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Os tchecoslovacos aprenderam da pior forma que não um regime totalitário jamais lhes daria “o gostinho da liberdade”.
Os tchecoslovacos aprenderam da pior forma que não um regime totalitário jamais lhes daria “o gostinho da liberdade”.| Foto: Domínio Público/ Wikipedia

Em 16 de janeiro de 1969, o estudante de história e economia política Jan Palach se dirigiu até a praça Wenceslas, em Praga, e ateou fogo ao próprio corpo. Horas antes, ele havia divulgado uma carta conclamando uma greve geral e pedindo o fim da censura e da distribuição do jornal Zprávy, produzido a mando do exército soviético. Palach resistiu aos ferimentos por três dias, até falecer.

Seu enterro foi acompanhado por centenas de pessoas e seu túmulo, no cemitério Olšany, o maior da cidade, tornou-se local de peregrinação. Até que a polícia secreta da Tchecoslováquia exumou o corpo, o cremou e entregou à mãe, que vivia no vilarejo de Všetaty. Os restos mortais do jovem só retornariam a Olšany em 1990.

Outras pessoas, ao longo do ano de 1969, repetiriam o gesto e se imolariam, enquanto milhares de tchecoslovacos tentavam fugir do país. Elas viveram um sonho, o de que o país experimentaria um “socialismo com um rosto humano” - mas esse sonho foi esmagado pela União Soviética.

Entre janeiro e agosto de 1968, a Tchecoslováquia experimentou a chamada Primavera de Praga. Até que os tanques T-54 suprimissem qualquer tentativa de transformar um país comunista em um lugar onde as pessoas fossem livres para se expressar.

Tanques nas ruas

A invasão da Tchecoslováquia teve início na noite de 20 de agosto. 250 mil soldados, a bordo de 2 mil tanques e 800 aeronaves, atravessaram a fronteira do país em direção à capital. Ao longo de um mês da chamada Operação Danúbio, o número de militares envolvidos alcançaria os 500 mil, vindos da Rússia, da Polônia, da Hungria e da Bulgária. A Alemanha Oriental deu apoio, mas sem enviar tropas.

Informados de que estavam ocupando o país para libertar o povo de uma tentativa de golpe contra a revolução socialista, os soviéticos fecharam estradas, ocuparam estações de rádio e redações de jornal e tomaram as ruas.

Ao acordar, no dia 21, os habitantes de Praga encontraram tanques nas avenidas e corpos no asfalto. Antes de ser detido e enviado a Moscou, o líder do país e condutor do processo de abertura, Alexander Dubcek, pediu que as pessoas evitassem resistir. Ainda assim, milhares de tchecoslovacos cercaram os veículos militares. Com flores nas mãos, eles pediam que os camaradas soviéticos entendessem que a nação não estava abandonando o comunismo, apenas buscando reformas dentro do sistema.

Obviamente, os protestos pacíficos não surtiram efeito. Quem resistiu foi preso, ferido ou morto – estima-se que as vítimas fatais foram 137. As pessoas, então, se lembravam de um livro muito popular no país, chamado As aventuras fatídicas do bom soldado Švejk durante a Guerra Mundial, publicado pelo escritor Jaroslav Hašek entre 1921 e 1923. O protagonista é um soldado atrapalhado, tão empolgado em defender o Império Austro-Húngaro durante a Primeira Guerra, que acaba dificultando a vida de seus superiores e colegas.

“Não sei, não conheço”

Inspiradas no personagem, as pessoas decidiram atrapalhar a vida dos soldados invasores. Muitos nem sabiam em que país exatamente estavam. Surgiu então um lema: “não sei, não conheço, não direi, não tenho, não sei fazer, não darei, não posso, não irei, não ensinarei, não farei”. Eram as únicas respostas possíveis para qualquer pedido das tropas invasoras.

Surgiram rádios clandestinas, transmitindo informações da resistência. Placas de sinalização foram invertidas. As que apontavam para Praga foram reposicionadas na direção de Moscou, a 1.900 quilômetros dali. Veículos eram colocados em chamas sobre as ferrovias e rodovias agora ocupadas por soviéticos. O esforço de resistência chegou ao Ocidente, onde os relatos e as fotos da resistência pacífica de Praga ganharam os jornais.

O regime soviético defendeu a invasão. O secretário-geral do Partido Comunista, Leonid Brezhnev, explicou: “Quando forças hostis ao socialismo tentam direcionar um país socialista ao capitalismo, isso se torna um problema não só para o país como também um problema comum a todos os países socialistas”.

O argumentou foi utilizado por partidos de esquerda da época em todo o mundo. Fidel Castro, de Cuba, escreveu: “Sem sombra de dúvida, o regime da Tchecoslováquia estava se inclinando perigosamente na direção de uma mudança substancial de sistema, na direção do capitalismo e do imperialismo”.

Dubcek foi substituído no comando do país por Gustav Husak, que liderou um processo chamado em Moscou de "normalização". A Tchecoslováquia só alcançaria a liberdade depois de uma nova série de protestos pacíficos, a Revolução de Veludo, no segundo semestre de 1989. Dubcek, que havia sido expulso do Partido Comunista e encostado como um guarda florestal, participou dos protestos de 20 anos depois. Mas, curiosamente, dias antes de a Tchecoslováquia finalmente romper com a União Soviética, no início de 1990, ele ainda discursou para as massas defendendo um socialismo mais humano.

Inspiração para Gorbachev

De fato, diferentemente do que havia acontecido em outras revoltas contra a União Soviética, na Tchecoslováquia as lideranças que haviam chegado ao poder em 1967 não queriam romper em definitivo com Moscou. Elas pediam apenas a abertura de algumas práticas, especialmente o fim da censura e a liberdade para viajar.

Afinal, a Tchecoslováquia vinha de três décadas de ocupação estrangeira. Primeiro país invadido pela Alemanha nazista no início da Segunda Guerra Mundial, ela foi um dos últimos palcos de guerra em toda a Europa durante o conflito, ocupado logo na sequência por tropas russas, que forçaram a adesão ao Pacto de Varsóvia. As reformas de Dubcek tinham por objetivo garantir que as pessoas pudessem voltar a respirar.

“Foi um momento decisivo para o país, porque a esperança era enorme. Mas, depois de um pulso de energia criativa e de liberdade, o país foi esmagado e a espinha da nação foi partida”, relembrou, em entrevista ao jornal "The New York Times", o analista político Jiri Pehe, que tinha 13 anos à época. “Ainda lembro das pessoas indo até os soldados nos tanques e dizendo: ‘Esse é um erro terrível. O que vocês estão fazendo aqui? Por que vieram?’”.

Pehe reforçou: “Como todos os meus colegas de escola, eu acreditava que o sistema podia ter problemas, mas era o melhor. Depois de 1968, tudo isso acabou. Percebemos que era tudo mentira”.

Alexander Dubcek não alcançou seu objetivo, mas inspirou um jovem político russo, que tinha 37 anos em 1968: como líder soviético nos anos 1980, Mikhail Gorbachev conduziria os processos de reconstrução e transparência, “perestroika” e “glasnost”, inspirado no exemplo tchecoslovaco.

“A desesperança foi uma reação comum à invasão liderada pelos soviéticos em 1968. Mas sem a Primavera de Praga, o milagre de 1989 talvez não tivesse ocorrido. Como Hungria e Tchecoslováquia demonstraram, o segredo da liberdade da Europa Oriental era a limitação militar da União Soviética”, lembra Doug Bandow, membro do Cato Institute, em artigo publicado pela Gazeta do Povo.

“E foi Gorbachev, inspirado pelas reformas de Dubcek, quem acabou como Secretário Geral do Partido Comunista Soviético, cargo que lhe permitiu impor o que seus camaradas chamavam sarcasticamente de “Doutrina Sinatra”, isto é, permitir que os europeus orientais fizessem suas coisas “a seu modo” [their way]. A partir deste princípio simples surgiu a força popular que derrubou as peças de dominó comunistas e o Muro – e, por fim, provocaram a dissolução da União Soviética”.

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