Entre os quase 70 mil arquivos que compõem a coleção Henrich Hoffmann – nome do fotógrafo oficial do Terceiro Reich e do filho com o qual partilhou seu ofício –, um retrato tirado em 1941 mostra Adolf Hitler sentado diante de um homem trajando longas vestes pretas e turbante.
Enquanto o Fuhrer gesticula, à sua direita, seu interlocutor tem as mãos postas sobre as pernas. Além da foto, um documento oficial da Polícia Estrangeira Alemã contendo a transcrição da conversa confirma o encontro do ditador com Haj Amin al-Husseini, o Grande Mufti de Jerusalém (“mufti” é uma espécie de autoridade em assuntos relacionados à lei islâmica).
Nascido em Jerusalém no final do século XIX, em uma família árabe rica e influente, Al-Husayni estudou em Jerusalém, Cairo e Istambul, e em 1910 entrou para o exército otomano.
Foi nomeado Grande Mufti de Jerusalém e presidente do Conselho Supremo Muçulmano pelos britânicos em 1921, após a aquisição da Palestina como um mandato sob a Liga das Nações, tornando-se a figura religiosa mais proeminente na comunidade muçulmana palestina da época.
Em 1936, elevado ao cargo de presidente do Alto Comitê Árabe, ajudou a incitar a Revolta Árabe contra o domínio britânico na região e a imigração massiva de judeus, que fugiam das perseguições na Europa e na Rússia.
Iniciada por meio de atos violentos espontâneos cometidos pelos seguidores do Sheikh Izz ad-Din al-Qassam, morto pelos britânicos em 1935, a rebelião logo culminou no assassinato de dois judeus e em uma escalada da violência.
Sob a liderança de Amin al-Husseini o Comitê Árabe convocou uma greve geral, determinou a suspensão do pagamento de impostos e o fechamento dos governos municipais, além de decretar a proibição de vendas de terras para judeus, exigindo o fim da imigração judaica e a independência palestina.
Dois anos antes do fim da revolta, que terminou em 1939 com milhares de judeus e árabes mortos, Al-Husayni foi forçado a fugir do Mandato da Palestina depois que a administração britânica declarou o comitê ilegal. Viveu o resto da década de 1930 como exilado no Líbano e depois no Iraque.
Em outubro de 1941, chegou à Itália dominada por Benito Mussolini e, por fim, aportou na Alemanha nazista, onde foi recebido pelo Fuhrer – um encontro cujo conteúdo foi revolvido no passado recente.
Em 2015, durante um discurso no 37º Congresso Sionista em Jerusalém, o primeiro-ministro isralelense, Benjamin Netanyahu, acusou o Mufti de ter sido o responsável por sugerir a Hitler a “solução final” para a “questão judaica”.
“Naquela altura, Hitler não queria exterminar os judeus, mas sim expulsá-los. Porém, Haj Amin al-Husseini foi encontrar-se com ele e disse-lhe: ‘Se os expulsar, eles vão todos para a Palestina’. ‘E o que é que devo fazer?’, perguntou Hitler. [O Mufti] disse: ‘Queime-os’”, afirmou o premiê israelense.
Na época, a declaração de Netanyahu provocou reações entre historiadores e entidades ligadas à preservação da memória do Holocausto, que acusaram o primeiro-ministro de distorcer os fatos.
Não é difícil checar a fonte original: uma descrição detalhada do diálogo, atribuída à polícia estrangeira alemã, está em posse de um arquivo britânico e foi publicada pelo jornal The Times of Israel.
Consta no registro que Husseini teria assegurado a Hitler que “os árabes eram amigos naturais da Alemanha porque tinham os mesmos inimigos que a Alemanha, ou seja, os ingleses, os judeus e os comunistas”.
Ele também agradeceu a Hitler por apoiar “a eliminação da pátria nacional judaica” e solicitou uma declaração pública dos nazistas em apoio à “independência e unidade da Palestina, Síria e Iraque” sob domínio árabe.
“[O Mufti disse que] Uma declaração pública neste sentido seria muito útil pelo seu efeito propagandístico sobre os povos árabes neste momento. Despertaria os árabes da sua letargia momentânea e lhes renovaria a coragem. Também facilitaria o trabalho do Mufti de organizar secretamente os árabes para o momento em que pudessem atacar. Ao mesmo tempo, ele poderia dar a garantia de que os árabes, em estrita disciplina, esperariam pacientemente pelo momento certo e só atacariam por ordem de Berlim”, afirma o documento.
A despeito do caráter ostensivamente antissemita do diálogo e da insinuação por parte do Fuhrer de que planejava “pedir a uma nação européia após a outra para resolver seu problema judeu”, não há, de fato, nenhuma referência explícita à “solução final” nazista, sobretudo por parte do Grande Mufti, o que justifica a reação de entidades judaicas à fala de Netanyahu em 2015.
“Haj Amin al-Husseini, o Mufti de Jerusalém, foi um antissemita desprezível e ardente apoiador do nazismo. No entanto, o papel que desempenhou no Holocausto foi marginal”, descreveu o então presidente do Yad Vashem, o Memorial Oficial de Israel para as vítimas do Holocausto, Dani Dayan.
Decerto, a obsessão de Hitler pelos judeus, bem como muitas das políticas que culminaram nos campos de extermínio, já estavam em curso desde antes do encontro com o líder muçulmano – a exemplo do Baby Yar, o massacre de judeus na Ucrânia ocorrido em setembro de 1941, dois meses antes de Husseini desembarcar em Berlin.
A colaboração do Mufti para o projeto nazista, contudo, não pode ser ignorada: além de exaltar a ideologia em transmissões de rádio, o líder muçulmano foi fulcral para o alistamento de bósnios muçulmanos na SS – outro fato registrado em fotos.
As consequências de longo prazo desta parceria maléfica, contudo, é que continuam convenientemente ocultas às elites progressistas do Ocidente, para as quais a influência de Husseini parece desaparecer simultaneamente à derrota de Hitler.
Ocorre que, em meados de junho de 1946, Haj Amin el-Husseini retornou ao Cairo após um ano em prisão domiciliar na França. Em homenagem ao regresso do Mufti ao Oriente Médio, Hassan al-Banna, líder da Irmandade Muçulmana no Egito, escreveu as seguintes palavras:
Os Irmãos Muçulmanos e todos os árabes pedem à Liga Árabe, na qual as esperanças árabes estão depositadas, que declare que o Mufti é bem-vindo para ficar em qualquer país árabe que ele escolher, e que grande acolhimento deve ser estendido a ele onde quer que vá, como um sinal de apreço por seus grandes serviços pela glória do Islã e dos árabes. (...) A notícia soou como um trovão aos ouvidos dos tiranos americanos, britânicos e judeus. O leão finalmente está livre, e ele vagará pela selva árabe para limpá-la dos lobos.
Alguns jornais sionistas no Egito (...) gritam e choram porque o Mufti está de volta. Não podemos culpá-los, pois eles percebem a importância do papel desempenhado pelo Mufti na luta árabe contra o crime prestes a ser cometido pelos americanos e ingleses. A derrota de Hitler e Mussolini não o assustou. Seu cabelo não ficou grisalho de medo, e você ainda está cheio de vida e luta. (...) Sim, este herói que desafiou um império e lutou contra o sionismo, com a ajuda de Hitler e da Alemanha. A Alemanha e Hitler se foram, mas Amin Al-Husseini continuará a luta.
Cabe recordar que Al-Banna era um efusivo admirador de Hitler desde a leitura de Mein Kampf. À época em que a homenagem a Husseini se espalhou pelo mundo árabe, a Irmandade Muçulmana no Egito era a principal organização islamista do mundo, a qual se estenderia pela Palestina e, décadas depois, daria origem a grupos terroristas como a Al Qaeda e o Hamas.
É de surpreender, contudo, que a profunda conexão entre o nazismo e o extremismo islâmico – consolidada por Al-Banna e pelo Mufti de Jerusalém – passe ao largo de muitos historiadores e analistas.
“A declaração de al-Banna de que Husseini ‘continuaria a luta’ que Hitler havia travado contra os judeus e o sionismo provou estar correta”, escreve o historiador Jeffrey Herf, da Universidade de Maryland.
“Haj Amin el-Husseini e o Alto Comitê Árabe de fato ‘continuaram a luta’ contra o judaísmo, os judeus e o projeto sionista. Se a pesquisa sobre essas questões receberá a atenção que merece e se terá algum impacto na mudança de atitudes políticas em relação a Israel e seus adversários, ainda haveremos de descobrir. Mas está se tornando mais difícil ignorar”.
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