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Imagem da capa de “Princesinhas e principezinhos do Brasil”
Imagem da capa de “Princesinhas e principezinhos do Brasil”| Foto: Divulgação

“-- Mas eu não quero ser príncipe, quero ser monge… -- resmungou João”.

Aos dez anos, o infante - título dado aos príncipes e princesas de Portugal e Espanha que não são herdeiros do trono - encantado com a vida religiosa não imaginaria que seu irmão mais velho, dom José, faleceria prematuramente aos 27 anos, deixando o trono para o caçula, que se tornaria príncipe-regente do Reino de Portugal, Brasil e Algarves.

Sabe-se que o monarca que enfrentaria uma viagem intercontinental sem precedentes para proteger o império português das invasões napoleônicas tinha medo de trovoadas. É de se esperar que o pequeno João sentisse o mesmo; e que uma criança brasileira que tome conhecimento das experiências que marcaram a infância das figuras que permeiam os livros escolares se sinta devidamente representada.

Foi com esta proposta que o historiador Paulo Rezzutti, autor de biografias de três membros da família real brasileira - dom Pedro I, dom Pedro II e a imperatriz Leopoldina - e vencedor do Prêmio Jabuti por seu “D. Pedro - A história não contada” escreveu “Princesinhas e Principezinhos do Brasil” (Ed. Pingo de Ouro), que chegou às livrarias no último mês de outubro.

Com ilustrações de Gisele Daminelli, vencedora de um concurso que envolveu mais de 200 artistas, o livro traz pequenos contos infantis sobre personagens históricas do país, baseados em fatos reais. Os três biografados de Rezzutti, bem como seus familiares, estão presentes, junto a figuras pouco conhecidas como a princesa congolesa Aqualtune, que seria avó de Zumbi dos Palmares, e a princesa Paraguaçu, a filha de um cacique Tupinambá que se tornaria uma das primeiras indígenas a se casar oficialmente com um português e a propagar a devoção a Nossa Senhora no Brasil.

A ideia de se debruçar sobre a infância destas personalidades, segundo Rezzutti, surgiu pela primeira vez durante uma viagem para Petrópolis, no Rio de Janeiro, na companhia do afilhado. “Ele devia ter uns 8, 9 anos e corria atrás de mim para me ouvir contar as histórias dos lugares. O nome dele é João Pedro e eu, inicialmente, pensei em um livro sobre um João e dois Pedros”, conta o autor, em entrevista à Gazeta do Povo.

“Até que, em 2019, enquanto lançava a biografia do Dom Pedro II, comecei a notar crianças nas filas de autógrafo, junto com os pais, e elas sempre queriam saber algo dos príncipes e princesas do Brasil. Apareciam meninos de 10 anos contando que já haviam lido a biografia, outras se gabando de terem decorado os nomes dos príncipes, e eu percebi que falta material para este público”.

Com minibiografias dos personagens reais nas últimas páginas, o livro traz detalhes saborosos amarrados em pequenas histórias fictícias com pano de fundo real. Os pequenos leitores verão a princesa Leopoldina preocupada com sua coleção de pedras enquanto sua família se preparava para a fuga em meio à invasão napoleônica à Áustria; dona Carlota Joaquina com preguiça de acordar e com raiva de ter que ir à missa, dom Pedro I levando uma paulada na cabeça enquanto brincava de guerra e Paraguaçu falando português.

Sobre a pesquisa acerca da infâncias dessas figuras, Rezzutti ressalta uma dificuldade: “As histórias mais difíceis foram as dos negros e indígenas, porque há poucos registros. Tive que recorrer à antropologia para saber sobre as pinturas, sobre o comportamento de crianças ou sobre o que era esperado da filha de um cacique, por exemplo. Quando se trata da realeza, está tudo registrado, porque eram pessoas da elite letrada. Há cartas da criada de Carlota Joaquina para a mãe dela, contando que que ela não gostava de acordar cedo nem de se trocar para ir à missa”.

O autor, que diz ser sempre “fisgado” pelo menino Dom Pedro I - “ele era um moleque, vivia aprontando, sabia se divertir”, diz - comemora quando vê famílias inteiras se interessando pela obra. “É muito difícil produzir algo que atinja tantas gerações, em meio a tantos estímulos”, afirma Rezzutti. Às vésperas do bicentenário da Independência, “Princesinhas e Principezinhos do Brasil” é uma sugestão para pais que desejem instigar nas crianças o interesse e a paixão pela cultura nacional, em toda sua riqueza.

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