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Emmanuel Macron: ex-socialista que virou liberal, o mais jovem presidente da França, eleito aos 39 anos, teve uma ascensão meteórica | ERIC FEFERBERGAFP
Emmanuel Macron: ex-socialista que virou liberal, o mais jovem presidente da França, eleito aos 39 anos, teve uma ascensão meteórica| Foto: ERIC FEFERBERGAFP

Quando entrar no Palácio do Eliseu, Emmanuel Macron será oficialmente o presidente mais jovem que a França já teve em qualquer um dos seus cinco períodos republicanos. Aos 39 anos de idade, o ex-candidato e agora presidente eleito teve uma ascensão meteórica: de 2014 para cá, foi Ministro de Economia de François Hollande, rompeu com os socialistas, fundou seu próprio partido político e lançou uma candidatura que muitos consideravam sem futuro. Agora, por fim, será o líder da sexta maior economia do mundo por pelo menos cinco anos. 

Ao tomar posse nos próximos dias (a data exata para a passagem do bastão ainda não foi definida), Macron terá que justificar a esperança que gerou, lutar contra a ambiguidade de algumas de suas posições, enfrentar a ferrenha oposição de uma Marine Le Pen que sai fortalecida por uma votação recorde para seu partido, e tomar decisões duras que definirão o futuro não apenas da França – mas da própria Europa. 

Um liberal saído da esquerda 

“Nem à esquerda nem à direita” foi o slogan que guiou Macron ao longo de toda a sua campanha. Os especialistas e a imprensa francesa o definem como um candidato de centro, que tenta conquistar votos dos dois lados. Durante toda a caminhada, isso significou a necessidade de equilibrar sua fala de modo a não perder espaço em nenhuma das pontas do espectro ideológico, o que gerou críticas de que Macron falava muito, mas não trazia nenhuma proposta concreta. 

Macron arrasou Le Pen em Paris

Marine Le Pen o alfinetou em um dos debates, ainda no primeiro turno: “Você é muito talentoso: conseguiu falar por sete minutos e eu não sou capaz de resumir o seu pensamento. Você não disse nada, é um vazio absoluto”. Quando lançou seu programa de campanha, poucos dias depois da cerimônia de entrega do Oscar, uma piada comum entre os críticos de Macron dizia que ele havia se inspirado no título do filme mais premiado do ano – suas propostas seriam uma espécie de “Blá-Blá-Land”. 

Partido de Macron lidera pesquisas sobre eleições legislativas

Logo no primeiro olhar, efetivamente, a trajetória profissional e política do futuro presidente francês não é tão simples de definir. Macron rompe alguns paradigmas das classificações fáceis entre esquerda e direita: ex-banqueiro de investimentos, com nada menos que o poderoso Banco Rothschild no currículo, ele defende políticas liberais e já encabeçou reformas nas leis trabalhistas que desagradaram grande parte da esquerda. No entanto, foi nomeado Ministro de Economia pelo socialista François Hollande, chegando a ser considerado um protegido do presidente que agora se despede. Os assessores de Macron garantem que ele não vê o mundo em termos de esquerda ou direita, mas de protecionismo e globalização – pendendo para esta última. 

Contatos no governo e na iniciativa privada 

A ascensão meteórica de Macron começou logo após se graduar na prestigiosa Escola Nacional de Administração (ENA), em 2004: o novo presidente ingressou imediatamente no serviço público, dentro da Inspeção Geral de Finanças (IGF), órgão fiscalizador do Ministério da Economia. Em 2007, Macron passou a integrar a chamada “Comissão Attali”, órgão misto com membros do governo e da iniciativa privada, criado pelo então presidente Nicolas Sarkozy para acelerar o crescimento econômico do país. Mais do que a formação de Macron, foram os contatos construídos nessa comissão que o tornaram um nome valioso e atraíram o interesse do Banco Rothschild, que o contrataria no ano seguinte. 

Nas reuniões da Comissão Attali, Macron se aproximou de alguns pesos-pesados da economia francesa que também se sentavam à mesa: representantes do setor bancário, de seguros e da energia nuclear. Também fez amizade com Peter Brabeck, CEO da Nestlé, o relacionamento mais importante para a concretização do grande negócio que Emmanuel Macron ajudou a intermediar no período em que geriu investimentos para o Rothschild: em 2012, quando a gigante do ramo farmacêutico Pfizer decidiu vender sua filial dedicada à nutrição infantil, a Nestlé procurou o banco de Macron graças às pontes construídas no passado. Após uma concorrência acirrada com a americana Maed Johnson e a francesa Danone, a Nestlé fechou negócio - alegadamente, por intervenção direta de Macron junto a Brabeck, convencendo-o a aumentar o lance - por cerca de 11,9 bilhões de dólares. 

Os cinco principais desafios de Emmanuel Macron

A negociação ajudou a fazer de Macron um milionário: o candidato declarou ter recebido, nos anos em que trabalhou para o Banco Rothschild, quase 3 milhões de euros brutos - quantia que seus críticos acusam ter sido maquiada para baixo para não desgastar sua imagem no período eleitoral. Certo é que, pouco tempo depois de ajudar na compra da subsidiária da Pfizer, Macron fez o caminho inverso: saiu da iniciativa privada e, uma vez mais, assumiu um cargo no governo. 

Sob François Hollande, de quem receberá o poder nos próximos dias, Macron trabalhou primeiro como secretário-geral adjunto, sendo nomeado para encabeçar o Ministério de Economia em agosto de 2014 - sua capacidade de orbitar entre a esfera pública e a privada pesou novamente, e Hollande apostou no seu jovem protegido para flexibilizar as relações de trabalho sem desagradar demais as bases do Partido Socialista. 

Sua maior realização como membro do gabinete do último governo foi a aprovação, em 2015, da Lei pelo Crescimento, pela Atividade e Igualdade das Chances Econômicas. Conhecido como “Lei Macron”, o pacote enfrentou grande resistência dentro e fora da base aliada de Hollande (mais de 2,8 mil emendas foram sugeridas no Parlamento), favorecendo os empresários e desburocratizando as relações trabalhistas. Entre outras medidas, a nova lei estabelece regras mais simples para acelerar os processos trabalhistas, facilita as demissões e permite negociações sobre pontos antes intocáveis nas relações entre empregadores e empregados na França, como o aumento da jornada para mais de 35 horas semanais e a possibilidade de abrir o comércio aos domingos. 

Em Marcha! 

Segundo o próprio Emmanuel Macron, foi justamente essa experiência em um cargo de governo que o fez se distanciar do Partido Socialista. “Nosso sistema político está bloqueado”, disse ao lançar sua candidatura. “Eu vi o interior do nosso sistema político, que interrompe a maioria das ideias porque elas podem ameaçar a máquina, os partidos tradicionais e os interesses velados”, bradou Macron. Para ele, as picuinhas políticas atrasavam as pautas de interesse nacional - o então ministro garantiu ter ouvido de vários parlamentares da oposição que concordavam com o espírito da nova legislação, mas que votariam contra para não ajudar Hollande. 

Ainda em 2015, Macron anunciou que romperia qualquer laço que restasse com o partido governista. Naquele momento não se sabia, mas Macron estava gestando o movimento do qual seria fundador algum tempo mais tarde: em abril de 2016, nascia o “Em Marcha!”, partido pelo qual se candidatou e venceu as eleições à presidência. Parecia uma aventura quixotesca, mas o carisma do candidato, o descrédito dos partidos tradicionais e o modelo extremamente aberto – ao contrário das siglas tradicionais, o EM não exige que seus novos membros se desfiliem de outros partidos, o que ajudou a atrair curiosos – levaram a legenda de Macron a somar mais de 200 mil filiados em poucos meses. 

Os principais pontos do programa do presidente Emmanuel Macron

A construção da plataforma foi inspirada no que Barack Obama fez em sua primeira corrida presidencial nos Estados Unidos, em 2008: ouvir atentamente os clamores do eleitorado descontente. Durante o período de formação, voluntários do EM percorreram a França inteira, realizando mais de 25 mil entrevistas com cidadãos de todos os estratos sociais. A ideia era compilar as respostas dos franceses para duas perguntas simples, mas que ajudavam a compreender a visão da população: o que, na opinião do cidadão comum, funcionava – e o que não funcionava – no país. 

O contexto eleitoral de 2017 ainda trouxe um golpe de sorte, tanto para Macron quanto para Marine Le Pen, os dois candidatos que se vendiam como vindos de fora da velha classe política. Com a população farta dos já conhecidos jogos empregados pelo Partido Socialista e pelos Republicanos, as siglas mais tradicionais que têm dominado a política francesa nas últimas décadas, houve espaço para os nomes alternativos crescerem. 

Já abalados, nem o PS nem os conservadores moderados se ajudaram: enquanto os socialistas concorreram com Benoît Hamon, considerado um nome à esquerda demais para os próprios padrões do partido, os republicanos viram seu candidato, François Fillon, ser envolvido em um escândalo de corrupção e nepotismo que corroeu seu favoritismo inicial. No fim, Hamon acabou em quinto lugar e Fillon, em terceiro – a primeira vez desde o Pós-Guerra que nenhum dos grupos tradicionais avançou ao segundo turno. 

Conquistador político e amoroso 

Macron e a esposa, Brigitte Trogneux, que foi sua professora no ensino médio, quando ele tinha 15 anos.ERIC FEFERBERGAFP

No Em Marcha!, Macron é visto como um líder centralizador, personalista, que comanda os passos do partido de modo vertical. É a figura carismática de uma sigla recentíssima e se favorece da sua condição de outsider: embora tenha integrado o gabinete de Hollande, o futuro presidente da França jamais havia concorrido a qualquer cargo político antes das eleições de 2017. Mais além das distâncias ideológicas, essa condição ajudou a diferenciá-lo dos demais concorrentes, inclusive da própria Marine Le Pen – apesar de ela ser uma personalidade nova, seu partido, a Frente Nacional, já faz parte do jogo político há quatro décadas. 

A maneira rápida com que conquistou o eleitorado francês é análoga à fama de garoto-prodígio que Macron construiu em seus círculos mais próximos, tanto no meio familiar quanto no político. “Em questão de meses, ele deixou de ser uma criança para virar um adolescente, e passou de um adolescente a um adulto”, disse um de seus assessores mais próximos, Alain Minc, em entrevista à BBC. Minc fazia referência ao amadurecimento político de Macron no curto período desde que assumiu o ministério sob Hollande, mas também poderia estar falando da vida pessoal do futuro presidente. 

Brigitte Macron: de professora a primeira-dama da França

Emmanuel Macron, afinal, também tem uma trajetória peculiar – e precoce – no campo amoroso. Nascido na provinciana Amiens, cidade de 130 mil habitantes ao norte de Paris, Macron tinha apenas 16 anos de idade quando conheceu a atual esposa, Brigitte Trogneux. Professora de artes dramáticas na escola local, Brigitte era 24 anos mais velha que Macron, já casada e com três filhos, e se tornou a paixão adolescente do futuro presidente da França. Mesmo quando ele partiu da cidade natal para estudar na capital, não desistiu de conquistá-la: a agora primeira-dama Brigitte, hoje aos 64 anos, acabaria se divorciando do primeiro marido, e se casaria com Macron em 2007. 

Segundo a jornalista Anne Fulda, biógrafa do novo presidente, o casal evitou publicidade na maior parte do tempo desde que iniciou a união, mas começou a se abrir para a imprensa após o lançamento da candidatura. Ao longo do último ano, Brigitte deu diversas entrevistas, inclusive para um documentário sobre o marido. E o próprio Macron fez questão de dar um significado novo ao relacionamento: “ele quer dar a ideia de que, se ele foi capaz de seduzir uma mulher 24 anos mais velha e mãe de três filhos em uma cidade do interior, ele pode ser capaz de conquistar a França do mesmo modo”, escreveu Fulda. 

Outsider ou produto do sistema? 

Na narrativa que construiu para sua própria vida durante a campanha, Macron buscou se diferenciar da classe política tradicional. Ele não vinha de uma grande família parisiense, não era herdeiro de fortunas ou propriedades: sua bisavó era analfabeta, seus avós tinham profissões como os franceses comuns de quem queria ganhar votos – uma professora primária, um trabalhador ferroviário... Macron queria se vender, enfim, como o outsider perfeito. Um francês de raízes humildes que venceu na vida através do esforço pessoal, que não entrou na política nem por vir de um grande clã econômico, nem por ter sido um líder do movimento sindical, as modalidades mais comuns à direita e à esquerda. 

Mas seus opositores nunca cansaram de apontar a contradição na fala de Macron: que outsider era esse que tinha em seu currículo um dos mais prestigiosos bancos de investimento da Europa, que havia frequentado colégios particulares e, mais do que isso, fez seus cursos superiores na Escola Nacional de Administração (ENA), a mesma que formou grande parte da elite política francesa? Nesse sentido, Macron não é tão diferente de quem veio antes: é o quarto aluno formado pela ENA a chegar à presidência, após Valéry Giscard (1974-1981), Jacques Chirac (1995-2007) e François Hollande (2012-2017). 

No discurso sobre sua própria trajetória, Macron supervalorizou o legado de seus avós e praticamente escondeu seus pais: um casal de médicos solidamente firmados na classe média alta de Amiens, que puderam lhe proporcionar uma vida muito mais confortável que a dos antepassados que tanto exalta. De fato, Marine Le Pen conquistou votos justamente nos setores que não viam Macron como alguém tão externo ao sistema: a força maior da candidata da Frente Nacional esteve no interior do país, entre jovens desempregados, trabalhadores rurais e operários. Mais de uma vez, Le Pen – que, apesar do discurso conservador no social, defende políticas estatizantes na economia – afirmou que seu adversário era o candidato dos “grandes empresários”. 

Um discurso diferente 

Na área econômica, Macron se define como um liberal, mas sem ignorar a tradição de Estado grande que a França possui. Se por um lado promete amplos cortes de impostos para empresas e maior liberdade nas negociações de direitos trabalhistas (tornando a “Lei Macron” ainda mais abrangente), por outro também fala em aumentar os investimentos públicos para formação profissional (estimado em até 50 bilhões de euros), e oferecer subsídios para gastos cotidianos como óculos, dentaduras e aparelhos auditivos, além de um “vale-cultura” de 500 euros para jovens de 18 anos. 

Acusado de estar em cima do muro em vários pontos de seu programa, Macron moldou muito de seu discurso de acordo às necessidades do momento. Mesmo sendo um ardente defensor da União Europeia, rebateu o crescimento eleitoral de Marine Le Pen (que queria a saída da França da UE, como a Grã-Bretanha fez) passando a propor reformas profundas na maneira como o bloco atua. Nos dias finais de campanha, Macron já havia adotado um tom muito mais crítico à UE, sustentando que manter seu funcionamento da maneira atual seria uma “traição” ao povo francês. Segunda maior economia da UE no momento em que o Brexit for concluído, a França de Macron contará com um grande poder de barganha para reformar o bloco – especialistas entendem que uma eventual saída do país sepultaria definitivamente a União Europeia. 

Marine Le Pen: pronta para uma nova batalha daqui a cinco anos

Apesar de algumas variações em sua fala, Macron jamais voltou atrás em boa parte das afirmações controversas que fez durante a campanha, o que aumentou a confiança dos eleitores em suas convicções. Em um país sofrendo com atentados terroristas e onde os muçulmanos são vistos com cada vez mais reservas, o novo presidente afirmou que “nenhuma religião é um problema na França hoje”, atraindo o eleitorado aberto à ideia de um país multicultural. Em fevereiro, referindo-se ao tema sensível da Guerra da Argélia (1954-1962), quando a nação africana conquistou sua independência em meio a ações violentas que nunca foram plenamente reconhecidas pelo governo francês, Macron chocou pela sinceridade ao afirmar que seu país havia cometido “crimes contra a humanidade”. 

Quanto veremos das mudanças prometidas por Emmanuel Macron? A resposta exata é algo que nem mesmo o próprio presidente é capaz de dar neste momento. O primeiro grande desafio de Macron, cujo partido sequer existia nas últimas eleições legislativas, será conquistar um bom número de assentos no Parlamento. Diferentemente de países como os EUA e o Brasil, onde congressistas e presidentes são escolhidos no mesmo dia, a renovação da Assembleia francesa ocorrerá somente no mês que vem, ao longo de dois finais de semana. Será só então que a dimensão da vitória de Macron poderá ser mensurada. O “terceiro turno” entre Macron, Le Pen e os desacreditados partidos tradicionais já está marcado: será nos dias 11 e 18 de junho.

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