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Celas da antiga sede do KGB em Vilnius, capital da Lituânia, se transformaram no Museu das Vítimas do Genocídio
Celas da antiga sede do KGB em Vilnius, capital da Lituânia, se transformaram no Museu das Vítimas do Genocídio| Foto: BigStock

A KGB ainda existe, ao menos em Belarus. Três décadas depois do fim da União Soviética, o principal serviço secreto do país do Leste Europeu, que tem 9,3 milhões de habitantes, mantém o antigo nome. E também os métodos, como se viu no dia 23 de março deste ano, quando um dissidente de 26 anos, o jornalista Roman Protasevich, foi detido depois que o voo comercial onde ele estava foi interceptado no ar por um caça MiG-29.

Detido em um local não informado, Protasevich está sujeito até mesmo à pena de morte. Ele vivia em exílio na Lituânia desde 2019 e retornava para casa depois de participar de uma conferência na Grécia. Os agentes de Belarus localizaram o voo e conseguiram forçar o pouso, alegando que haveria uma bomba no avião. Obviamente, o artefato não foi encontrado.

Belarus pode ter sido o único país que não renomeou seu próprio serviço secreto, mas a KGB mantém sua marca nos órgãos que a sucederam, especialmente na Rússia, onde atuam uma agência interna e outra para assuntos internacionais, respectivamente a SVR e a FSB. O presidente russo Vladimir Putin, aliás, foi agente da KGB.

A maior organização de espionagem do planeta

Fundada em março de 1954 e oficialmente dissolvida em dezembro de 1991, a KGB sucedeu outras seis agências de inteligência e espionagem: pela ordem, a Cheka (1917-1922), a GPU (1922-1923), a OGPU (1923-1934), a NKVD (1934-1946), a NKGB (que atuou em paralelo à NKVD, no primeiro semestre de 1941 e entre 1943 e 1946) e, por fim, a MGB (1946-1953).

Mas o último e mais longevo órgão de espionagem e repressão conseguiu superar a todos os anteriores, até mesmo a NKVD, que atuou de forma decisiva nos Grandes Expurgos conduzidos pelo ditador Josef Stalin, e a MGB, que garantiu a consolidação do controle soviético sobre a Europa Oriental no pós-Segunda Guerra graças à perseguição massiva de oponentes, com a prisão de pelo menos 2,75 milhões de pessoas que questionaram, de alguma forma, a submissão a Moscou.

Instalada num contexto de guerra fria, a KGB foi a maior organização de espionagem e contrainteligência do planeta. Chegou a ter mais de 480 mil colaboradores, distribuídos tanto do território russo quanto em todo o planeta e que alimentavam uma rede de milhões de informantes.

Manteve armas, aviões e tanques de uso próprio, prestava contas diretamente ao comando do Partido Comunista da União Soviética e ainda coordenava uma rede de serviços secretos dos outros países do bloco soviético. Por exemplo: até onde se sabe, o braço soviético mais ativo no Brasil nas décadas de 50 e 60 foi o serviço secreto da Tchecoslováquia.

A ação de contrainteligência era uma das mais bem sucedidas. Com frequência, jornais do Ocidente, inclusive dos Estados Unidos, publicavam informações que haviam sido plantadas por agentes soviéticos.

Agentes infiltrados

Existem poucos dados oficiais sobre a KGB. O acesso a informações permanece em boa parte censurado, diferentemente do que acontece com a CIA, a agência americana que polarizou com os russos o cenário global entre os anos 50 e 90 e cujos arquivos, passado algum tempo, são liberados. Mas é possível conhecer o serviço secreto russo a partir das histórias de espiões que foram detidos, ou que abandonaram a URSS em algum momento.

Sabe-se que a KGB herdou — e ampliou — duas características da MGB: a capacidade de inviabilizar a liberdade de expressão em termos internos e a competência para infiltrar adversários nos países ocidentais. A MGB se mostrou decisiva, por exemplo, para que a União Soviética alcançasse rapidamente os Estados Unidos em seu programa de bombas nucleares. E a agência que a sucedeu manteve essa tradição, especialmente em ações de espionagem que demandavam a capacidade de infiltrar pessoas em instituições estratégicas.

“A KGB foi bem-sucedida em algumas áreas, e terrível em outras”, avalia o historiador Isaias Lobão Pereira Júnior, professor do Instituto Federal do Tocantins (IFTO). “Por exemplo, eles foram muito bons em recrutar agentes da CIA, universitários empolgados com o socialismo e tiveram sucesso em roubar informações científicas e tecnológicas dos Estados Unidos”.

Por outro lado, diz ele, rapidamente os casos de deserção se tornaram muito comuns. “Os agentes mais bem-sucedidos foram recrutados nos países que espionavam, porque a pobreza da URSS tornava interessante a vida no Ocidente. A fascinação com os bens de consumo produzidos pelo Ocidente era uma tentação”.

Como lembra o historiador, os jovens espiões russos que tentavam se infiltrar nas cidades mais ricas do capitalismo eram facilmente identificáveis. “Jovens nascidos, criados e doutrinados na URSS passavam as primeiras semanas vagando por Londres e Nova York, entorpecidos com o entretenimento, a facilidade na compra de produtos simples no mercado, a liberdade para viajar, e assim por diante. O choque cultural era tão grande, que não podiam limpar a expressão de assombro de seus rostos e pareciam idiotas desajeitados”.

Clima de terror

Criada depois da morte de Stalin, a KGB ficou popular pelos apetrechos tecnológicos que desenvolveu ao longo das décadas, como um guarda-chuva que seria capaz de disparar dardos de veneno em locais públicos, de forma discreta. E por participar ativamente de incidentes marcantes da segunda metade do século 20, como as guerras da Coreia e do Vietnã. Mas foi no cenário interno que o serviço secreto soviético se tornou mais eficiente.

“A principal atuação da KGB na Rússia era proteger os líderes do Partido Comunista e, assim, manter a ordem política”, explica o professor do IFTO. “Outra função, na Rússia e nos países que pertenciam ao bloco soviético, era reprimir a dissidência política. A KGB identificava os dissidentes que promoviam ideias políticas ou religiosas anticomunistas e, em seguida, os eliminava”.

Um dos mais importantes chefes da história da agência, Yuriy Andropov, colocou em prática esse conceito: acima de tudo, garantir, à força, a manutenção das vastas fronteiras da URSS. Como embaixador da Hungria entre 1954 e 1957, ele se mostrou crucial para garantir o sucesso dos agentes soviéticos na contenção da rebelião de 1956.

Ele assumiria a liderança da agência em 1967, a tempo de atuar de maneira decisiva na repressão da Primavera de Praga, no ano seguinte. A partir daquele momento, tornou-se um dos maiores defensores da tese de que os dissidentes deveriam ser internados em hospitais psiquiátricos, por sofrer de uma doença fictícia chamada “esquizofrenia progressiva”. Andropov só deixaria a KGB para assumir o comando da URSS, em fevereiro de 1983. Morreria em 9 de fevereiro de 1984 e seria sucedido por Mikhail Gorbachev.

“A KGB criou uma ampla rede de informantes, alguns recrutados à força, que coletavam informações para o governo e denunciavam os casos de dissidência política. A repressão era cotidiana, todos os meios de comunicação eram censurados e as fronteiras controladas. Tudo isso criou um clima de terror”, lembra o historiador.

Mas ele lembra que a resistência não deixou de existir, apesar de toda a repressão. “A prática ampla da censura deu origem ao ‘samizdat’, expressão que significa, em russo, ‘auto publicação’. As pessoas copiavam os textos, muitas vezes à mão, e passavam os documentos diretamente aos leitores. A maioria das impressoras e máquinas de escrever foram catalogadas e era exigido uma permissão oficial para o acesso. A prática era perigosa, pois quem era pego portando ou copiando textos considerados subversivos, como trechos da Bíblia, eram severamente punidos”.

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