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Documento histórico

“Forças terríveis”: renúncia de Jânio Quadros faz 65 anos

Jânio Quadros, fotografado durante reunião com governadores em 1961: renúncia repentina.
Jânio Quadros, fotografado durante reunião com governadores em 1961: renúncia repentina. (Foto: Arquivo Público)

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Em 3 de outubro de 1960, o sucessor do presidente Juscelino Kubitschek foi escolhido por 48% dos votos. Jânio Quadros, que já havia sido prefeito e governador do estado de São Paulo, além de deputado federal pelo Paraná, assumiu o cargo em 31 de janeiro de 1961. O mandato durou menos de um ano.

Em 25 de agosto de 1961, há 65 anos, apresentou um bilhete com uma declaração lacônica e bombástica: “Nesta data e por este instrumento, deixando com o ministro da Justiça as razões do meu ato, renuncio ao mandato de presidente da República”.

A decisão aconteceu quando o vice-presidente João Goulart estava fora do país, na China, em uma missão diplomática e comercial oficial. A crise institucional que se sucedeu foi temporariamente solucionada com a Emenda Constitucional n.º 4, de 2 de setembro de 1961, que instituiu o parlamentarismo no país – o presidencialismo seria restaurado em janeiro de 1963, via plebiscito.

Mas o governo de Jango se manteve em conflito aberto com o Congresso e culminou com o exílio do presidente e a tomada de poder pelos militares em 1964. O Brasil só voltaria a eleger um presidente pelo voto popular em 1989.

Leia a carta de renúncia de Jânio Quadros, com ortografia atualizada

“Fui vencido pela reação e, assim, deixo o governo. Nestes sete meses cumpri o meu dever. Tenho-o cumprido dia e noite, trabalhando infatigavelmente sem prevenções nem rancores. Mas baldaram-se os meus esforços para conduzir esta nação pelo caminho de sua verdadeira libertação política e econômica, o único que possibilitaria progresso efetivo e a justiça social a que tem direito a seu generoso povo.

Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontado neste sonho a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou indivíduos, inclusive do exterior. Sinto-me, porém, esmagado.

Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam até com a desculpa da colaboração. Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranquilidade ora quebradas e indispensáveis ao exercício da minha autoridade. Creio, mesmo, não manteria a própria paz pública.

Encerro assim com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes e para os operários, para a grande família do país, esta página de minha vida e da vida nacional. A mim não falta a coragem de renúncia.

Saio com um agradecimento e um apelo. O agradecimento é aos companheiros que comigo lutaram e me sustentaram dentro e fora do governo, e de forma especial às Forças Armadas, cuja conduta exemplar, em todos os instantes, proclamo nesta oportunidade. O apelo no sentido da ordem, do congraçamento, do respeito e da estima de cada um dos meus patrícios, para todos, de todos, para cada um.

Somente assim seremos dignos deste país e do mundo. Somente assim seremos dignos da nossa herança e da nossa predestinação cristã. Retorno agora ao meu trabalho de advogado e professor. Trabalhemos todos. Há muitas formas de servir nossa pátria.

Brasília, 25 de agosto de 1961.”

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