Discurso do presidente Jair Bolsonaro em igreja no Rio de Janeiro
O presidente Jair Bolsonaro participa de culto na Igreja Atitude, na zona oeste do Rio de Janeiro (RJ).| Foto: José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo

No texto anterior, baseado na senhora integralista, tracei um perfil onde o militante radical é mais frequente: é de classe média, intelectualizado, tem curso superior cursado em universidade de prestígio e vem de lar católico praticante. Compõe um nicho da classe média que gostaria de se assenhorar de um poder ditatorial sobre o país.

Em outro texto, sobre a origem do xingamento “boçal”, mostrei os valores que regiam o Brasil antigo, isto é, anterior à imigração. São valores medievais, que apreciam os feitos do espírito e desprezam o comércio e o trabalho manual. Têm-nos, em geral, os brasileiros mestiços de índios, de negros e de europeus chegados da época da Renascença, independentemente da cor e da classe social.

Como caso ilustrativo, digo que, apesar do meu sobrenome italiano, cresci num lar antigo. Nele, dizer que tal coisa (sentar à mesa sem camisa) era “coisa de comerciário” significava marcar o seu baixíssimo nível.

Isso obviamente não quer dizer que todos os brasileiros antigos sejam bacharéis. Quer dizer que o trabalhador manual e o comerciante dessa extração cultural não encaram como dignas e importantes as suas ocupações, e fazem-nas por subsistência, sem o orgulhoso espírito empreendedor. Os esforços sérios dessa sociedade antiga foram voltados às produções do espírito, não à prosperidade material. Um reflexo positivo disso é a grande quantidade de gênios literários mulatos e nordestinos que o Brasil produziu. Um reflexo negativo disso é a pobreza dos estados onde a imigração não vingou. Tampouco pretendo, com isso, dizer que a pobreza das populações que não descendem de imigrantes (que é o grosso do Nordeste e dos seus descendentes aglomerados nas favelas do Sudeste) se deva exclusivamente a um problema de mentalidade, com o qual não contribuam a ausência educação básica e a fome. Problemas complexos têm mais de uma causa, e não é de admirar que uma população de cultura pré-moderna, anti-econômica, seja pobre.

Por fim, friso que tampouco se trata de optar por um modelo de Brasil em detrimento de outro, como se tivéssemos que escolher entre um pacote com Machado de Assis e escravidão, e outro com Paulo Coelho e liberdade. A imigração enriqueceu o Brasil antigo, católico e escravocrata, com seu senso do valor do trabalho e da dignidade da riqueza construída; e há valores do Brasil antigo que merecem ser cultivados, tais como o senso de que a política e o dinheiro não devem ser a bússola moral de ninguém.

Crente não existia no Brasil antigo

Num típico cenário de Brasil antigo, existe uma elite incrustada no Estado desde tempos imemoriais, descendente de caciques que se aliaram com portugueses. Na Bahia, é a chamada nobreza da terra, descendente de Caramuru e Catarina Paraguaçu, bem como de seus aliados, que foram chegando e se estabelecendo no governo do então Estado do Brasil. Em São Paulo, há os quatrocentões, descendentes dos xucros mamelucos filhos de João Ramalho e suas várias esposas tupis. (É lenda a ideia de que os bandeirantes eram brancos: eles sequer falavam português, como percebeu Theodoro Sampaio.) No Rio de Janeiro, onde a presença da Corte acabou por obnubilar os tempos coloniais, o índio mais importante era Arariboia, condecorado Cavaleiro da Ordem de Cristo. Essas elites locais tinham prestígio e poder. Estavam próximas do cofre do Estado, seja por ingressarem na política, seja por comporem a burocracia.

Na vida urbana, muito bem pintado por Thales de Azevedo n’As Elites de Cor, tínhamos um cenário que lembrava o medieval: havia a plebe, composta por mascates, quituteiros, pescadores, artesãos etc.; o clero, composto por gente estudiosa advinda de qualquer extrato social; e, no lugar da nobreza, havia algo parecido com uma classe média, que se definia mais pelo estilo de vida do que pela renda. Compunham esse simulacro de nobreza os funcionários públicos e os poucos profissionais liberais. As fronteiras entre o clero e essa modesta nobreza eram menos marcadas do que na Europa feudal, uma vez que aqui os padres por muito tempo foram funcionários públicos, e não tinham muita vergonha de assumir os filhos.

A mobilidade social existia, embora a plebe fosse bem mais numerosa do que os outros dois grupos. Thales de Azevedo, no referido livro, reproduz os seguintes versos por pretos da Bahia: “Tenho visto muito negro/ No altar dizendo missa./ E o caboclo ao mais que chega/ É a oficial de Justiça.” O livro foi escrito em 51, mas eu, nascida em 90, ainda fui batizada pelo padre mais chique da Bahia, o orador sacro Gaspar Sadoc, negro. Diz Thales ainda que “padres pretos e mestiços vieram a destacar-se, na Bahia como em todo o país, como oradores sacros, professores de latim, de filosofia e retórica, de português, como diretores de colégios e como políticos.” Todas essas carreiras – no clero, no Estado, nas artes liberais – têm em comum a necessidade de estudos formais. Daí os estudos, ou antes o diploma, serem vistos por muitos brasileiros como essenciais para a ascensão social. Lima Barreto, em Policarpo Quaresma, fazia um rico imigrante italiano dar a mão da filha a um diplomado, que ele entendia ser, no Brasil, o mesmo que os nobres eram na Itália.

Isso tampouco quer dizer que preconceito contra a cor inexistisse. Os mulatos ascendidos casavam-se com mulheres do seu novo círculo social, composto por gente mais clara, e sua descendência nem sempre tinha características negras visíveis. Dessa loteria genética surgem expressões como “barriga boa”, da qual saem filhos claros, e “barriga suja”, de onde saem filhos escuros. São expressões hoje em desuso (ao menos no meu círculo), mas que gente da minha idade ouviu dos velhos. Existiu também a figura do mulato que morre de vergonha de suas origens, retratada por João Ubaldo Ribeiro em Viva o povo brasileiro com a personagem Amleto Henrique Nobre dos Reis Ferreira Dutton (nome comprido soa nobre aos ibéricos), que fugia do sol e falsificou uma genealogia. Esse tipo eu não cheguei a conhecer, mas conheci filhos velhos de gente assim, mulato baiano com genealogia toda europeia e foto clareada a mão. Era um tipo ávido por casar-se com mulheres claras de sobrenome importante. É muito improvável que algo tão moderno, como o racismo científico, os motivasse tanto. Mais fácil supor os mesmos valores medievais que fizeram burgueses ricos se casarem com nobres falidos naquela Itália retratada por Lampedusa em O Leopardo.

Nesse horizonte, uma grande ausência: os crentes. A vasta maioria se dizia católica, mesmo que acreditasse em toda sorte de mandingas e só pusesse o pé na igreja em situações especiais. No começo do século XX, havia uma meia dúzia de protestantes, em geral de condições financeiras confortáveis. Exemplos são Glauber Rocha e Anísio Teixeira, ambos de lares protestantes, sem que isso fosse lá uma grande marca política ou cultural de suas pessoas.

Assim, digamos que existia um modelo coeso no Brasil, ao qual se adaptaram os imigrantes chegados: uma elite antiga dirige o país e distribui favores, uma diminuta classe média vive ou do Estado, ou como profissional liberal, e numa imensa plebe analfabeta uns poucos estudam para ascender a posições de consideração social. Olhando para a Bahia, que recebeu muito poucos imigrantes, posso apontar que eles ocuparam atividades desprezadas pelos habitantes locais, como o comércio, ou postos para os quais não havia mão de obra qualificada, como os contadores. Mas no Sudeste, a região mais povoada do Brasil, é necessário apontar que parte se misturou à plebe, e ter um sobrenome italiano é algo banal, encontradiço em áreas pobres. No Sul, idem. Com tanto descendente de imigrante nessa região, seria muito difícil a pobreza não ser também branca.

A velha elite contra a plebe insubmissa

Não é exagero dizer que há uma propaganda da elite letrada contra os evangélicos. Eles seriam responsáveis por uma implementação de uma Revolução Islâmica neste país. Esse exame não resiste a um passeio na favela, onde as crentes e as funkeiras de shortinho convivem em paz. É verdade que existem evangélicos extremistas – vide os roupões femininos da Adud, uma denominação que apareceu na imprensa por causa de denúncias de estupro. Mas os Arautos do Evangelho e os padres pedófilos não são tomados por representantes do catolicismo, nem João de Deus é tomado por representante do espiritismo.

De acordo com a propaganda progressista, os evangélicos são misóginos e homofóbicos por contrariarem os “direitos reprodutivos” (a descriminalização do aborto) e o casamento gay. Ora, os católicos e os espíritas também militam contra o aborto, mas só os evangélicos são pintados como campeões da misoginia. Quanto à homofobia, é bom frisar que nem católicos, nem espíritas, admitem o casamento gay. Se um casal do mesmo sexo quiser se casar numa instituição religiosa, encontrará entre os evangélicos algumas igrejas gays para atendê-lo. No plano legislativo, a Igreja Católica tem uma caveira só dela no armário, que é o ativismo contra o divórcio civil. Graças ao luterano Ernesto Geisel, que atropelou o Congresso com o Pacote de Abril, os brasileiros puderam se divorciar legalmente. O lobby da Igreja atuou no sentido de manter as mulheres eternamente ligadas aos seus maridos espancadores, e impedidas de recomeçar a vida com outro aos olhos da lei, mesmo que a sua religião autorizasse.

Deixando a elite letrada de lado, prefiro apontar aquele que para mim é o maior esqueleto da Igreja na história recente do país: permitir que em seu seio se instalassem e prosperassem militantes totalitários. Primeiro, houve os padres chamados de batinas-verdes, adeptos do integralismo. Depois, a teologia da libertação, submissa ao comunismo.

A Igreja esteve em consonância com setores da classe média ao fazer isso. Nossa plebe, ao contrário, nunca aderiu ao totalitarismo. Não só não aderiu, como puniu a Igreja com a invenção de uma religiosidade plebeia que valoriza a riqueza e não se curva aos valores da elite letrada. Isso não é coisa de pouco valor! Fosse outro o nosso povo, o Brasil poderia acabar como os países da América Central, onde os padres da teologia da libertação, mancomunados com a Universidade Centroamericana, conseguiram o que queriam.

É verdade que muitos crentes são intolerantes com as religiões de macumba. É falso, porém, que isso advenha de “racismo religioso”, como prega a elite letrada. A plebe brasileira, pertencente àquela extração cultural de Brasil antigo, era católica ao seu modo. Sincrética, podia acreditar nos santos, nos orixás e nos caboclos ao mesmo tempo. O problema do crente com a macumba é que ele também crê nos poderes das entidades evocadas. As mandingas admitem feitiços para prejudicar outrem; por isso, o crente tem pavor.

Em 2020, apenas metade dos brasileiros se declaram católicos. Enquanto isso, cresce nas massas, de maneira difusa, o sentimento de que enriquecer pelo trabalho é uma coisa louvável, e de que é factível guiar-se por um plebeu bem-sucedido, em vez de seguir a elite.

Sejamos francos quanto ao preconceito

Como já advertido no começo, minha origem cultural é do Brasil antigo, da região do país mais católica e menos evangélica. Fiz universidade federal, que é nicho de autoritarismo, e meu lar pertence ao grupo dos letrados. Se há um grupo humano que conheço bem, é o da elite letrada.

Na universidade, os militantes insistem, com razão, que todos temos preconceitos, e devemos nos precaver quanto a eles. Descartes já dava esse conselho no século XVII. Um preconceito que todo mundo do meu nicho cultural deveria admitir que tem, ou já teve, é o preconceito contra crente. Se não nos questionarmos, evangélico será sempre o pobre ignorante, a faxineira, o gari, o porteiro. Depois, quando aparecem juízes e procuradores evangélicos que não estão nem aí para o que a USP pensa, o letrado fica boquiaberto, não entende nada, e pensa que há uma conspiração maligna de forças ocultas tramando contra a ordem e os valores estabelecidos. O crente é sempre o outro; um estranho temível, quando não se apresenta sob a forma humilde de faxineira e porteiro.

Por essas e outras, tantos letrados ficam genuinamente desesperados com Bolsonaro – um católico não-praticante, sincrético com os crentes, hostil aos letrados. Ele é o signo de um Brasil incompreensível e assustador, onde as elites e os valores não são mais os mesmos, e onde a ascensão anárquica dos antigos plebeus deixa os nobres d’antanho temendo o futuro.

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