, as prisões constituem somente uma medida do envolvimento. A polícia recebe a missão de encontrar pessoas com demência que saem perambulando e levá-las para casa. Os policiais também averiguam a segurança quando a família ou médicos se preocupam com o bem-estar dos idosos. 

Principalmente quando as pessoas têm demência, "elas podem perturbar um bairro ou interagir agressivamente com um desconhecido e a polícia termina sendo chamada", conta Williams. Funcionários de casas de repouso também podem chamar a polícia quando se sentem incapazes de lidar com pacientes beligerantes. 

Tais interações podem ser úteis – ou podem dar muito errado. Geoffrey King, advogado especialista em direitos civis, não tem dúvida sobre a categoria em que se encaixa a detenção de sua mãe. "Foi uma quebra profunda do procedimento e do bom senso", afirma. 

O delegado de polícia interino discordou, declarando no ano passado que os policiais atuaram dentro das normas e da lei estadual, tendo "o dever e a obrigação de agir para proteger as outras residentes contra um comportamento agressivo". 

King entrou com uma queixa na corregedoria da Polícia de San Francisco, acusando os policiais de agir com força excessiva, prisão ilegal e violação da lei dos deficientes

Ele, porém, reconhece que, "embora tenha sido um incidente ruim, poderia ter tido resultados muito piores". 

E isso é verdade. Outros casos que se destacaram no ano passado: 

– Um subdelegado de Minneapolis, Kansas, usou uma arma elétrica em um residente de 91 anos de uma clínica de repouso com mal de Alzheimer que se recusava a entrar no carro para ir ao médico. 

– Depois que um homem de 65 anos de San Jose, Califórnia, foi preso e acusado de invasão, um juiz, informado que a pessoa sofria de Alzheimer, encerrou o caso. Contudo, os assistentes da prisão o libertaram antes que um amigo o pegasse e o homem vagou por uma rodovia, sendo atropelado e morto por um carro. 

– Em Bakersfield, Califórnia, um homem com demência, de 73 anos, estava caminhando em seu bairro tarde da noite quando uma mulher que ele abordou notou algo em seu bolso que ela julgou ser uma arma. Quando a polícia chegou e disse para o idoso levantar as mãos, ele ignorou os gritos, caminhou em sua direção e foi morto a tiros. O objeto no bolso era um crucifixo. 

Para Williams, esses episódios destacam a necessidade de melhorar a maneira pela qual os policiais reagem quando encontram idosos. "Trata-se de um grupo especializado carente de respostas especializadas", ela diz. 

Não existe explicação definitiva para o motivo de a taxa de prisão estar crescendo entre essa faixa etária; e ela permanece bem mais elevada entre grupos mais jovens. 

Além de demência, a qual Williams sugere como resposta para parte desse aumento, ela também destaca que idosos podem se comportar de forma impulsiva por causa de problemas médicos temporários, como delírio, desidratação, infecção ou por efeito de remédios. 

A perda de audição se torna comum entre quem passou dos 60 anos. Quando a polícia grita ordens, será que os idosos entendem o que está sendo dito? A mobilidade também decai. Se escutam ordens para deitar no chão ou entrar no carro de polícia algemados, com que rapidez podem reagir caso sejam frágeis? Será que as tentativas resultarão em quedas e lesões?  

Quando um idoso é visto urinando em público, "existe um motivo médico para se envolver no que costuma ser visto como comportamento criminoso?", indaga Williams. 

Desde 2011, a Polícia de San Francisco oferece um curso de duas horas sobre como lidar como moradores idosos, criado por geriatras da Universidade da Califórnia, campus de San Francisco, durante o treinamento de uma semana sobre como agir durante uma crise. 

Os alunos aprendem sobre o envelhecimento e usam kits que reproduzem seus efeitos, tais como óculos que simulam sintomas de glaucoma ou catarata, e grãos de pipoca são colocados nos sapatos para simular o desconforto da neuropatia diabética.  

"As pessoas costumam ter dificuldade para se colocar no lugar das outras", diz a sargento Kelly Kruger, que ajudou a criar o treinamento. "Isso dá resultado." 

Os policiais também recebem um guia com serviços e programas para idosos, assim podem indicá-los para quem precisar de auxílio. 

Um estudo publicado neste ano por geriatras da UCSF mostrou que o conhecimento dos policiais, incluindo sua compreensão das mudanças de saúde provocadas pela idade, que podem afetar a segurança durante as interações policiais, aumentou de forma significativa após o treinamento. 

Até agora, quase 750 policiais, de um total de 1.800, passaram pelo programa, conta a sargento Laura Colin, uma das instrutoras. Embora a Polícia tenha acrescentado mais aulas recentemente, treinar todos os policiais – a meta – levará seis anos. 

Embora outras cidades tenham entrado em contato com a UCSF para expressar interesse, Williams desconhece outras policias que tenham adotado programas similares de treinamento.  

É uma pena. Segundo ela, as interações da polícia com idosos devem aumentar, simplesmente porque existem mais idosos. Quando os policias compreendem melhor como reagir, "sentem-se aliviados", relata Williams. "Eles só querem saber o que fazer."

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