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Ciência

‘Horóscopo para combater o machismo’: pegadinha revela falta de rigor dos estudos acadêmicos

Pesquisadores elaboraram 20 estudos falsos, repletos de erros e conclusões ilógicas, mas alinhados com a ideologia dominante nesse campo. Resultado: sete dos estudos foram aceitos para publicação e  um deles chegou a receber um prêmio

  • Carlos Orsi especial para a Gazeta do Povo
Os autores do estudo criticam a confusão entre pesquisa e ativismo | Pixabay
Os autores do estudo criticam a confusão entre pesquisa e ativismo Pixabay
 
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No início de novembro, o jornal “Vanguard”, administrado por estudantes da Universidade Estadual de Portland, publicou uma carta anônima — supostamente escrita por uma dúzia de docentes da instituição — acusando o professor de filosofia Peter Boghossian de má conduta acadêmica e de praticar “bullying no estilo da política dos tempos de Trump”. A carta é encabeçada por uma fotomontagem em que o professor criticado aparece como uma mistura de Pinóquio e vilão de cinema mudo. 

O motivo do ataque anônimo foi a participação do Boghossian numa fraude elaborada para testar o rigor acadêmico dos chamados estudos identitários, a ala das Humanidades que assumiu a tarefa de produzir pesquisas e teorias sobre questões de raça, sexualidade e gênero. Boghossian e dois colegas – o matemático James A. Lindsay e a escritora Helen Pluckrose – referem-se a esse campo das Ciências Humanas como “grievance studies”, algo como “estudos de ressentimento” ou “estudos rancorosos”. 

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A fraude consistiu na elaboração e envio de 20 estudos falsos, repletos de erros e conclusões ilógicas, mas alinhados com a ideologia dominante nesse campo, para periódicos acadêmicos da área. O resultado: sete dos estudos foram aceitos para publicação (um deles chegou a receber um prêmio), seis rejeitados e sete devolvidos para correções e esclarecimentos, o que indica a intenção dos editores de publicá-los. 

O golpe 

Um dos artigos devolvidos parar revisão e posterior publicação defendia a incorporação de horóscopos à astronomia, como forma de reduzir o machismo, a homofobia e o etnocentrismo dessa ciência; um artigo aceito, publicado e premiado afirmava que a interação entre humanos e cães nos parques públicos da cidade de Portland oferecia um laboratório de pesquisa para a “cultura de estupro” predominante. 

Este último artigo, “Human Reactions to Rape Culture and Queer Performativity in Urban Dog Parks in Portland, Oregon” (“Reações Humanas à Cultura de Estupro e Performatividade ‘Queer’ em Parques Urbanos de Portland, Oregon”) – aceito pelo periódico “Gender, Place & Culture: A Journal of Feminist Geography” – chamou atenção da RealPeerReview, uma conta do Twitter dedicada a denunciar e expor exemplos de trabalhos acadêmicos de má qualidade. 

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A movimentação online chamou a atenção da imprensa, o que levou à retratação do artigo e à exposição da fraude antes que o experimento planejado por Boghossian, Lindsay e Pluckrose completasse seu curso. O escândalo estourou com a publicação de uma peça de opinião sobre o assunto no Wall Street Journal, em outubro. 

“Alguma coisa deu errado na universidade – especialmente em certos campos dentro das humanidades”, escreveram os autores da fraude no manifesto online que lançaram sobre a iniciativa

“Trabalhos baseados menos na busca pela verdade e mais no atendimento de ressentimentos sociais estabeleceram-se com firmeza, quando não tornaram-se dominantes, dentro desses campos, e seus acadêmicos cada vez mais intimidam estudantes, administradores e outros departamentos a aderira seus pontos de vista”. 

O significado 

A iniciativa atraiu ataques e elogios. Algumas das críticas centraram-se nas pretensões científicas da fraude: todo esquema, afinal, havia sido concebido como um experimento para testar se o meio acadêmico dedicado a estudos de raça e gênero estaria disposto a publicar qualquer bobagem, desde que ela viesse a confirmar o sabor específico de ideologia esquerdista dominante nesse meio. 

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Com apenas sete artigos aceitos, de um total de 20 submetidos, o resultado pode parecer menos conclusivo do que os autores supõem. Escrevendo para a revista Slate, o jornalista de ciência Daniel Engber aponta ainda que, dos sete trabalhos aceitos, três baseavam-se em dados falsos – isto é, observações, medições, cálculos, etc., que os autores alegavam ter feito e não fizeram. “Sabemos de longa data que a revisão especializada pelos pares não protege contra fraude deliberada de dados”, afirma Engber. 

Mesmo se a análise dos dados apresentada nos artigos fosse ruim, a existência dos dados poderia ter valor científico — se fossem dados reais. E não havia como os revisores e editores adivinhar que não eram. James A. Lindsay, no entanto, rejeita a crítica. 

Repercussão 

“Em todos os casos em que inventamos dados, fizemos isso de modo que era ou obviamente ridículo, ou que dependia de uma análise completamente enviesada e inválida”, afirmou, em comunicação com a Gazeta do Povo. “Em artigos como o dos cães no parque, os dados são ridículos e as conclusões não têm lógica. Não há desculpa para esses artigos terem sido aceitos como parte de algum tipo de resultado sociológico”. 

Já o biólogo e professor de filosofia Massimo Pigliucci lembra que a vulnerabilidade a pesquisa ruim ou a fraude não é exclusiva nem das humanidades, nem dos estudos identitários dentro das humanidades. Em 2016, uma conferência de Física Nuclear realizada nos Estados Unidos aceitou um artigo escrito pela função “autocompletar” do sistema operacional da Apple. 

Áreas como psicologia e pesquisa fundamental sobre câncer sofrem de suas próprias “crises de reprodutibilidade”, em que estudos publicados na literatura científica acabam não se confirmando em testes posteriores, o que põe em xeque a validade desses trabalhos. Parte dessa crise costuma ser explicada pela pressão constante para publicação – a progressão na carreira acadêmica depende de produtividade, e a quantidade acaba solapando a qualidade. 

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Lindsay, no entanto, acredita que o paralelo entre os “estudos de ressentimento” e as pesquisas ruins que são publicadas em outras áreas do conhecimento não é tão relevante. “As raízes do problema nos ‘estudos de ressentimento’ são fundamentalmente filosóficas, éticas e políticas”, disse ele. 

“Esses campos nasceram com uma agenda de ativismo político, e foram instalados para satisfazer uma agenda política. Essa agenda é o que viemos a compreender, e quaisquer que sejam os problemas em outros campos, os estudos de ressentimento tratam de promulgá-la, e dependem dela, de um modo que, muito provavelmente, é bem único”. 

Isolamento 

Pigliucci é, ele próprio, um crítico dos “estudos de ressentimento” (que ele chama de “estudos de ‘X’, com ‘X’ podendo ser substituído por raça, gênero, etc.). Ele vê como problemas o isolamento dessas áreas em relação ao restante das Humanidades, a confusão entre pesquisa e ativismo e a tendência de se abraçar um “determinismo ambiental” na definição de características cognitivas e culturais humanas. 

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“Estudos de ‘X’ são potencialmente problemáticos, e provavelmente deveriam passar por algum tipo de revisão acadêmica como conceito”, reconhece o filósofo. Mas o modo de fazer isso não é por meio de fraudes, acredita, e sim pela “análise aprofundada dos argumentos propostos pelos pesquisadores desses campos”.


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