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Alguns países, já prevendo o prejuízo, começam a fazer as contas e tentam recuperar o dinheiro em tribunais internacionais.
Alguns países, já prevendo o prejuízo, começam a fazer as contas e tentam recuperar o dinheiro em tribunais internacionais.| Foto: Pixabay

A crise financeira decorrente da pandemia de coronavírus já é uma realidade para muitos setores da economia de todo o mundo. A necessidade de paralisar ou diminuir o movimento de pessoas com o intuito de achatar a curva de contágio tem gerado a previsão de uma recessão econômica para muitos países, o Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou que a crise atual é bem pior do que a crise de 2008 e fará tanto economias avançadas quanto em desenvolvimento entrarem em recessão. Os economistas do FMI acreditam que atividade econômica global caia 3%.

Há fortes indícios de que a China, onde o foco da nova doença começou, ocultou informações no início do surto que poderiam ter sido cruciais para evitar que a doença se propagasse pelo mundo inteiro. Alguns países, já prevendo o enorme prejuízo econômico que vão sofrer, começam a fazer as contas e tentam recuperar em tribunais internacionais ao menos parte do dinheiro que perderam, segundo eles, por culpa da China.

Nem o governo, nem nenhuma entidade privada se manifestaram ainda a esse respeito aqui no Brasil. Mas o prejuízo econômico já começa a se fazer sentir no nosso país. A expectativa de crescimento do produto interno bruto (PIB) para o ano de 2020 era de 2%. Com a pandemia, os cálculos apontam para um decréscimo de aproximadamente 3%, ou seja, no total, uma queda de 5%. Para um país que mal começava a se recuperar de uma forte recessão econômica, essa é uma péssima notícia. Em 2019, apesar do crescimento de pouco mais de 1%, o PIB totalizou R$ 7,3 trilhões. Isto é, a queda econômica de 2020 poderia representar cerca de R$ 219 bilhões.

O Brasil também foi, portanto, gravemente atingido e talvez possa cobrar algo de Pequim caso haja previsão legal para isso. Porém, quais foram os setores prejudicados e que deveriam receber uma indenização?

Restaurantes

Com grande parte da população adotando o trabalho remoto em casa e diversos outros setores “não essenciais” paralisados, um dos setores que mais sofreram com a quarentena foi o de bares e restaurantes. Muitos começaram a preparar suas refeições em casa ou a pedir entrega em domicílio.

Não foi feito ainda um cálculo preciso do tamanho do prejuízo dos restaurantes e bares em março e abril, mas por amostragem é possível ter uma boa estimativa. Segundo o diretor da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) no Paraná, Luciano Bartolomeu, em Curitiba, 70% dos estabelecimentos fecharam os salões de entendimento. Destes, 30% começaram a fazer entrega em domicílio; o restante simplesmente suspendeu as atividades. Dos 30% que permaneceram abertos, a maioria está na periferia, que continuaram a atender por motivo de sobrevivência, tendo um lucro diário de aproximadamente 50 reais.

“O setor de restaurantes e bares foi o mais atingido”, afirmou ele. “Não só porque o movimento ficou em cerca de 10-15% do habitual, mas porque há um grande problema em relação ao capital de giro. Os restaurantes e bares têm um estoque expressivo de produtos perecíveis e de giro rápido”, explica. “Com a queda brusca dos clientes, os restaurantes perderam quase todo estoque, que precisará ser recomprado. É diferente de uma loja de roupas, por exemplo, que não precisa substituir seus produtos por ficar um ou dois meses fechada. Em decorrência disso, estimamos que, mesmo com a retomada gradual das atividades, cerca de 20-25% dos bares e restaurantes encerrarão suas atividades por dificuldades com capital de giro”, lamenta ele.

Ao ser perguntado sobre as possibilidades de recuperação do setor, Bartolomeu afirma que espera que no final de maio os restaurantes estejam atendendo em cerca 60-70% de seu movimento habitual e que espera que até final de junho a situação esteja normalizada, embora condicionada ao acompanhamento da curva de contágio. O diretor da Abrasel frisa que o afastamento entre as mesas é importante por questões sanitárias e que isso vai impactar na capacidade de atendimento e conseqüentemente no faturamento.

Bartolomeu também lembra que o setor de bares e restaurantes foi responsável por cerca de 3% do total do PIB no ano de 2019. “É uma atividade econômica que emprega aproximadamente 6 milhões de pessoas no Brasil inteiro. Só no Paraná são 300 mil pessoas, sendo 72 mil na capital do estado. Boa parte delas já perderam ou devem perder o emprego”, conclui ele.

Viagens e turismo

Outro setor bastante prejudicado com a pandemia é o de turismo. Só o temor do contágio e paralização parcial e temporária de setores da economia já seriam suficientes para uma queda na movimentação expressiva, mas muitos países fecharam fronteiras ou impuseram 14 dias de quarentena para quem chegasse ao país. Isso praticamente suspendeu a atividade turística no mundo todo.

Segundo a assessoria de imprensa do Ministério do Turismo, os dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) apontam que 75 milhões de empregos relacionados ao Turismo estão em risco atualmente por conta da pandemia. Só no Brasil, são 7 milhões de pessoas que atuam neste setor.

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) também divulgou, recentemente, um estudo que aponta que o setor perdeu cerca de R$ 14 bilhões e pode contabilizar a perda de 295 mil postos de trabalho formais apenas no mês de março.

Isso porque os hotéis estão atingindo os seus menores índices de ocupação e as agências de viagens têm recebido mais de 50% dos cancelamentos de pacotes turísticos, segundo o Ministério do Turismo.

A queda do setor turístico também reflete na movimentação dos aeroportos. Ainda segundo dados MinTur, em relação aos voos, considerando os 16 maiores aeroportos do País, responsáveis por mais de 80% do fluxo de passageiros, as taxas de cancelamento de voos nacionais e internacionais saltaram de uma média diária de 4% nos primeiros dias de março para 88% até o final deste mês. Já o número de voos confirmados diariamente recuou 91% em relação à última semana de fevereiro.

Com esse quadro, o PIB do setor de turismo, que em 2019 atingiu R$ 270,8 bilhões, deve cair para R$ 165,5 bilhões em 2020. Segundo o IBGE, o setor de turismo responde por 3,71% do PIB do país, e deve sofrer uma redução de 38,9% no faturamento, conforme o estudo “Impacto Econômico da covid-19 e Propostas para o Turismo Brasileiro”, elaborado pela FGV Projetos.

Educação

O setor de educação também tem sofrido com a quarentena. Principalmente as escolas de ensino infantil, que incluem crianças que estão fora da idade obrigatória para entrada escolar no Brasil (4 anos), estão começando a sofrer dificuldades para manter os alunos muito pequenos.

Segundo a presidente do Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe/PR), Esther Pereira, há pais que sequer pagaram a mensalidade do mês de abril e isso está forçando as escolas a renegociar os contratos.

Já Ademar Batista Pereira, presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), aponta que ainda não há dados de quanto o setor perdeu, mas ele acredita que o ensino infantil seja o mais prejudicado: “As escolas estão tentando enviar atividades para as famílias fazerem em casa, tentando se reinventar para manter o vínculo e o contato”, disse.

“As escolas estão utilizando as plataformas digitais para poder ensinar os alunos durante a quarentena. Mesmo com as dificuldades que as famílias podem enfrentar, os alunos têm conseguido estudar e as crianças estão aprendendo”, afirma ele.

A expectativa, contudo, é que as aulas sejam retomadas em breve. “À medida que a atividade econômica está sendo retomada, esperamos bom senso dos governantes, pois se os pais precisam sair para trabalhar, as escolas precisam abrir para que possam receber as crianças”, conclui.

Cerca de 20% do total de alunos matriculados na educação básica pertencem à rede privada de ensino. Por ser um mercado muito pulverizado é difícil estimar qual o faturamento anual dessas escolas, mas a consultaria especializada Hoper calcula, apenas com mensalidades, uma arrecadação bruta de R$ 60 bilhões por ano.

Agricultura

Uma exceção em meio à crise econômica é o agronegócio. A venda de alimentos continua tanto no mercado externo como no mercado interno. E a alta do dólar, que nesta segunda-feira (27) está cotado em cerca de R$ 5,70, favorece as exportações.

Segundo Daniele Siqueira, analista de mercado da AgRural, empresa especializada na comercialização de soja e milho, “a demanda por soja está aquecida por causa da China, que é nosso maior comprador (responsável por cerca de 75% da soja em grãos que o Brasil exporta). Como a China já está numa fase, digamos, pós-coronavírus, com a economia voltando a rodar, a nossa soja está indo bem”.

A venda de algodão e de álcool, no entanto, está bastante prejudicada, a primeira porque os preços na Bolsa de Valores de Nova York caíram muito, o segundo por conta da forte queda da demanda. “Com a queda nos preços do petróleo e muita gente em casa, sem gastar combustível, ocorre diminuição na demanda por etanol anidro (aquele que, por lei, é misturado à gasolina aqui no Brasil) e também na demanda por etanol hidratado (aquele que vai direto no tanque e concorre com a gasolina na bomba). Com isso, há um desestímulo à produção de etanol, sobra cana de açúcar e essa cana é transformada em açúcar - cujos preços caem por excesso de oferta.”, afirma Daniele.

Pode haver uma queda pontual de um produto ou outro, principalmente dos alimentos perecíveis em decorrência do fechamento dos restaurantes mas, de acordo com ela, “o agronegócio, como setor, não está sofrendo prejuízos com o coronavírus. No geral o agro segue em boa forma, isso só vai mudar se vier uma recessão econômica muito forte no mundo inteiro”.

O setor representou 21,4% do PIB brasileiro total em 2019, e deve manter um bom desempenho apesar da crise econômica. Mas não só isso, as relações comerciais com a China, principalmente nesse setor, devem dificultar a cobrança de qualquer indenização do Brasil em relação à China. Se levarmos em conta que cerca de 75% de nosso soja é vendido para este país, sem contar carnes e minério de ferro, podemos esperar que as pressões internas contra um eventual pedido de ressarcimento seriam fortes, tanto para o governo quanto para alguma instituição privada.

Mais ainda, se mesmo os EUA sofrem reveses e países desenvolvidos como a Austrália têm de lidar com represálias dos chineses, não é de se desprezar o poder de retaliação de Pequim, se o Brasil quisesse comprar uma briga.

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