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Cinema

“Joias Brutas”: um filme de Adam Sandler para quem odeia filmes de Adam Sandler

  • PorArmond White*
  • National Review
  • 14/04/2020 15:17
Cena do filme “Joias Brutas”, produção da Netflix
Cena do filme “Joias Brutas”, produção da Netflix| Foto: Divulgação - Netflix

“Oito Noites de Loucura de Adam Sandler” (2002), o único filme de animação sobre o Hanukkah, até onde eu sei, foi uma celebração étnica como nenhum outro astro judeu de Hollywood jamais ousou. A identificação étnica de Sandler impulsiona o encanto cômico na maioria de seus filmes. Foi ultrajante em “Zohan: O Agente Bom de Corte” (2000) e uma fonte de genialidade em seus melhores filmes, “Espanglês” (2004) e “Cada um tem a Gêmea que Merece” (2011). No entanto, essa qualidade haimish (palavra iídiche que significa amigável, como são os filmes de Sandler) fez dele alvo de críticas da turma descolada.

Nem mesmo Davey Stone, o alcoólatra com antecedentes criminais que Sandler dublou (e redimiu) em “Oito Noites de Loucura”, conseguiu diminuir as críticas que Sandler, ex-integrantes do Saturday Night Live, sofreu. (Ridicularizado pela intelligentsia cinematográfica, Sandler procurou refúgio no universo não cinematográfico da Netflix.) Agora, Sandler “meteu o louco”, interpretando um canalha judeu (goniff, palavra iídiche para ladrão ou desonesto) em “Joias Brutas”, e por isso recebeu os elogios mais despropositados e inconvincentes de sua carreira. O filme é um sucesso irônico; agrada os descolados, mas decepciona os verdadeiros fãs de Sandler.

No papel de Howard Ratner, um joalheiro de Nova York sempre à procura de um esquema para ficar rico, Sandler é completamente inconsequente - um anti-mensch (iídiche para pessoa íntegra, honrada). Ratner é um malandro-agulha, com um cavanhaque horrendo e desesperadamente egoísta. Ele trai sua esposa materialista (Idina Menzel, sim, a atriz que dá voz à Princesa Elsa, de “Frozen”) e sua amante sacana (Julia Fox) e depois tenta enganar os tipos desagradáveis ​​que circulam por sua loja no Diamond District (região de Nova York que é um dos centros mundiais da venda de diamantes), na rua 47. (Foi nesse local que um sobrevivente do Holocausto encontrou um médico nazista no filme “Maratona da Morte”, de John Schelesinger). A fauna de tipinhos malandros de “Joias Brutas” varia de atletas negros a mafiosos russos - a mesma "diversidade" da genial franquia de Sandler para adultos, “Gente Grande”.

Benny e Josh Safdie, os irmãos que dirigem e escrevem o filme, usam o progressismo moderno para rastrear os esforços covardes de Ratner para vender uma opala negra oriunda de uma mina etíope a uma celebridade esportiva negra. A sequência de abertura faz um close-up desde a exploração econômica africana à colonoscopia de Ratner. Uau! As semelhanças com o roteiro de James Toback para “O Jogador” (1974), no qual um judeu americano assimilado se envolve na exploração negra, sugere ao mesmo tempo um remake absurdo e um legado conflituoso.

A julgar pela piada de circuncisão implícita em seu título (no original em inglês “Uncut Gems”), os irmãos Safdie vão além da falta de pudor sexual e racial de Toback, voltando à mesma inveja milenar e ressentimento do mito da negação sexual negra que obcecava o escritor Norman Mailer em seu famoso ensaio de 1958, “ O negro branco”. No entanto, ao ceder à ilegalidade de Ratner, uma versão judaica da insolência urbana, “Joias Brutas” mal toca no antagonismo étnico que a geração pós-hip-hop suprimiu. (LaKeith Stanfield, The Weeknd e Kevin Garnett, ex-jogador do Boston Celtics, são escalados como antagonistas negros estereotipados.)

Como no filme “Bom Comportamento”, de 2018, os irmãos Safdie exultam no submundo com uma técnica áspera, aparentemente realista e low-fi. “Joias Brutas” parece deliberadamente sem refinamento, como um disco pop irritante por sua estilização cacofônica. (As cenas na boate e o tiroteio são as piores). Os irmãos Safdie são celebrados como inovadores, mas eis a verdade: “Joias Brutas” finge ser inteligente e etnicamente ousado, mas não é tão inteligente quanto “Oito Noites de Loucura” - ou a música “Unbearably White”, da banda indie americana Vampire Weekend, na qual o vocalista Ezra Koenig responde às acusações de privilégio étnico e de classe desconstruindo o modo como o politicamente correto interpreta a realidade e a identidade.

Em “Joias Brutas”, os Safdies compartilham um dilema étnico semelhante ao do Vampire Weekend, mas seguem um caminho tedioso pelas confusões da identidade social de Ratner/Sandler e depois se contentam com emoções ilícitas. Sandler fez filmes melhores do que este, enfrentando o vergonha judaica da Hollywood mainstream e criando um humanismo honesto: “Little Nicky: Um Diabo Diferente”, “Espanglês”, “Eu os Declaro Marido e… Larry”, “Cada um tem a Gêmea que Merece”, “Trocando os Pés”. O papel indigno de Sandler em “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe”, de Noah Baumbach, disfarçou a autocensura como sofisticação. Traiu as dúvidas étnicas que Mailer, Philip Roth, Bernard Malamud e Saul Bellow trabalharam para dissipar.

Adam "Ad Rock" Horovitz, do Beastie Boys, brincava com a mesma ambivalência étnica que “Joias Brutas” quando atuava como palhaço e descolado - uma derivação do gênio-pateta de Jerry Lewis e um modelo para a busca artística de Sandler. Se Jerry Lewis tivesse interpretado Travis Bickle, de “Taxi Driver”, ele poderia ter recebido os mesmos elogios equivocados de Sandler por ir contra seus pontos fortes e deturpar suas ansiedades.

Mailer escreveu uma vez que a última coisa que ele queria era ser considerado "um bom garoto judeu". “Joias Brutas” parece motivada pelo mesmo pavor. Os irmãos Safdie percorrem um submundo urbano de vadios, negros e judeus insolentes - bandidos e criminosos que provocam e humilham uns aos outros. Eles encurralam Sandler, um artista popular, em sua loucura. O filme imita filmes mais pesados (especificamente os pesadelos nerds de Scorsese, “O Rei da Comédia” e “Depois de Horas”), mas suas cenas de flagrante flagelo não resolvem os dilemas psicológicos existenciais que Mailer explorou com audácia e franqueza.

Em vez disso, o falso realismo dos Safdies e a vaidade arrogante lembram “Réquiem para um Sonho”, de Darren Aronofsky, uma abordagem que banaliza a situação do judeu assimilado em vez de enfrentá-la - como em “Harmony Hall”, música alegre e pesada do Vampire Weekend, na qual Ezra Koenig confessa: "Um coração nervoso que bate como um jovem apaixonado / debaixo dessas luvas de veludo, escondo as vergonhosas mãos tortas de agiota / porque ainda me lembro."

Por si próprio, Sandler atende a essas preocupações étnicas e as transcende da maneira cômica original. “Cada um tem a Gêmea que Merece”, “Espanglês” e “Eu os Declaro Marido e… Larry” demonstraram extraordinária inteligência ética e étnica que os Safdies não conseguem igualar. “Joias Brutas” descaradamente apresenta um filho de Shylock (personagem judeu da peça “Otelo”, de Shakespeare), mas o filme mostra apenas a superfície do existencialismo étnico, a angústia multicultural americana que foi vivida com entusiasmo e brilhantismo em “Cadê a Minha Entrega”, a subestimada comédia urbana negra sobre filhos de escravos.

“Joias Brutas” diminui uma das sensibilidades cômicas mais ricas do cinema moderno. Transforma Sandler, o espertinho que sempre escolhe a família e a amizade em detrimento do egoísmo das ruas, em um ícone do niilismo sujo. Os irmãos Safdie reinventaram o bom garoto judeu Sandler como Johnny Depp.

Armond White, crítico de cinema, escreve sobre filmes para a National Review e é autor de 'New Position: The Prince Chronicles'.

© 2020 National Review. Publicado com permissão. Original em inglês
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