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Jason Barker nos convida, no New York Times, a celebrar o bicentenário do nascimento de Karl Marx na antiga cidade de Trier, no sul da Alemanha. O argumento do professor de filosofia e celebridade é que Marx sempre esteve certo e continua sendo nosso guia indispensável para o futuro. Barker carrega a tocha com argumentos tão imortais quanto errados. 

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Seu postulado fundamental é que Marx corretamente analisou o capitalismo como guerra de classes, o eterno conflito entre exploradores e explorados (o proletariado), uma luta que levará necessariamente à autodestruição do capitalismo e sua substituição por uma sociedade sem classes.

De passagem, Barker afirma que todos os economistas de hoje aceitam a definição de capitalismo de Marx. Parece mais provável que Barker nunca tenha conhecido um economista, pois nenhum deles ainda vê o capitalismo de acordo com a estrutura conceitual marxista da exploração.

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Ao contrário da filosofia, a economia é baseada na análise da realidade. O grande erro de Marx foi ter falhado em prever que o capitalismo produziria uma enorme classe média que não é nem exploradora nem explorada. Nos países desenvolvidos, essa classe média representa talvez 90% da população, deixando os dois extremos à margem do sistema. Isso não apenas contradiz a estrutura marxista; isso a desmantela.

Destemidos, os pós-marxistas a partir de Vladimir Lenin tentaram expandir o conceito de guerra de classes para uma escala planetária, dividindo as nações em duas categorias: as nações capitalistas exploradoras e as nações proletárias – isto é, colonizadas – exploradas.

Os fatos mais uma vez invalidaram essa tese, uma vez que nações anteriormente colonizadas, influenciadas pelo comércio internacional e seus próprios empreendimentos capitalistas, geraram, por sua vez, suas próprias classes médias predominantes, como tem sido o caso da China, da Índia e do Brasil.

Exploração comunista

A exploração no mundo em desenvolvimento é principalmente centrada em países que se dizem comunistas, como China, Vietnã, Coreia do Norte e Cuba, onde os dignitários do Partido Comunista exploram e oprimem suas próprias populações.

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Aqui, novamente, Barker, seguindo o exemplo de Lênin, evita a realidade através do uso de metáforas: as contradições do capitalismo são traduzidas para a guerra entre os sexos e as raças, expressa atualmente pelos movimentos #MeToo e Black Lives Matter, as expressões mais proeminentes da consciência proletária no momento.

Tal metáfora não pode substituir a análise, no entanto, uma vez que é apenas nas sociedades capitalistas que tais contradições sociais vêm à luz e são discutidas e (às vezes) resolvidas. Nos países que negam o capitalismo – especialmente a China – o Partido declara que o assédio sexual e o racismo só existem nas sociedades ocidentais. Como isso soa para mulheres trabalhadoras na China ou para os tibetanos? 

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Barker propõe um contra-argumento para a abertura e a disposição das sociedades capitalistas de atacar tabus: eles têm que agradecer às críticas marxistas. Se com isso ele quer dizer que a crítica social e o escrutínio do poder dominante são as funções da filosofia, então estamos plenamente de acordo. Mas quem precisa de Marx para isso? Sócrates foi mais longe nesse exercício e pagou o preço por isso, ao contrário de Marx. 

Barker admite que Marx nunca descreveu realmente a sociedade do futuro, mas, em vez disso, nos convidou a procurá-la. De fato, onde quer que o esquema marxista utópico fosse aplicado, ele produziu catástrofes humanas bem documentadas; no laboratório do marxismo, as nações são cobaias.

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Todos os experimentos marxistas fracassaram, e os marxistas nos explicam que a falha não está no comunismo, mas apenas em sua desajeitada aplicação. A União Soviética fracassou porque os russos eram russos, e o marxismo foi um desastre nos outros lugares porque, veja você, os chineses e os cubanos são povos tropicais. Essas desculpas demonstram que, assim que o marxismo é aplicado, ele deixa de ser marxista, o que permite uma filosofia resolutamente materialista se transformar em idealismo puro. 

O próprio Marx disse que ele não era marxista – de longe sua declaração mais perspicaz. Quanto aos seus discípulos contemporâneos, para quem o marxismo é um substituto do pensamento real, eles nunca serão persuadidos de seu erro, porque não estão interessados na realidade.

©2018 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês