A reação dos “virtuosos” a falas da escritora J. K. Rowling e do comediante Ricky Gervais mostra o pouco apreço pela liberdade de expressão e pela verdade.| Foto: Dia Dipasupil/Getty Images/AFP

O comediante Ricky Gervais cometeu a heresia de zombar de uma ortodoxia contemporânea (bem recente) da intelectualidade que se considera virtuosa: a de que um homem que toma hormônios, passa por cirurgia e se comporta como mulher é de fato uma mulher em todos os aspectos, igualzinho a uma mulher que nasceu assim.

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Em apoio à fala de J. K. Rowling, a famosa autora de livros infantis (e nenhuma conservadora), de que uma mulher transgênero não é mulher — ela estava expressando apoio a uma mulher atacada por ter essa mesma opinião — Gervais publicou um tuíte engraçadinho no qual ria não só da ortodoxia oposta como também, por consequência, da filosofia subjacente de boa parte do pensamento atual sobre os problemas sociais: de que as diferenças de sucesso entre grupos são explicáveis somente e tão-somente por fatores como o preconceito e a discriminação. Escreveu ele:

Essas mulheres biológicas horríveis jamais entenderão o que significa virar uma senhorinha adorável depois de tanto tempo. Elas dão de ombros para seus próprios privilégios femininos. Vencendo em esportes femininos e usando banheiros próprios. Chega.

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Como resultado desse tuíte, ele foi condenado como transfóbico — termo que implica num medo irracional, mas que é usado para acusar uma pessoa por defender ou apoiar atos de agressão e até violência contra transexuais, como se Rowling e Gervais estivessem incitando as pessoas a procurarem transexuais para espancá-los nas ruas. Claro que não se trata disso. Quem usa o termo não diferencia as duas questões: a natureza dos transexuais e como as pessoas deveriam reagir a eles. Uma questão de verdade — se uma mulher transexual não é, em nenhum aspecto, diferente de uma mulher biológica — é transformada numa questão de lealdade a uma nova doutrina cuja não aceitação é interpretada pelos “virtuosos” como um sinal de maldade ou mau-caratismo, de modo que a pessoa que não aceita essa doutrina deve ser ostracizada por todas as pessoas decentes, sofrer discriminação e não ser contratada por ninguém.

A questão, aqui, não é se Rowling e Gervais estão com a razão, embora muitas pessoas possam pensar que sim, eles têm razão, ainda que sintam cada vez mais medo de reconhecer isso em público (por acaso, uma das marcas do totalitarismo). A questão, por outra, é se eles tinham o direito de dizer o que disseram como parte da dinâmica normal do debate público. A reação ao que eles disseram — a veterana feminista Germain Greer também foi objeto de recriminação agressiva por ter dito algo semelhante — sugere que o apego dos grupos de pressão à liberdade de expressão é bem fraco. Eles preferem decretar fatwas.

Um livro didático de farmacologia que usei quando aluno sugeria uma história natural de uma droga recém-descoberta. Primeiro ela era considerada uma cura milagrosa; depois, descrevia-se seus efeitos colaterais e ela era considerada um veneno moral; por fim, descobria-se que ela era útil em certos casos.

Cada vez mais em nosso tempo, as ideias parecem passar por estágios análogos, mas diferentes. Primeiro, elas são absurdas demais para serem levadas a sério; depois, são promovidas e divulgadas; por fim, são transformadas numa fé obrigatória. O ciclo parece ter um catalizador embutido. Mas o fato é que, como o bispo Joseph Butler já disse um dia, “tudo é o que é, e não outra coisa”.

Theodore Dalrymple é editor colaborador do City Journal, ocupa a cadeira Dietrich Weismann no Instituto Manhattan e é autor de vários livros.

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© 2019 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês
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