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Soldado somali patrulha em meio aos destroços deixados pelo ataque terrorista no centro de Mogadíscio, Somália, em 15 de outubro | MOHAMED ABDIWAHAB/AFP
Soldado somali patrulha em meio aos destroços deixados pelo ataque terrorista no centro de Mogadíscio, Somália, em 15 de outubro| Foto: MOHAMED ABDIWAHAB/AFP

Um atentado terrorista em Mogadíscio, capital da Somália, deixou mais de 300 mortos no último sábado. A contagem de vítimas ainda não atingiu números finais, mas o ataque no Chifre da África é o mais violento já registrado em solo somaliano e, segundo especialistas, pode ser considerado o mais letal atentado no mundo inteiro desde o 11 de setembro de 2001. Apesar disso, as explosões em Mogadíscio redundaram em uma comoção muito menor do que outros ataques com menos vítimas em países europeus ou nos Estados Unidos. Após ocupar brevemente o noticiário no final de semana, o episódio logo perdeu as manchetes. Por que a Somália não rende o mesmo tipo de resposta que um ataque em Paris, Londres ou Nova York?  

Leia mais: O desafio de vencer o terrorismo, a maior ameaça à democracia

Distância  

Um dos critérios fundamentais de relevância jornalística é o peso de determinado fato na vida de seus leitores – a distância é um fator importante nesse cálculo. Em 11 de setembro de 2001, o mundo inteiro passou semanas comentando os atentados liderados por Osama Bin Laden, mas foi o New York Times que dedicou páginas e páginas para escrever mais de 2,5 mil obituários detalhados das vítimas. Por maior que seja o fato, a atenção é ainda mais detida quando ele é próximo de nós. E, se o episódio ocorre em um lugar distante, o ponto analisado na sequência é o tipo de reflexo que o ataque pode ter em outros lugares.  

Do ponto de vista do Ocidente, a Somália é distante, não apenas em termos geográficos, mas também culturais. Um ataque nos Estados Unidos ou na Europa coloca em jogo repercussões que afetam um número maior de países na comunidade internacional – eventuais restrições à viagem e à imigração, baques econômicos, etc. –, mas também as memórias afetivas de um grande número de pessoas que se sentem, de alguma forma, identificadas com o lugar atacado: por terem estado lá pessoalmente, conhecerem alguém que visitou ou visto no cinema, há muito mais indivíduos conectados a Paris ou a Nova York do que a Mogadíscio, por exemplo.  

Em Hotel Ruanda, filme que trata do genocídio no país africano durante a década de 90, o gerente do hotel (que abriga refugiados) questiona um repórter estrangeiro como é possível que o mundo ignore as atrocidades que ocorrem no país. O cinegrafista responde: “se as pessoas verem essa filmagem, elas vão dizer ‘meu Deus, que horrível’, e depois vão continuar jantando normalmente”.  

Não é um fenômeno novo: ainda em 1759, em Teoria dos Sentimentos Morais, Adam Smith já imaginava a reação de um europeu diante de uma tragédia distante – no seu exemplo, a China sendo engolida por um terremoto. A tristeza e a consternação iniciais causadas pela empatia humana daria lugar, talvez, a algum tempo de reflexão sobre a fragilidade da existência. Mas, depois, a vida seguiria, “como se nada tivesse acontecido”. Um fato menos violento que afetasse aquela pessoa diretamente renderia uma resposta muito maior do que a maior tragédia humana vivida por outros a milhares de quilômetros de distância.  

Uma situação semelhante parece se desenhar em episódios como o da Somália: o choque é apenas momentâneo, mas há uma sensação de que aquilo não nos diz respeito.  

Desinformação  

Em 2015, quando os ataques à revista francesa Charlie Hebdo aconteceram quase simultaneamente a um atentado do Boko Haram na Nigéria, e o caso francês ganhou muito mais destaque, o dilema já havia aparecido: além da questão da identificação, o episódio africano também tinha contra si a dificuldade de se obter dados mais detalhados (e atualizados) sobre o que efetivamente havia acontecido.  

Para a sociedade ocidental, a Somália é, em geral, um mistério: há poucas informações sobre o país no noticiário cotidiano e, normalmente, o que se sabe a respeito da realidade somaliana é negativo. Famosa pelo colapso de seu governo no início dos anos 90 e pelos piratas modernos que assombram seus mares, a Somália aparece em Hollywood em filmes como Falcão Negro em Perigo e Capitão Phillips, nos quais americanos são vítimas da anarquia e da violência locais.  

No início deste ano, o país voltou a ganhar o noticiário com fatos que reforçam a imagem de uma terra sem lei nem governo: as secas e as dificuldades econômicas ameaçavam causar, mais uma vez, uma grande fome na região. 

Enfrentar barricadas em cada esquina, cair nas mãos de piratas ou sofrer com a fome generalizada são realidades com as quais o Ocidente não se identifica – reforçam a imagem da Somália como um “outro”, que é visto sempre de uma perspectiva externa. Não se tem a oportunidade de ir ao cinema ver um filme somaliano: é muito mais fácil saber como o país é visto pelos norte-americanos, por exemplo.  

A própria insegurança do país reproduz um ciclo vicioso que eterniza a desinformação: os grandes jornais internacionais não costumam possuir correspondentes em Mogadíscio, tanto pelos riscos envolvidos quanto pela pouca importância dada à Somália no contexto internacional. 

Com isso, os relatos que vêm de lá são muito mais limitadas do que aqueles que saem, por exemplo, da França ou da Inglaterra, onde há circulação de repórteres do mundo inteiro, além de fácil acesso da população à internet. Com isso, a imprensa internacional depende quase exclusivamente das agências de notícias, dando reportes similares sobre a situação e estagnando rapidamente o noticiário.  

Expectativas  

A Somália vive há quase 30 anos em um estado que beira a anarquia. A dificuldade em obter dados junto ao governo local é tamanha que o país não aparece sequer no ranking mundial do Índice de Desenvolvimento Humano, que atualmente lista 188 países – faltam informações atualizadas para elaborar o cálculo. 

A Somália também não é citada nas listas de renda per capita do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. Na estimativa da CIA, a Somália aparece no último lugar entre 230 nações e territórios, com uma renda média de 400 dólares anuais (o Brasil é 107º nesse ranking, com renda calculada pela CIA em 15.200 dólares por ano).  

O país não celebra eleições realmente democráticas desde a década de 60 e está mergulhado no caos atual desde 1991, quando o ditador Mohamed Siad Barre foi derrubado e nenhum grupo ocupou o vácuo de poder. Desde o início dos anos 2000, os frágeis governos que têm se formado em Mogadíscio precisam conviver com o extremismo: o Al-Shabab, grupo jihadista acusado de ter organizado o atentado no sábado, chegou a controlar partes inteiras do território somaliano, antes de ter seu poder reduzido e passar a adotar os atentados terroristas como sua nova tática.  

Antes de virar notícia pelos ataques, a Somália havia atraído atenção internacional no início deste ano, quando a ONU alertou sobre a probabilidade de uma catástrofe humanitária ocasionada pela fome até o final de 2017. Segundo a organização, mais de 6 milhões de habitantes do país (de um total estimado em 14 milhões) precisavam de algum tipo de ajuda urgente, e até 950 mil crianças menores de cinco anos corriam risco de morte por desnutrição aguda este ano.  

Em resumo: do pouco que é possível saber da Somália, as expectativas costumam ser as piores possíveis, e muito diferentes daquelas que existem quando se trata de uma democracia moderna e estável vitimada por um atentado semelhante. Por mais brutal que seja, o ataque em Mogadíscio entrou em um imaginário pré-existente sobre o país, onde um episódio do tipo já era visto como uma possibilidade real.  

Problema antigo  

Outro fato que entra em jogo nessa equação é a continuidade da violência atribuída ao Al-Shabab ao longo dos anos. Atuante no país há 15 anos e ligado à Al-Qaeda há cinco, o grupo tem lutado por controle territorial e empregado táticas terroristas ao longo de toda a sua existência. 

O atentado do final de semana foi o maior de todos, mas não foi o primeiro e dificilmente será o último: em 2016, o Al-Shabab foi o grupo terrorista que mais matou na África, com mais de 4,2 mil vítimas, segundo a ONG americana Armed Conflict Location and Event Data Project. Na realidade, o que aconteceu nesta semana é a exceção: pelo menos desta vez a Somália chegou a virar notícia.  

Apesar do grande número de mortos nos últimos anos, o Al-Shabab já não atraía grande atenção internacional na época. A ideia de que o país vive em um estado de conflito permanente também reduz o interesse internacional em sua realidade: a Somália se junta a países como a Síria, o Afeganistão ou o Iraque, em que o terror é visto como algo rotineiro e não rende manchetes – a menos que produza uma situação extraordinária para os seus próprios padrões. 

No caso sírio, o ataque com gás sarin em junho foi um episódio do tipo, rendendo até mesmo intervenção armada dos Estados Unidos. No caso somali, o grande número de vítimas deste final de semana ajudou a reduzir, de forma breve, a invisibilidade ainda maior que havia marcado os vários ataques anteriores.

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