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Palavra não cumprida

Lula disse, mas não fez: o balanço de um mandato de promessas furadas

Presidente Lula não cumpriu promessas de campanha
Entre as promessas não cumpridas por Lula estão a criação do Ministério da Segurança Pública e a não candidatura para um quarto mandato na presidência da República (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega a menos de um semestre do fim de seu terceiro mandato com uma série de promessas de campanha não cumpridas. Algumas delas, como a redução nos preços da picanha e da cerveja, parece nunca terem passado de uma bravata. Outras, como a criação do Ministério da Segurança Pública, separado da Justiça, soavam como algo crucial na terceira passagem do petista pelo Planalto.

Ambas as ideias nunca se concretizaram de verdade. Além delas, outras tantas promessas feitas por Lula na campanha eleitoral de 2022 ficaram pelo caminho e têm pouca ou nenhuma chance de se realizarem no pouco tempo que sobra ao petista no poder.

A Gazeta do Povo elaborou uma lista que leva em conta as propostas apresentadas por Lula ao TSE em agosto de 2022, no início da campanha presidencial daquele ano. Também foram utilizados dados de um levantamento feito pelo site G1 e publicado no fim de julho deste ano.

Veja a seguir dez promessas de campanha não cumpridas por Lula.

1 – Acabar com a possibilidade de decretar sigilos de 100 anos

Um dos principais pontos de campanha do petista foi atacar os sigilos de 100 anos aplicados a alguns documentos oficiais por seu antecessor, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Como prova de que sua gestão seria marcada pela transparência, Lula chegou a quebrar sigilos impostos pelo governo anterior. Um dos primeiros sigilos derrubados pelo presidente após a posse foi a lista de pessoas que visitaram a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro no Palácio da Alvorada nos anos de 2021 e 2022.

Outros tantos casos atingidos pela restrição passaram por uma análise da Controladoria-Geral da União (CGU). Alguns dados foram liberados. Outros permaneceram sigilosos por estarem relacionados a investigações em andamento.

Mas, sem surpresas para ninguém, Lula retomou a prática antes reprovada por ele. Em 2023, informações sobre a agenda da primeira-dama, Janja da Silva, foram colocadas sob sigilo de um século. A incoerência do petista gerou críticas da oposição.

A CGU editou uma norma que determinou o fim da presunção automática do sigilo de 100 anos, mas na prática a medida ainda é aplicável a informações de pessoa privada. Três classificações foram estabelecidas para as outras informações: ultrassecreta com 25 anos de sigilo, secreta com 15 anos de sigilo e reservada com sigilo de 5 anos.

2 – Criar um programa robusto e universal de atendimento a mulheres vítimas de violência

Durante a campanha, Lula prometeu expandir a Rede Casa da Mulher Brasileira e reforçar as ações de combate à violência contra as mulheres. Durante o mandato, o petista até inaugurou alguns serviços especializados em centros de referência e unidades especializadas da rede.

Mas, na prática, a promessa de uma rede nacional de atendimento nunca saiu do papel. A rede não foi expandida para todos os estados, e por isso há milhares de municípios em que esse tipo de atendimento de apoio especializado às vítimas segue sem estar sendo prestado.

3 – Universalizar o acesso da população à energia elétrica e serviços de água e esgoto

Enquanto o mundo discute avanços da tecnologia, como o uso de inteligência artificial, no Brasil não é estranho encontrar casas, bairros e até cidades inteiras sem ligação à rede de saneamento básico. Sinalizando preocupação com o problema, Lula assumiu o compromisso de universalizar o acesso à água e energia elétrica no país.

Dados do Instituto Trata Brasil mostram que em 2026 ainda há 33 milhões de brasileiros que vivem sem acesso à água potável. Isso representa 16% da população total do país. Ainda de acordo com o instituto, 90 milhões de pessoas não contam com coleta de esgoto — pouco mais de 43% das residências brasileiras.

Do esgoto que é efetivamente coletado, cerca da metade em volume não sofre nenhum tipo de tratamento antes de voltar à natureza. E para completar o cenário de falta de infraestrutura, um a cada três litros de água tratada no Brasil é desperdiçado antes de chegar às residências.

Sobre a energia elétrica, os números parecem mais próximos das promessas de Lula. Dados do governo federal dão conta de que 99% da população brasileira conta com ligação à rede de energia elétrica. Os cerca de 1% restantes formam a fatia que impede o petista de cravar a universalização como uma promessa cumprida.

4 – Recriar o Ministério da Segurança Pública

Na campanha, Lula prometeu trazer de volta uma pasta que existia durante o governo de Michel Temer (MDB), após o impeachment de Dilma Rousseff (PT): o Ministério da Segurança Pública. A ideia era coordenar políticas nacionais e oferecer apoio direto aos governadores no combate ao crime organizado.

Tudo muito bom no papel. Mas, ainda durante o período de transição, o ex-ministro Flávio Dino, hoje no STF, aconselhou o petista a escantear a ideia, mantendo os temas sob o guarda-chuva do Ministério da Justiça.

Em 2024, o então ministro Ricardo Lewandowski tentou trazer o assunto à baila na forma de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC). O objetivo era tirar o poder dos estados sobre as polícias e concentrá-lo nas mãos do governo federal.

A PEC está parada no Congresso Nacional. Na última atualização disponível, de 22 de junho, a PEC continuava “aguardando despacho” no Plenário. Ou seja: até 31 de julho de 2026, ela não havia sequer avançado para a etapa de comissão no Senado.

Em janeiro de 2026, a ministra da Secretaria das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, disse que o governo poderia avançar com a criação do Ministério da Segurança Pública ainda neste ano. Mas o desmembramento da pasta da Justiça ainda dependeria da aprovação da PEC, o que parece que não vai acontecer até dezembro.

5 – Fim do “orçamento secreto” no Congresso Nacional

Outra promessa não cumprida por Lula foi o fim do “orçamento secreto” no Congresso Nacional. Da forma como foi criado, o modelo de destinação secreta de verbas por parlamentares foi proibido em 2022 pelo STF. Na prática, ainda há bilhões de reais que são indicados sem que se saiba exatamente quem são os “pais” dos repasses.

Depois do freio imposto pelo STF, o Congresso rapidamente se adaptou à nova realidade, adotando novas práticas parecidas com as proibidas na Justiça. A distribuição de dinheiro público com pouca transparência sobre quem pediu e para onde foi ainda é prática corrente entre os parlamentares.

Tanto é assim que um relatório divulgado pela Transparência Brasil em meados de julho apontava que lideranças de sete partidos da Câmara dos Deputados assumiram a autoria de R$ 1,3 bilhão em emendas de comissão em 2025, ocultando quais parlamentares realmente decidiram o destino dos recursos. O montante corresponde a 16% de todo o dinheiro distribuído por meio dessas emendas no período.

A Câmara dos Deputados informou que há uma iniciativa em andamento para aprimorar a transparência das emendas, com integração dos dados ao sistema do Congresso Nacional e maior conexão com os sistemas do Poder Executivo.

6 – Revisão da reforma trabalhista

Durante a campanha em 2022, Lula prometeu promover uma ampla revisão da legislação trabalhista, incluindo a revogação de pontos centrais da reforma de 2017, considerada pelo PT como “regressiva”, além da ampliação da proteção social. A proposta respondia a uma antiga reivindicação de sindicatos e movimentos alinhados à esquerda, que defendem uma presença mais ativa do Estado nas relações de trabalho e a retomada de um modelo de regulação mais rígido para o mercado de trabalho.

Na prática, entretanto, o governo não encaminhou ao Congresso Nacional nenhuma proposta estruturada para rever a legislação trabalhista. Com o avanço do mandato, o tema perdeu prioridade na agenda econômica, em meio a avaliações de que uma eventual reversão da reforma de 2017 poderia ampliar a insegurança jurídica, desestimular investimentos e reacender atritos com o setor produtivo. Esses riscos são frequentemente citados por economistas e parlamentares da oposição como possíveis efeitos de mudanças mais profundas nas regras trabalhistas.

Ao ser cobrado sobre a promessa de campanha, o Palácio do Planalto não apresentou detalhes sobre eventuais iniciativas legislativas e preferiu destacar resultados recentes do mercado de trabalho. Em nota, o governo ressaltou a criação de 4,9 milhões de empregos formais desde 2023 e a redução da taxa de desemprego ao menor patamar em 13 anos. Não esclareceu, porém, se ainda pretende levar adiante a revisão prometida ou se a proposta foi retirada definitivamente do radar.

7 – Regulamentar os direitos para os trabalhadores de aplicativos

Regulamentar o trabalho por aplicativo foi outro dos pontos cruciais da campanha de Lula em 2022. A promessa do petista era garantir dignidade, direitos básicos e proteção social a milhões de brasileiros. Foram criadas estruturas específicas para este fim, como o Grupo de Trabalho Técnico de Entregadores por Aplicativo, mas o processo terminou sem que se chegasse a um consenso.

Empresas e trabalhadores criticaram as propostas apresentadas. Do lado de quem precisa do serviço, a alegação foi de inviabilidade econômica. Do lado de quem presta o serviço, houve reclamações de que as garantias eram insuficientes. Outros ainda criticaram a intervenção do governo e defenderam a autonomia da atividade.

8 – Zerar as filas da Saúde criadas durante a pandemia de Covid-19

Consultas, exames de rotina e cirurgias eletivas não realizadas no Sistema Único de Saúde (SUS) durante a pandemia de Covid-19 se acumularam ao longo dos anos formando uma fila que cresceu exponencialmente. Para atacar esse problema, o então candidato Lula fez uma de suas promessas mais ambiciosas: zerar a espera por esses atendimentos durante seu terceiro mandato.

Mutirões foram anunciados, programas de atendimento foram lançados, mas ainda há quem espera por um procedimento que já deveria ter sido realizado há anos no SUS.

Uma das propostas colocadas em prática pelo governo federal foi o programa Agora Tem Especialistas. Somente em 2025, foram quase 15 milhões de cirurgias eletivas e mais de um bilhão de consultas e exames realizados, nos números do Ministério da Saúde. Foi suficiente para zerar a fila? Não.

E quando essa fila será efetivamente terminada? Difícil saber. Segundo um levantamento feito pelo site G1, o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde afirmou ser impossível saber o tamanho real da fila de espera por procedimentos no SUS.

9 – Baixar o preço da picanha e da cerveja

“O povo tem que voltar a comer um churrasquinho, a comer uma picanha e tomar uma cervejinha”, disse o petista durante a campanha, em uma sabatina promovida pelo Jornal Nacional, da Rede Globo.

Desde que foi feita, a promessa-símbolo da campanha vem sendo relembrada pela oposição. Lula parece ter sentido o peso da afirmação e disse, em abril de 2024, não ter se esquecido do compromisso. Durante um café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto, o presidente afirmou que não havia esquecido da promessa. “Você pensa que eu esqueci da cervejinha e da picanha? Eu não esqueci e falo até hoje. O preço da carne já baixou, mas tem que baixar muito mais”, disse o presidente.

A queda na carne à qual Lula se referiu ocorreu no primeiro ano de seu terceiro mandato, 10,7% segundo dados oficiais. Porém, nos anos seguintes, tanto o alimento quanto a bebida sofreram altas consecutivas. Em 2025, a carne acumulou alta de 2,82%, enquanto a cerveja ficou 5,97% mais cara.

No ano anterior, os reajustes haviam sido ainda mais expressivos para a carne: o preço da picanha subiu 8,74%, ante uma variação de 4,5% da cerveja. Os números aparecem no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação no país, divulgado pelo IBGE no início de janeiro de 2026.

A insatisfação com a promessa não cumprida apareceu em uma pesquisa feita pelo Instituto Paraná Pesquisas em abril de 2025. Segundo o levantamento, 68,4% dos brasileiros acreditavam que continuariam encontrando dificuldades para comprar picanha e cerveja até o fim do governo Lula. O estudo mostrou ainda que 73,7% dos entrevistados percebiam aumento nos preços dos supermercados desde o retorno do petista à Presidência.

O instituto ouviu 2020 eleitores dos 26 estados e do Distrito Federal, em 160 municípios, entre 16 a 19 de abril de 2025. O grau de confiança foi de 95% para uma margem estimada de erro de 2,2 pontos percentuais nos resultados gerais.

10 – Não se candidatar para um quarto mandato

Uma das promessas quebradas de Lula mais indefensáveis é a participação dele, mais uma vez, como candidato à reeleição na presidência da República. A disputa por um quarto mandato foi claramente rechaçada pelo petista durante a campanha de 2022, e também claramente quebrada com a confirmação de sua candidatura pelo Partido dos Trabalhadores.

Candidato contra Jair Bolsonaro, Lula afirmou que, se eleito, faria “um mandato só”. O compromisso foi registrado e amplamente divulgado nas redes sociais do petista. “Eu, se eleito, serei um presidente de um mandato só. Os líderes se fazem trabalhando, no seu compromisso com a população”, escreveu no X.

A ideia de tentar permanecer por mais quatro anos no Planalto ganhou força em 2025. Em outubro daquele ano, durante uma entrevista coletiva concedida durante uma viagem à Indonésia, a proposta foi tornada pública. “Eu vou disputar um quarto mandato no Brasil”, revelou, sem pudores quanto à quebra da promessa feita anos antes.

Ao anunciar que não disputaria a reeleição, Lula buscou construir uma imagem mais palatável para o eleitorado, facilitando o voto de quem poderia ter resistência a um projeto de oito anos. Sem surpresas, a mudança de posição foi vista por adversários como sinal de incoerência e apego ao poder.

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