Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
Visitantes no memorial e museu de Auschwitz-Birkenau em Oswiecim, Polônia | MACIEK NABRDALIK/
NYT
Visitantes no memorial e museu de Auschwitz-Birkenau em Oswiecim, Polônia| Foto: MACIEK NABRDALIK/ NYT

O jovem prefeito desta pequena cidade no leste da Polônia tem muito orgulho de seu novo caminhão de bombeiros, que brilha ao lado de um da era soviética. Nas proximidades, o diretor da escola de ensino fundamental mostra as salas de aula novas e o ginásio completo, até com um placar eletrônico.  

Tudo isso – e estradas, painéis solares, sistemas de purificação de água e de esgoto melhorados, além do apoio aos produtores de leite – foi, em grande parte, pago pela União Europeia, que financia quase 60% do investimento público na Polônia.  

Com todas essas vantagens, seria difícil acreditar que o país esteja em um tipo de guerra contra a União Europeia, mas, nos últimos meses, o governo nacionalista mordeu a mão que o alimenta mais de uma vez.  

A União Europeia acusa a Polônia de representar um risco grave aos valores democráticos, responsabilizando-a por minar o Estado de Direito ao encher os tribunais de políticos leais ao governo. Os líderes ocidentais também criticam o partido de situação polonês por excluir praticamente todas as vozes críticas da mídia estatal e restringir a liberdade de expressão com a lei mais recente, que criminaliza qualquer sugestão de que a nação tenha alguma responsabilidade pelo Holocausto.  

O cabo de guerra se intensificou agora que o Leste Europeu se tornou a incubadora de um novo modelo de "democracia não liberal", iniciado pela Hungria. Mas é a Polônia, tão grande, tão rica, tão militarmente poderosa e tão estrategicamente importante em termos geográficos que vai definir se o esforço da UE de integrar o antigo bloco soviético será bem-sucedido ou não.  

Muitos acreditam que há muito mais a perder do que com o Brexit, a saída do Reino Unido. A União Europeia precisará fazer uma dolorosa autoavaliação para saber se, mesmo com seus esforços disciplinares, permitiu a onda antidemocrática e o que é preciso fazer em relação a isso.  

Conflito

O conflito crescente entre os Estados ocidentais do bloco e os membros mais recentes da Europa Central e do Leste é a principal ameaça para a coesão e a sobrevivência da União Europeia. Não é um confronto simples, pois envolve identidade, história, valores, religião e interpretações de democracia e "solidariedade" de várias nações.  

"Queremos a união, mas que tipo de união?", disse Michal Baranowski, diretor do escritório da Varsóvia do German Marshall Fund, salientando que o apoio da Polônia à adesão à UE está em 80 por cento, mas pode ser tênue.  

O governo polonês, que é dominado pelo Partido Lei e Justiça, dominado dos bastidores por seu chefe, Jaroslaw Kaczynski, parece ter sua própria resposta para a pergunta. 

Leia mais

Ele aceita de bom grado o apoio da UE, mas teme que a participação da Polônia possa diminuir se as nações-membros usarem o orçamento para pressioná-la a entrar na linha. O país fica com quase 9% do orçamento da UE entre 2014 e 2020, cerca de 85 bilhões de euros (US$105 bilhões).  

Mas as ameaças vagas de corte de benesses provavelmente não mudarão o governo de Kaczynski. Ele respondeu à crítica europeia acusando Bruxelas e a Alemanha – até recentemente o maior aliado da Polônia na Europa – de ditar termos para novos membros e de tentar impor uma visão elitista e secular. E também se posicionou à frente das nações do centro e do leste, opondo-se às quotas de migração, dizendo que age em defesa dos valores cristãos.  

‘Orgulho polonês’

O partido do governo faz campanha do orgulho nacional polonês, pede o fim da posição de submissão e passa a imagem de uma Polônia predominantemente católica, que tradicionalmente se vê como uma vítima da história, como o "Cristo das Nações".  

Krzysztof Mieczkowski e sua esposa, Malgorzata, criadores de laticínios, perto de Sniadowo, PolôniaMACIEK NABRDALIK/ NYT

Após ser espremida entre impérios e ocupada pelo fascismo e pelo comunismo, a Polônia está pronta para assumir seu lugar como um igual, afirma Kaczynski, longe do status de país secundário ou servil.  

"A história é parte da nossa identidade, coisa que as pessoas em outras partes do mundo não entendem. O que é ser polonês? Somos a nação que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e fomos vítimas de ambos os sistemas totalitários", disse Slawomir Debski, diretor do Instituto Polonês de Relações Internacionais.  

Política

Essa combinação de nacionalismo, conservadorismo religioso, antielitismo e ataques contra aqueles que supostamente pretendem ditar valores e cotas de migrantes à Polônia fez do Lei e Justiça o maior partido em um país dividido, com uma oposição política desorganizada.  

O partido foi de quase 38 por cento dos votos nas eleições de 2015, para cerca de 47 por cento nas pesquisas de opinião recentes. Grande parte desse sucesso é atribuído a seu investimento nas zonas rurais mais pobres, mas grande parte dele é composto pela verba e do apoio da UE e do acesso a seus mercados e empregos.  

Porém, mais do que dinheiro, o Lei e Justiça prospera com políticas culturais e de identidade; contrasta uma Polônia católica e conservadora e sua valorização da família com um bloco ocidental ateu, afastado da Igreja e leniente em termos de gênero e acusa governos anteriores, a oposição e as elites urbanas de mendigar a aprovação e a aceitação europeia em detrimento dos interesses poloneses.  

A recente questão da nova lei sobre a história e o Holocausto é outro exemplo do governo ofendendo as sensibilidades da Europa Ocidental na questão da liberdade de expressão visando ganhos internos. Aqui, isso é visto como um esforço para proteger a Polônia de todos os estrangeiros revoltados e raivosos, incluindo judeus e europeus ocidentais. Afirmou-se que a oposição se absteve do voto, em vez de votar contra.  

Visitantes no memorial e museu de Auschwitz-Birkenau em Oswiecim, na Polônia, 4 de fevereiro de 2018MACIEK NABRDALIK/ NYT

Mesmo apoiando a União Europeia, o Lei e Justiça tem uma visão semelhante à dos britânicos, isto é, a de uma união de nações negociando livremente uma com a outra, mas sem interferir na política interna ou na cultura nacional.  

Ao mesmo tempo, a Polônia vê surgir uma nova visão para a Europa, com as propostas do presidente da França, Emmanuel Macron, de reviver a dominação franco-alemã do bloco, que deixaria o país mais marginalizado.  

Do ponto de vista polonês, a possibilidade de restrição dos direitos dos trabalhadores estrangeiros na França é protecionista e planejada tendo em vista os novos Estados-membros, mas embrulhado em uma linguagem pró-europeia. A Polônia rejeita uma Europa "multinível" ou "com duas velocidades", com um núcleo interno dos países da zona do euro e um exterior, de membros menores, mas sente que Bruxelas segue esse caminho independentemente de qualquer coisa.  

Em geral, a prioridade de Kaczynski é interna e, para controlar poder judiciário, está pronto para fazer o que for preciso, disse Piotr Buras, chefe do escritório de Varsóvia do Conselho Europeu de Relações Exteriores. "Ele, aos poucos, foi usando meios basicamente democráticos para acumular tanto poder que a posição do partido acaba sendo inatacável."  

O Lei e Justiça argumenta que as mudanças são necessárias para acabar com uma velha elite comunista, mas estão "transformando a independência do poder judiciário em algo completamente irrelevante", disse em dezembro Frans Timmermans, vice-presidente da Comissão Europeia.  

"A constitucionalidade da legislação já não pode ser garantida porque o poder judiciário do país está agora sob o controle político da maioria governante", disse ele.  

A União Europeia alertou oficialmente a Polônia, dizendo que Varsóvia arrisca uma grave violação de seu compromisso com os valores compartilhados de democracia liberal e Estado de Direito, princípios que todos os Estados-membros juraram defender.  

Há quem ache que Varsóvia e Bruxelas irão se acertar de alguma forma. Mas essa é uma previsão difícil. Buras vê em Kaczynski um pessimismo sobre o projeto europeu.  

"Ele acha que a UE está fadada ao fracasso, e então precisamos salvar a nós mesmos. Ele acredita que não há chance de sobrevivência."  

The New York Times News Service/Syndicate – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]