A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, estreou como apresentadora de TV nesta semana. Por TV, entenda-se o canal da TV BrasilGov no YouTube.
Janja pode dizer, com razão, que sua participação não fere a lei porque a TV Brasil e a TVBrasil Gov não são a mesma coisa, embora pareça.
A TV Brasil é uma emissora pública com um perfil mais amplo e inspirada na BBC britânica. Pelo menos no papel, ela desfruta um certo grau de independência, mantém uma programação variada e não se limita a reproduzir o que dizem as autoridades. Já a TV BrasilGov é uma versão repaginada da antiga NBR, o canal de TV cuja única missão era divulgar as ações do governo federal.
Em 2019, a gestão de Jair Bolsonaro extinguiu o canal de televisão da NBR, que passou a simplesmente reproduzir a programação da TV Brasil. Mas a equipe da antiga unidade, agora chamada de TV BrasilGov, continuou produzindo conteúdo para a internet. O canal do YouTube, por exemplo, tem 1,4 milhão de inscritos, embora a maior parte dos vídeos não chegue a 1.000 visualizações. Foi lá que Janja fez sua estreia como apresentadora (e somou cerca de 2.500 visualizações nos três primeiros dias).
O programa da primeira-dama foi batizado de "Papo de Respeito" e, pelo menos na edição de estreia, teve como tema a violência contra a mulher — que esquerdistas insistem em chamar de "pessoa que menstrua".
Janja começou com o pé esquerdo. Quando a transmissão teve início, era possível ouvir a voz de uma pessoa (a diretora, presume-se) dizendo "Vamos mudar aqui um pouquinho". Sem saber que já está ao vivo, Janja pergunta: "Não deu certo?". Em seguida, ela parece ter recebido o OK para dar início ao programa e começa a ler a sua fala de abertura. Mas não se pode ouvir nada por mais de 30 segundos. Simplesmente não há áudio. Quando o som volta, a primeira-dama já havia apresentado suas convidadas: a ministra da Mulher, Cida Gonçalves, e a influenciadora digital Lua Xavier.
"Sejam bem-vindas ao Papo de Respeito", diz Janja, que anuncia a própria falta de experiência:
"A Lua vai me ajudar aqui bastante porque eu sou muito nova nessa coisa de live, de blogueirinha". A primeira-dama tenta exibir algum carisma. De início gagueja e abusa dos anacolutos. Depois, parece mais à vontade, embora raramente olhe para a câmera.
Nota 5 em desenvoltura. Nota 4 no conteúdo.
Dados distorcidos
Faz sentido que o governo queira divulgar os canais de denúncia de violência contra a mulher e orientar as vítimas a procurar apoio. A importância do assunto é inegável. Mas, ao longo do debate, Janja e suas convidadas distorceram informações e recorreram a chavões ideológicos.
Janja começa citando um “aumento muito grande” no número de feminicídios no Brasil em anos recentes. Mas, segundo as estatísticas citadas por ela, entre 2018 e 2021, a elevação média foi de aproximadamente 3% ao ano — desconsiderando o crescimento populacional. Sem dados para fundamentar sua fala, ela também vê uma relação direta entre a elevação no número de armas legais e o crescimento no número de feminicídios e a elevação no porte de arma no Brasil. "São 2 milhões de portes de arma autorizados", ela explica. Mas Janja parece confundir posse (o direito de adquirir uma arma) com o porte (a autorização para circular com a arma fora de casa), que é bem mais raro. Para obter o porte, é preciso fazer um requerimento à Polícia Federal demonstrando “a sua efetiva necessidade por exercício de atividade profissional de risco ou de ameaça à sua integridade física.”
Além de errar nos números, Janja errou na análise da correlação. Os dados gerais de homicídios mostram um que, desde que o PT deixou o governo, as mortes violentas diminuíram significativamente, embora a quantidade de armas legais tenha aumentado. Além disso, a aplicação da lei do feminicídio é tida como ambígua, já que a legislação é recente (entrou em vigor em 2015) e tem uma aplicação relativamente nebulosa (O que é “ menosprezo ou discriminação à condição de mulher”?). Na verdade, o número de mulheres assassinadas (não apenas os casos de feminicídio) teve uma queda significativa entre 2017 e 2019, e se manteve praticamente estável desde então, em torno das 3.900 mortes anuais.
Sequência de gafes
Em outro momento, o debate tem uma pausa para que as convidadas possam assistir ao vídeo de uma mulher entrevistada fora do estúdio. Quando a transmissão retorna, Janja não percebe: está acompanhada por uma pessoa não-identificada — talvez uma produtora — que lhe fala ao pé do ouvido e lhe mostra algo em um pedaço de papel. É o comentário de uma internauta, que ela lerá em seguida. Distraída, Janja não retoma a palavra. Lua é quem se encarrega de não deixar a conversa morrer.
Depois, Janja volta ao eixo. O debate tem tudo o que se espera das personagens. Elas falam em "maiorias minorizadas" e “situação de vulnerabilidade". Janja sai-se com um “A nível de política pública.” Lua acha relevante dizer que é “sacerdotisa de umbanda.” Janja lança outra generalização difícil de comprovar: "Hoje infelizmente, os homens não estão se contentando em matar as mulheres. Eles estão matando os filhos também."
Mais à vontade, ela aproveita a oportunidade para cancelar Mazzaropi.
A primeira-dama conta que estava em casa, ("com o meu marido"), assistindo a um filme antigo na TV Brasil. Pela descrição, ela se referia a dos filmes de Amácio Mazzaropi, que são rotineiramente exibidos pela emissora. Janja diz que não aguentou quando um personagem destratou a mulher ao dizer algo como: "Fica quieta, você é burra, você só serve para lavar a louça". Naquele dia, e talvez para sempre, o presidente Lula perdeu o direito de rir das piadas do protagonista de Jeca Tatu. "Eu virei para o meu marido, que no caso é o presidente Lula, né?, e eu falei para ele: vamos trocar de canal?", conta Janja.
Nota 3 em sensibilidade artística.
Ministra fala palavrão
Nota igualmente baixa merece o desempenho da ministra Cida, que aniquilou meia-dúzia de plurais (como em "essas questões pública") e causou confusão na apresentadora quando afirmou que “A violência contra as mulheres e contra as crianças são autorizadas." Janja se assustou: “Como assim, Cida?”. A ministra explicou: "É porque assim, Janja. O fato de eu como cidadão, vizinho, amigo não fazer nada, eu autorizo.” OK.
Ainda mais constrangedor foi o momento em que a ministra resolveu lançar um palavrão. Ao comentar que as vítimas da violência doméstica são estigmatizadas, ela afirmou que “Aí vão dizer que ela é p...". Silêncio por alguns segundos. Janja diz: "É difícil, gente. É pesado".
Talvez seja uma boa deixa para encerrar o bate-papo, depois de mais de uma hora de conversa. “Um beijo grande, gente, boa noite”, diz a primeira-dama. Palmas tímidas da plateia que até então não se sabia que existia.
Mas antes de ir embora, Janja tem um recado: “Esse Papo de Respeito, ele vai voltar com outros temas. A gente vai ter sempre esse diálogo com ministros, com pessoas que discutem isso na sociedade”.
É possível que, além do YouTube, o programa de Janja também passe a ser exibido na TV: o presidente Lula prometeu ressuscitar o canal aberto da NBR. Seria lugar a mais para a primeira-dama e seu talk show não terem audiência.
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