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Não é de hoje que Donald Trump testa os limites entre política, religião e autopromoção. Nos últimos anos, o discurso do presidente americano ganhou um tom profético, marcado por uma linguagem que tenta dar um caráter quase sagrado à sua trajetória.
Mas uma imagem postada por Trump no último domingo (12), em que ele aparece numa cena inspirada nas representações tradicionais de Cristo, causou um efeito diferente entre seus apoiadores. Desta vez, nem a direita comprou a ideia.
A ilustração, criada por inteligência artificial, mostrava o republicano com uma túnica branca e um manto vermelho. Ele tocava a testa de um homem que parecia doente e irradiava luz sobre sua cabeça.
Uma bandeira americana aparecia ao fundo, entre águias, jatos militares e até a Estátua da Liberdade. Várias pessoas olhavam para o presidente com reverência, entre elas uma enfermeira e uma mulher rezando.
Trump apagou a mensagem horas depois, alegando ter se confundido. Ele não pediu desculpas: disse apenas ter pensado que a imagem o mostrava como um “médico”, alguém que ajuda as pessoas a “ficarem melhores”.
A reação foi dura e inédita, porque partiu do próprio campo cristão-conservador dos EUA — um segmento que, segundo pesquisas recentes, está cada vez mais descontente com o presidente americano.
“Espírito do Anticristo”
Riley Gaines, ativista de direita e apresentadora da Fox News, disse não entender o motivo da postagem. “Deus não será zombado”, ela afirmou, depois de exigir que Donald Trump peça perdão a todos os cristãos.
A jornalista e escritora Megan Basham, do site conservador Daily Wire, classificou a imagem como uma “blasfêmia ultrajante” (e ainda questionou se Trump estava sob o efeito de alguma “substância”).
Para a influenciadora trumpista Isabel Brown, a ilustração era “nojenta e inaceitável”. Conhecida uma das principais vozes da Geração Z na nova direita americana, Brown reforçou que, embora os cristãos busquem ser como Jesus, nenhum ser humano jamais será como ele.
Mesmo figuras ligadas diretamente ao Partido Republicano não pouparam críticas ao presidente. Brilyn Hollyhand, representante da ala jovem da legenda, disse que a fé não deve ser usada como acessório político — e que Trump não tem o direito de se retratar como um “salvador”.
Mais contundente, a ex-congressista Marjorie Taylor Greene, uma histórica apoiadora ferrenha do presidente, afirmou que a imagem feita com IA representava um “espírito de Anticristo”.
“Profundamente ofensiva”
Umas primeiras lideranças religiosas que vieram a público para comentar o episódio foi o Cardeal Joseph Tobin, arcebispo de Newark. Segundo ele, “a exploração gráfica de imagens sagradas é profundamente ofensiva” e uma “falta de respeito pela fé de milhões de pessoas”.
O grupo CatholicVote, normalmente alinhado à direita, também classificou a ilustração como “blasfema”. Em uma nota firme, a entidade afirmou que a postagem cruzava uma linha inaceitável para eleitores católicos.
David Brody, comentarista da rede evangélica Christian Broadcasting, alertou que Trump “passou dos limites”, enquanto o teólogo Doug Wilson (expoente do chamado nacionalismo cristão) elogiou os fiéis que rapidamente se posicionaram contra a “comparação messiânica”.
O padre jesuíta James Martin, consultor direto do Papa Francisco, disse que a imagem era “desequilibrada”, “não cristã” e servia mais ao ego de Donald Trump do que à fé. E até a organização cristã Cavaleiros Templários Internacional, que fez campanha para Trump em 2016 e 2024, retirou temporariamente seu apoio ao presidente americano.
“Exaltação ao líder”
Se a onda de críticas foi intensa, o apoio a Donald Trump nesse episódio apareceu de forma bem mais tímida. Na maioria dos casos, veio como uma tentativa de minimizar os impactos negativos, e não de defender o republicano.
O vice-presidente JD Vance foi o principal soldado de Trump nesse sentido. Em entrevista à Fox News, ele tratou o post como uma “piada” que as pessoas não entenderam. Para Vance, a reação foi exagerada e o foco deveria estar em outras questões mais importantes.
O comentarista conservador Nick Adams, apontado como o criador de versões anteriores da imagem, divulgadas em suas redes há meses, seguiu por outro caminho. Segundo ele, esse estilo visual que combina elementos bíblicos e patrióticos é uma forma legitima de “exaltação ao líder”.
Já a pastora Paula White-Cain, conselheira espiritual do presidente, não citou diretamente a imagem, mas reforçou a narrativa de Trump como uma figura perseguida. Ela comparou as dificuldades enfrentadas pelo republicano às de Jesus (“traído, preso e falsamente acusado”), o que acabou servindo como uma justificativa simbólica para a postagem polêmica.
Houve ainda uma espécie de “meio apoio” vindo do bispo católico Robert Barron, muito popular nos EUA por seu trabalho de evangelização nas plataformas digitais. Barron criticou a imagem e chegou a cobrar um pedido de desculpas, mas defendeu o trabalho do presidente em outras frentes, como a pauta de liberdade religiosa.
No geral, a adesão foi pequena para os padrões do trumpismo. Muitos aliados preferiram ficar em silêncio ou simplesmente mudar de assunto — o que contrasta com o comportamento observado em outras crises, quando os apoiadores do presidente agiram em bloco e de forma combativa.
Desgaste na base religiosa
O episódio da imagem gerada por IA veio num um momento de desgaste na relação entre Donald Trump e os eleitores católicos e evangélicos de cor branca, que formam sua principal base de apoio religiosa. Dados recentes do Pew Research Center (instituto apartidário sediado em Washington) mostram que a aprovação do presidente caiu em todos esses grupos cristãos.
Entre evangélicos brancos, o índice recuou de 78% em 2025 para 69% no início de 2026. No eleitorado católico branco, a queda foi de 59% para 52%. Já os protestantes não evangélicos registraram um recuo maior: de 57% para 46%.
Ainda mais alarmante é o dado sobre “confiança moral”. A parcela de eleitores que dizem confiar que Trump age de forma ética no cargo também caiu em todos os segmentos: de 55% para 40% entre evangélicos, de 39% para 34% entre católicos e de 38% para 26% entre protestantes não evangélicos.
Mesmo assim, esses grupos continuam formando o principal pilar de sustentação do presidente. O apoio entre cristãos brancos segue bem acima da média nacional (hoje em torno de 37% de aprovação) e também supera, com folga, o nível de confiança moral registrado no conjunto da população.
O quadro, portanto, não é de rompimento, mas de enfraquecimento. A base religiosa continua lá, porém menos entusiasmada e menos disposta a endossar todos os movimentos de Donald Trump.
A briga com o papa
No meio de toda essa crise, ainda houve um outro atrito: Trump também comprou briga com o Papa Leão XIV, que vem criticando a escalada militar no Irã.
Em sua rede Truth Social, o presidente partiu para o ataque contra o primeiro pontífice nascido nos EUA. Ele disse que o papa é “fraco no combate ao crime e terrível para a política externa”.
Em outro momento, Donald Trump insinuou que Leão XIV foi escolhido especialmente para lidar com sua administração, como se o republicano tivesse alguma influência sobre a própria eleição do líder da Igreja.
A resposta de Leão XIV veio em outro tom, mais contido, institucional e baseado numa dimensão religiosa. “Colocar minha mensagem no mesmo nível do que o presidente tentou fazer é não compreender o Evangelho”, disse.
O papa ainda garantiu que não vai entrar num debate, pois as palavras do Evangelho são claras: “Bem-aventurados os pacificadores”. E encerrou o assunto com a mesma firmeza: “Não tenho medo do governo americano”.
No fim das contas, ficou evidente quem manteve os limites — e quem resolveu ultrapassá-los.









