O caso dos “guardiões do Crivella” revela a face de um Brasil velhíssimo, o do coronelismo.
O caso dos “guardiões do Crivella” revela a face de um Brasil velhíssimo, o do coronelismo.| Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Quem mora ou tem parentes no Rio de Janeiro está familiarizado com o problema que é a saúde pública lá. Assim, quando os repórteres do jornalismo local foram entrevistar os pacientes do lado de fora do hospital e hostilizaram-nos os populares que amavam o maravilhoso prefeito Crivella, devem ter pensado: “Aí, tem!” E tinha.

Um grupo de WhatsApp de aspones da prefeitura se organizava para ficar nas portas dos postos de saúde em prontidão, cumprindo a tarefa de defender o prefeito de jornalistas e doentes queixosos. Davam-se até um nome pomposo: “Guardiões do Crivella”.

Aqui, o letrado típico verá a oportunidade perfeita para dizer que crentes são horríveis, afetar superioridade moral e puxar os cabelos por causa no nazismo bolsonarista. Depois o direitista, soltando fogo pelas ventas, com razão apontará a hipocrisia e o duplo padrão de moral do letrado. Ao cabo, ninguém ligará mais pro posto de saúde.

O aspone de direita é pago pra xingar a “Globolixo” na porta do hospital, o aspone de esquerda é pago pra ficar carpindo o fim do mundo nas redes. Fica esse oba-oba suprapartidário de aspone fazendo escândalo. Enquanto houver contribuintes cariocas sadios para pagar o salário deles, tudo bem. A morte nos postos de saúde não deve atrapalhar a arrecadação, e talvez até diminua o bolo a ser dividido, se morrerem aposentados.

Precedente prussiano

A situação era a seguinte: os aspones de Crivella trabalharam como cabos eleitorais, foram recompensados com cargos públicos e seguiam trabalhando pela reputação política do prefeito. Organizar barraco em porta de hospital é trabalho!

Em 1919, um professor de política do Reino da Prússia descrevia da seguinte maneira a dinâmica eleitoral em seu país:

“O homem político profissional, que vive ‘da’ política, pode ser um puro ‘beneficiário’ ou um ‘funcionário’ remunerado. Em outras palavras, ele receberá rendas, que são honorários ou emolumentos por serviços prestados – não passando a gorjeta de uma forma desnaturada, irregular e formalmente ilegal dessa espécie de renda – ou que assumem a forma de remuneração fixada em dinheiro ou espécie, ou em ambos ao mesmo tempo. […]

A compensação típica outrora outorgada pelos príncipes, pelos conquistadores vitoriosos ou pelos chefes de partidos, quando triunfantes, consistia em feudos, doação de terras, prebendas de todo tipo e, com o desenvolvimento da economia financeira, traduziu-se, mais particularmente, em gratificações. Em nossos dias, são empregos de toda espécie, em partidos, em jornais, em cooperativas, em organizações de seguro social, em municipalidades ou na administração do Estado – distribuídos pelos chefes de partido aos seus partidários, pelos bons e leais serviços prestados.

As lutas partidárias não são, portanto, apenas lutas para a consecução de metas objetivas, mas são, a par disso, e sobretudo, rivalidades para controlar a distribuição de empregos.” (Max Weber, Ciência e Política: Duas vocações, ed. Cultrix, p. 82. Ênfase minha.)

Nessa descrição, reconhecemos figuras encontradiças da política brasileira, que são os cabos eleitorais, os aspones e os mortadelas. Os cabos trabalham para eleger o político, e depois recebem prêmios lícitos, ilícitos, ou duvidosos – como os assessores de Crivella, que foram legalmente contratados para fazer algo de legalidade questionável.

O cabo, portanto, tem a aspiração de virar aspone. E aspone, como informa o dicionário Houaiss, é uma palavra brasileira que abrevia “assessor de p**** nenhuma”. Não faz nada de útil pela sociedade, mas recebe pelo cargo. Já o mortadela podemos classificar como um soldado raso do mesmo negócio: recompensas tão modestas quanto um sanduíche de mortadela compram os seus servicinhos.

Como um homem nascido no Reino da Prússia pode falar de uma realidade tão familiar? Ora, Max Weber é o teórico que inventou o conceito de patrimonialismo. Um Estado patrimonial é aquele em que não há distinção entre o que é patrimônio pessoal de um governante, e o que é patrimônio do Estado.

Nele, como observou Antonio Paim, a burocracia tem mais força que o resto da sociedade; e por isso não é de admirar que esse seja um modelo associado a ditaduras totalitárias. Não muito tempo depois de Max Weber pronunciar esse parágrafo acima, a democracia alemã, cuja constituição ele mesmo ajudara a redigir, seria corroída até cair no III Reich.

Com uma burocracia tão grande, e com um histórico patrimonialista, os teóricos brasileiros deveriam considerar a nossa democracia um milagre a ser explicado.

(Para não dizer que ninguém tentou responder isso, aponto que Jorge Caldeira, em sua História da Riqueza no Brasil, tem uma teoria interessante, que enfatiza o fato de nossas câmaras municipais funcionarem com eleição desde o século XVI. Temos uma estabilidade democrática impressionante no plano municipal, interrompida apenas por Getúlio Vargas. E eu cheguei a tratar desse tema em meu livro, enfatizando o aspecto cultural do individualismo latino.)

Na capital, menos mau

Max Weber descreve um cenário pior do que o das metrópoles brasileiras, pois até os empregos privados são distribuídos pelo governante. O nazismo apenas aprofundaria o vício patrimonialista de existir um monte de empresas privadas cujo sucesso financeiro adviesse de favoritismos estatais.

Trocando em miúdos, a Volkswagen, a Bayer, e até a editora alemã que comprou a Companhia das Letras, eram como que as campeãs nacionais de um BNDES do Reich.

Nas capitais brasileiras, enxergamos a coisa pública como lugar por excelência do patrimonialismo. Nos interiores, porém, concursos públicos podem ser vistos como uma conquista pessoal contra o coronel local.

Aqui, vou trazer um causo ilustrativo. Certa feita viajei para o interior, e fiquei hospedada com moradores locais. Quando perguntados, exibiam um vasto repertório de histórias de coronéis e cabos. Tinham a história de um cabo eleitoral pobre, que ganhou muitos brinquedos para dar de presente aos vizinhos, em troca de um cargo no governo.

O candidato foi eleito, e o cabo ficou a ver navios: coronel também dá golpe. Contaram do coronel cuja mulher, caridosa, passou a recolher doações para os vitimados de uma enchente – a fim de acumular as doações, e segurá-las até o período eleitoral, quando seriam dadas de presente em nome do coronel.

Alguns senhores se orgulhavam muito dos filhos que venceram na vida sem ajuda de coronel: só podiam trabalhar nos poucos estabelecimentos privados, todos de posse dos coronéis, até passarem em um concurso público numa esfera fora da alçada do coronel, de modo que não baixam a cabeça para amo nenhum. Em algum momento da história do Brasil, a estabilidade do concursado significou um ataque ao patrimonialismo de coronéis locais. Depois, virou mais uma fonte de tirania.

Os guardiões do Crivella revelaram a face de um Brasil velhíssimo, que com certeza se repete longe das câmeras da Globo. Na cidade do Rio de Janeiro, os meios de comunicação não são propriedade privada do governante. Em várias cidades do Brasil, a coisa é bem diferente.

Fiquemos atentos, portanto, e lembremos que mais importante do que o bate-boca dos aspones é o funcionamento do posto de saúde.

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