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O canal do YouTube da marxista Sabrina Fernandes, Tese Onze, é bastante popular e conta com cerca de 324 mil assinantes.
O canal do YouTube da marxista Sabrina Fernandes, Tese Onze, é bastante popular e conta com cerca de 324 mil assinantes.| Foto: Reprodução/YouTube

Laura Sabino tem um objetivo, segundo sua conta no Instagram: “Meu trabalho é tirar o jovem do seio do liberalismo e colocar na teta de Marx”. Estudante de história de 21 anos, ela vive em Belo Horizonte e utiliza suas redes sociais para explicar conceitos políticos de esquerda, se utilizando de desenhos, filmes e músicas.

No Instagram, onde tem 45 mil seguidores, postou recentemente um cartaz com os dizeres: “Se não há igualdade para os pobres que não haja paz para os ricos!”. No Twitter, onde é seguida por 58 mil pessoas, alterna afirmações como “A direita penaliza crianças e defende sistematicamente estupradores” e “Eu quero muito colocar um piercing na sobrancelha. Alguém sabe se dói muito?”.

No YouTube, apresenta para seus 32 mil assinantes vídeos em que explica, por exemplo, a diferença entre socialismo utópico, o socialismo marxista e o comunismo utilizando como base os personagens do filme Monstros S.A., “aquele filme em que os protagonistas são dois operários, o vilão é o burguês safado e o dia é salvo quando os trabalhadores tomam a fábrica para eles”.

Ela também já abordou o conceito de mais valia a partir do desenho Vida de Inseto: “As formigas juntam os grãos, mas só podem ficar com uma pequena parte, porque a maioria vai para os gafanhotos”.

Laura faz parte de uma geração de influencers dedicados a levar os conceitos marxistas e socialistas para os jovens, utilizando as redes sociais. Dentre eles, um dos nomes mais populares é o de Sabrina Fernandes.

Ecossocialista e vegana

Doutora em sociologia, feminista marxista, ecossocialista e vegana, segundo sua própria definição no YouTube, Sabrina mantém o canal Tese Onze, com 324 mil assinantes e dedicado a vídeos semanais. O nome é uma referência à obra Teses sobre Feuerbach, escrita por Karl Marx em 1845.

Natural de Goiânia, ela tem 32 anos e iniciou sua trajetória de militância no Canadá – ela é mestre em economia política e doutora em sociologia pela Universidade Carleton, professora da Universidade de Brasília e, em 2019, lançou o livro Sintomas Mórbidos: A encruzilhada da esquerda brasileira.

O canal de YouTube surgiu em 2017. Em fevereiro de 2019, quando a revista Época a chamou de “anti-Olavo” em uma reportagem, ela reagiu pelo Twitter: “Único pronunciamento: Tô na Palestina vivenciando e testemunhando verdadeiras atrocidades e não dá pra perder tempo com editorialização desonesta”.

Durante o segundo turno da eleição presidencial de 2018, a socióloga montou uma “banquinha da democracia” na rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, para convencer eleitores indecisos a votar no candidato do PT, Fernando Haddad. Em um de seus vídeos, denominado Por que a esquerda não se une?, ela explica: “Há uma centro esquerda que defende uma normalização do capitalismo, e defende promover uma melhor gestão do capitalismo, para reduzir as desigualdades. Ao mesmo tempo, dentro da esquerda, tem a galera anticapitalista, que está tentando desenvolver um projeto socialista, comunista. São projetos muito diferentes”.

Na sequência, defende: “É importante buscar sínteses. E aí tem a frente tática, que vai debater ações práticas para tirar o Bolsonaro, para combater o fascismo”.

Outro youtuber bastante popular, com 84 mil seguidores no Twitter e 93 mil no YouTube, é Jones Manoel. No blog que mantém dentro da página da editora Boitempo, ele se apresenta como “pernambucano, filho da Dona Elza e comunista de carteirinha. Começou sua militância na favela onde nasceu e cresceu, a comunidade da Borborema, construindo um cursinho popular, o Novo Caminho”.

No vídeo Mao Zedong e o desafio da formação política, ele afirma:
“Mao foi um dos pensadores mais importantes da história do marxismo. Liderou a maior revolução anticolonial e socialista da história da Ásia e do mundo. Mao tem reflexões muito importantes para pensar a questão militar, o trabalho no campo”.

Procurados pela reportagem, Laura Sabino, Sabrina Fernandes e Jones Manoel não aceitaram conceder entrevistas. Mas Henry Bugalho e Humberto Matos, outros influencers com uma quantidade expressiva de seguidores, conversaram sobre sua atuação nas redes sociais.

Bugalho e os “inimigos imaginários”

Nascido em Curitiba em 1980, Henry Bugalho é escritor, tradutor e influenciador digital que já viveu em seis países diferentes. Formado em filosofia pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em literatura e história, ele afirma que seu maior objetivo é “analisar o discurso e a ideologia de grupos, partidos e políticos populistas de extrema-direita no Brasil e em outros países”. Sua página no YouTube tem 559 mil seguidores.

Entre 2015 e 2017, o canal foi utilizado para abordar literatura e cultura. Depois do Brexit e da eleição de Donald Trump, decidiu utilizar seu canal para abordar questões políticas. “Tendo em vista que boa parte da comunicação da extrema-direita se funda na exploração dos ressentimentos de um vasto segmento da população, canalizando a raiva e o medo destas pessoas ao criar inimigos imaginários que estariam ameaçando a estabilidade social (no Brasil, os comunistas, as feministas, os médicos cubanos, a ditadura gayzista, os globalistas, George Soros, os ‘esquerdopatas’ em geral, a ONU, etc.), para mim parecia essencial expor os recursos retóricos e argumentativos utilizados por eles como ferramenta de convencimento, e como isto se trata de um apelo emocional em vez de um discurso racional”.

Para ele, os filósofos estão começando só agora a entender a importância de utilizar as redes sociais. “Boa parte da filosofia produzida hoje nem sequer passa pelas redes sociais, mas são debates travados no interior do espaço acadêmico”, afirma. “Seria necessário que mais pensadores fizessem este caminho das universidades para as redes sociais, de modo a popularizar mais estes debates e ocupar um espaço que foi completamente dominado por negacionistas históricos e da ciência”.

Pouco a pouco, diz ele, “acadêmicos estão compreendendo a necessidade de se comunicar com o público geral, e isto não apenas no campo da Filosofia, mas de outras áreas de conhecimento também”.

Para Henry Bugalho, há diferenças entre as ações, nas redes sociais, da direita e da esquerda. “A esquerda tende a análise mais longas, os tais ‘textões’, e com mais nuances, o que significa que acaba tornando a comunicação mais difícil e truncada para o público geral. A comunicação da (extrema-)direita é muito mais simplificada e direta, através de memes, de slogans e breves frases prontas”.

“Ideologia capitalista”

Por sua vez, Humberto Matos é professor de história, filosofia, sociologia e geografia. Mora em Porto Alegre e define seu projeto, o Saia da Matrix, como “um projeto de luta pedagógica que visa construir o debate político e social com base na razão”. Sua página no YouTube tem 100 mil seguidores e vídeos com títulos como “O longo inverno de Bolsonaro: A necessidade de construção de uma vanguarda revolucionária”.

“Meu objetivo ao usar as redes sociais”, afirma ele na entrevista concedida à reportagem, “é ajudar a construir um campo de militância que se contraponha à ideologia capitalista, porque na verdade todos os veículos de mídia são sustentados pelos anunciantes, que por sua vez lucram com essa situação que está levando o mundo à destruição”.

Para ele, a filosofia produzida no ambiente acadêmico “é extremamente inócua”. “A verdadeira filosofia tem como razão de ser explicar o mundo em que a gente vive”, diz Matos. “A filosofia, a interpretação do mundo, passa necessariamente pelas redes sociais, embora elas não sejam neutras. Toda ágora, todo espaço de debate, é um instrumento da classe dominante. Cabe à classe explorada se colocar e enfrentar essa situação, até que a gente consiga chegar à raiz do problema, que é a propriedade privada, que produz a sociedade de classes. Como já apontou a camarada Sabrina Fernandes, ser radical é um elogio, porque, se o problema está na raiz, temos que alterar o sistema pela raiz. Nesse sentido, somos radicais”.

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