Os reis Ptolemaicos não sabiam que os anos de seca no rio Nilo eram causados por erupções vulcânicas, ocorridas por vezes tão longe quanto o outro lado do mundo, que enviavam sulfatos à atmosfera e causavam mudanças dramáticas no clima global| Foto: Divulgação

Os líderes do antigo Egito entendiam bem de desastres naturais.

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Se um faraó lidasse mal com uma fome ou seca, poderia ter em suas mãos revoltas por todo o império. 

Um novo estudo mostrou quão grande era o papel das mudanças climáticas e de desastres naturais em provocar revoltas políticas no antigo Egito. Ele sugere que, apesar de períodos de fome ocorrerem frequentemente, os egípcios falharam em perceber o quanto eram vulneráveis às devastações ambientais até o dia em que seu império ruiu. Esta é uma lição que líderes contemporâneos podem achar instrutiva e alarmante visto que eles têm de lidar com cada vez mais eventos climáticos absurdos um após o outro, desde furacões devastadores até incêndios florestais. 

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O estudo – publicado no último dia 10 no periódico científico Nature Communications – combina datação no núcleo do gelo de antigas erupções vulcânicas com registros em papiro de revoltas para mostrar que cada vez que uma erupção vulcânica ocorria no período Ptolemaico do Egito, ela levava quase que inevitavelmente à insatisfação e à revolta. 

“Isso mostra que existem consequências políticas e sociais reais às mudanças climáticas como o aquecimento global e desastres naturais”, disse Joseph Manning, historiador da Universidade de Yale que liderou o estudo.

“Nós agimos como se estas coisas não nos afetassem. Mas quando se vê como avançadas civilizações do passado por vezes eram levadas ao extremo por eventos como esses, isso sugere que nós deveríamos dar passos cuidadosos na Terra”. 

Linha do tempo de revoltas

O Egito durante o período Ptolemaico — ocorrido entre 305 a.C. e 30 a.C — era um centro de poder florescente, cultural e militarmente. Seus reis eram os sucessores do império de Alexandre, o Grande. Eles criaram a Biblioteca de Alexandria e ergueram o farol da cidade — uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. 

Mas o Reino Ptolemaico também era fortemente dependente de plantações irrigadas pelas cheias de verão do rio Nilo. Durante anos, quando as cheias não ocorriam, as colheitas eram devastadas e havia fome e agitação social. 

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O que os reis Ptolemaicos não sabiam era que aqueles anos de seca eram causados por erupções vulcânicas, ocorridas por vezes tão longe quanto o outro lado do mundo, que enviavam sulfatos à atmosfera e causavam mudanças dramáticas no clima global. 

O grupo por trás do estudo publicado recentemente criou uma linha do tempo conectando aquelas mudanças climáticas às revoltas políticas utilizando dados coletados de diversas áreas do conhecimento científico. 

A chave principal do estudo foram os recentes dados de núcleo de gelo que revisaram as datas de quando as maiores erupções vulcânicas ocorreram. No ano passado, um especialista do clima que havia feito parte do estudo desses núcleos de gelo, Francis Ludlow, estava em um jantar na Universidade de Yale com Joseph Manning quando este começou a falar das datas de revoltas durante o período Ptolemaico que os historiadores nunca foram capazes de explicar. 

“Enquanto ele listava as datas, em minha mente começaram a surgir inúmeras informações sobre os dados de núcleo de gelo”, contou Ludlow. “Nós começamos a compará-los e foi incrível como as revoltas coincidiam exatamente com das datas das erupções”. 

O grupo chamou um especialista em monções que associou as erupções vulcânicas aos níveis de água do Nilo. Eles conectaram todos os dados com meticulosos dados antigos dos níveis de água do Nilo e registros em papiro de agitações políticas. Eles também utilizaram um modelo estatístico para mostrar que a frequência com que as erupções coincidiam com as revoltas políticas não eram apenas coincidências. 

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“Os mecanismos básicos que eles estão utilizando para o estudo são comprovados e adequados”, disse Michael McCormick, historiador do período medieval da Universidade de Harvard, que não estava envolvido na pesquisa. Recentemente, McCormick publicou um estudo similar conectando erupções vulcânicas à fomes e agitações populares durante o reinado de Carlos Magno na Europa Ocidental

Tal estudo é parte de um novo grupo de pesquisa resultante da colaboração de especialistas de diferentes áreas como genética, climatologia e historiadores que anteriormente se baseavam mais em registros escritos e na arqueologia. 

Virologistas e geneticistas, por exemplo, estão se juntando a historiadores para reconstruir os genomas de doenças antigas de forma a compreender como elas motivaram eventos históricos. O estudo de dados físicos – como núcleos de gelo, anéis de crescimento de árvores e grãos de pólen – gerou teorias interessantes e um novo entendimento dos efeitos ambientais no colapso de sociedades antigas como o império Romano e a civilização da Idade do Bronze no Mediterrâneo

“A lição que eu tiro de tudo isso é o quanto nós precisamos de humildade”, disse McCormick. “Nós estamos falando de civilizações que duraram muito tempo, que eram tão inteligentes e tão capazes de empreender quanto nós somos. E ainda assim, às vezes eles receberam golpes devastadores do meio ambiente. Em alguns momentos as civilizações foram capazes de superar estes golpes, mas em outros elas foram superadas por eles”. 

Alguns líderes egípcios parecem ter conduzido melhor a ajuda aos afetados pelos desastres, possivelmente prevenindo revoltas em seu tempo. 

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Uma das maiores erupções vulcânicas nos últimos 2,5 mil anos ocorreu durante o reinado da célebre Cleópatra, última líder Ptolemaica. Tal erupção causou pragas, fome e secas. Ainda, assim, conforme aponta o estudo, não há nenhum registro de revoltas políticas. 

Parte disso pode ter relação com a ação rápida de Cleópatra para ajudar as vítimas dos desastres, teorizaram alguns dos coautores do estudo. De acordo com registros históricos, Cleópatra abriu armazéns estatais e instituiu reduções fiscais. Ao final, no entanto, isso não salvou nem a ela nem ao Reino Ptolemaico. Em 31 a.C., quando os romanos derrotaram a marinha de Cleópatra, o seu império já estava enfraquecido por anos de irregularidades nas cheias do Nilo, de fome e pragas. Logo depois, ela cometeu suicídio. 

Manning, coautor do estudo publicado no dia 10, disse ver outra lição histórica na queda de Cleópatra e do Reino Ptolemaico. “Por muito tempo eles se arriscaram, lutando guerras enormes e mantendo plantações que eram especialmente vulneráveis às mudanças do Nilo. Eles se recusaram a mudar sua política e isso os deixou vulneráveis uma vez que forças maiores na natureza e no mundo vieram e os derrotaram”.

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