Talvez os filmes da trilogia "O Poderoso Chefão", de Francis Ford Coppola, sejam realmente "nosso" épico, a expressão máxima do declínio espiritual dos Estados Unidos, por meio de sua metáfora da família do crime - a obsessão em aumentar a fortuna e alcançar o poder. Mais do que uma saga de mafiosos, a história da família Corleone reduziu o sonho nacional ao tribalismo, depois descreveu sua eventual traição e autodestruição. A visão cínica da história americana está enraizada na história dos imigrantes europeus - dos Borgia aos paralelos modernos com os Rockefeller, Kennedy, Bush, Clinton, Biden, etc. "Política e crime são a mesma coisa", diz Michael Corleone (Al Pacino) em "O Poderoso Chefão - Parte III", desta vez mais baixo na mixagem de som, como que para torná-lo sutil, mas sempre mais do que os fãs dessa série violenta e romântica de máfiosos por excelência podem esperar.
Parte do grande problema da popularidade de "O Poderoso Chefão" é que a trilogia nos acostumou à corrupção. Agora, a fala "A traição está em toda parte" (dita pelo arqui-inimigo de Michael) ganha uma relevância contemporânea inesperada.
A reestruturação de "O Poderoso Chefão - Parte III" em seu 30º aniversário (renomeado "O Poderoso Chefão Coda: A Morte de Michael Corleone") deveria ter sido oportuna o suficiente para resgatar a cultura cinematográfica na era da Covid-19, mas dado o recente emburrecimento dos filmes baseados em quadrinhos e o esgotamento narrativo causado pelas maratonas de sérias, chega tarde demais. A rica complexidade da visão de Coppola nunca foi totalmente apreciada - nem mesmo pelo próprio Coppola, que a alterou para que ela se adequasse à negatividade contemporânea. A nova sequência de abertura mostra Michael ouvindo: "No mundo de hoje, parece que o poder de absolver dívidas é maior do que o poder do perdão." Isso muda a ênfase da abertura original, que recuperou o poderoso mau humor dos dois primeiros filmes, e agora torna a desesperança de Michael óbvia o suficiente para a TV.
A cena original de abertura, na Catedral de Saint Patrick, em Nova York, estabeleceu de maneira crucial a hipocrisia e a culpa de Michael. Ele lembrou das duas coisas mais chocantes que já vimos nos filmes: a construção hipócrita do batismo/massacre de Michael ("Você renuncia a Satanás e todas as suas obras?") e o fratricídio de Fredo. A morte de Fredo ressoa, pulsando ao longo da narrativa da Parte III. Michael não pode escapar da culpa ou da corrupção; ela contamina até o Vaticano, onde Michael tenta um acordo financeiro para ajudar a legitimar a posição de sua família.
Na Parte III, Coppola finalmente reconheceu essa hipocrisia (e sua própria cumplicidade pessoal) por meio de várias cenas que essencialmente definiram a confissão de Michael. Esse cálculo moral iguala a saga à tragédia grega. A tragédia grega é dramática e espiritualmente necessária - apesar dos esforços de nossa cultura secular para rejeitá-lo. (É por isso que a Parte III raramente é exibida, é por isso que a imprensa preferia "Sopranos", da HBO).
A Parte III é a declaração moral que o mundo esperou 16 anos para assistir. Agora, "O Irlandês" recebe elogios falsos apenas para mostrar que nenhuma lição foi aprendida. Os críticos atribuíram o tema de Coppola a Scorsese. Mas Coppola reconhece o fenômeno de "O Poderoso Chefão" como ópera e o retransmite para nós como ópera. A magnífica meia hora final intercala uma performance de Cavalleria Rusticana com outra montagem horrível da inescapável traição de Michael. A sofisticação cinematográfica de Coppola e as imagens do diretor de fotografia Gordon Willis atingem seu apogeu aqui; é uma obra-prima da narrativa de abismo pós-moderna.
Enfrentamos o legado artístico da corrupção étnica; é isso o que o filho de Michael, Anthony, canta em uma música siciliana (o tema de "O Poderoso Chefão", de Nino Rota) com a letra "Minha alma chora de dor. Não tem paz, que noite terrível!”. Isso choca Michael, cuja confissão real é um dos grandes momentos da história do cinema. Seu sacerdote explica: “A mente sofre, o corpo clama”.
Marlon Brando é famoso por explicar o primeiro filme da trilogia "O Poderoso Chefão" como “uma crítica ao capitalismo corporativo”, mas Coppola vai além. Na Parte III, Coppola lida com o catolicismo, o que Michael chama de “a verdadeira fé” e que os dois primeiros filmes haviam evitado. Essa responsabilidade pessoal é inevitável na escolha da filha do diretor, Sofia, como a filha de Michael, Mary, uma figura de sacrifício e expiação, assim como os totens da estatuária religiosa caída e o cadáver do arcebispo em queda livre. Para os espectadores da geração Y, a fachada de Mary para os negócios de Michael também pode denotar a descendência tribal de Chelsea Clinton e Hunter Biden. Embora reestruturado como "O Poderoso Chefão - Coda", a Parte III nos leva de volta ao cinema como arte e política a fim de que o cinema tenha importância novamente.
Armond White é crítico cultural e escreve sobre cinema para a National Review.
© 2020 National Review. Publicado com permissão. Original em inglês
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