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Aqui, se Einstein ressuscitar, não tem nem onde deixar currículo. Tem que esperar abrir concurso. E concurso é essa coisa.
Aqui, se Einstein ressuscitar, não tem nem onde deixar currículo. Tem que esperar abrir concurso. E concurso é essa coisa.| Foto: Pixabay

Nunca alguém fará um texto de três laudas dando um diagnóstico completo dos problemas da universidade brasileira. Meu texto mais recente foi para o cidadão comum, não acadêmico, se inteirar um pouco. O povo acha que na universidade todo mundo é de esquerda e, ainda assim, me mandam fazer concurso. Por quê? Porque acham que concurso de universidade é como os demais: um monte de cruzinha pra marcar. E, por mais que desgoste da moleza dos concursados, o povo tem os concursos em alta conta por serem imunes ao famigerado QI (o “quem indica” patrimonialista). O povo acha que as universidades públicas têm um pó de perlimpimpim que esquerdiza tudo e todos. Não é verdade. A universidade tem chefões patrimonialistas que filtram quem pode dar aulas e quem pode prosseguir nos estudos.

Isso quer dizer que a universidade tem gente boa apesar do seu desenho institucional, que existem bons programas de pós-graduação apesar do desenho do CNPq, que existem bons professores apesar dos concursos. Tudo isso decorre de honradez pessoal. Veja bem: podemos ter o reinado de D. Pedro II na mais alta conta, mas isso não fará de nós uns monarquistas. Porque, afinal, o mesmo regime que nos honrou com Pedro II nos despachou a sua bisavó louca, D. Maria I.

Ninguém sabe quanto ganha Marilena Chaui

Volto ao tema porque o meu texto sobre o assunto atraiu a atenção de acadêmicos também. Os apoios foram públicos e privados e vieram, sobretudo mas não exclusivamente, de gente de humanas. Apoio público vem de concursado; apoio privado, de quem tem que ficar no armário para não se tornar um pária fadado ao desemprego.

Reproduzo aqui um apoio com crítica deixado na caixa de comentários pelo professor aposentado de matemática da Unesp e membro do Centro Lógica e Epistemologia da Unicamp, Jairo José da Silva: “Marilena Chaui ganha mais que R$1.500 por mês como pesquisadora 1A do CNPq, você esqueceu a quota reservada a gastos. A verdade é que há grande disparidade nos critérios de concessão de bolsas de produtividade em diferentes áreas. Na Filosofia, onde o conceito mesmo de produtividade é criticado, a notoriedade conta mais que a produção filosófica medida por critérios objetivos de relevância. Ao contrário de matemáticos, físicos, médicos, geólogos, biólogos e congêneres, os filósofos e cientistas sociais brasileiros raramente dialogam com seus pares fora do Brasil. Formam assim uma tribo provinciana cuja sobrevivência depende da contratação dos alunos para dar continuidade à tradição”.

Eu não me esqueci da quota de gastos; eu não sei, mesmo. Não obstantes as leis de transparência, saber quanto ganha Marilena Chaui é assunto para jornalistas investigativos experientes . Em 2014, a Folha de S. Paulo venceu uma ação e obrigou a USP a divulgar os salários. Constaram vários nomes de marxistas conhecidos ganhando acima do teto, na casa dos vinte mil reais. Voltando à reportagem, vejo que a tabela sumiu. Depois do imbróglio com a Folha de S. Paulo, passou a existir um Portal Transparência da USP, que não funciona. Preencho todos os quadros com dados de Chaui – e só por ser egressa da academia tenho conhecimento suficiente para preenchê-lo – e nada aparece. Testei em mais de um navegador.

Como não cheguei tão longe na academia brasileira quanto Jairo José, não sei das minúcias da vida de docente pesquisador. Sei da vida de pós-graduando. Poderia buscar detalhes em sites do governo, se eles fossem de fato transparentes.

O único valor do meu conhecimento são os referidos 1.500 reais do CNPq, acrescidos à aposentadoria da USP e sabe-se lá mais o quê. Sei é que ela não precisa de 1.500 reais, e correr atrás dessa ninharia valendo-se de prestígio é uma covardia. Há como procurar o nome dela no Portal da Transparência do governo federal (que cobre as despesas do CNPq), mas é tudo muito confuso, bota despesa de viagem com mais visibilidade.

A burocracia das ciências da natureza não é satisfatória

A burocracia das humanidades de fato é o fundo do poço. Premia uma senhora que fica gritando contra a classe média, chamando Moro de agente da CIA a serviço dos EUA, dizendo que querem roubar o pré-sal e que sequer nega a acusação de plagiária feita por Merquior.

Mas daí não se segue que devamos romantizar as ciências da natureza: elas têm seus problemas próprios. Material de trabalho de humanas é livro; e livro, quando não há verba, se baixa pirata em site russo. Além disso, a típica pesquisa de humanas no Brasil é um trabalho monástico: fazer comentário a tal obra, estudar tal coisa com base em tais obras. No máximo, se meter numa aldeia indígena, feito antropólogo, ou aplicar questionário, feito o povo das ciências sociais. Não estou dizendo que deva ser assim; estou dizendo que é. O caso exemplar disso é a área da pedagogia, que deveria ser mesmo interdisciplinar e reunir equipes, mas na prática se resume a comentar Paulo Freire. Seja como for, não há laboratórios em humanas, e muito menos máquinas caras.

Nas ciências da natureza, há. Por isso a disparidade entre o concursado e os seus subordinados não-concursados é muito mais opressiva. Existe um trabalho a ser feito. Existe um líder que não será demitido nunca. E existe uma porção de pós-graduando e recém-doutor doido para encher o currículo com artigo e aumentar as chances de passar num concurso. Resultado: a menos que o concursado seja uma pessoa honrada, ele monta nos subordinados e vive em sombra e água fresca enquanto eles trabalham. Depois, seu nome é incluído como líder do estudo, é publicado, ele ganha pontuação e recebe verba. Com a verba, equipa melhor o seu laboratório, atrai jovens pesquisadores, e… Tem-se um círculo vicioso no qual os subordinados trabalham sem colher frutos (frutos, mesmo, só se passar num concurso) e o chefe não trabalha e colhe os frutos.

Problema análogo é o do cafetão de equipamento. Uma vez que um professor tenha comprado (com dinheiro público) um equipamento, ele poderá “cobrar” dos outros cientistas a inclusão do seu nome no artigo, como preço para usar o equipamento “dele”.

Por fim, há o “trem da alegria”. Para inflar a própria produtividade, cientistas combinam de pôr os nomes dos amigos como coautores. Nesse caso, quem não tiver a sua turma se sai mal e, se os concursados quiserem inflar o currículo de um pupilo, podem mandar que incluam o seu nome em trenzinhos.

E os periódicos? Aí, realmente, varia de área para área. Há anos surgem reportagens sobre periódicos predatórios com Qualis altos. Periódico predatório, no Brasil, não é coisa de humanas, porque humanas publica de graça em português. As ciências naturais pagam para publicar e, no exterior, existem periódicos que publicam qualquer coisa, desde que se pague.

Desde pelo menos 2008, o biólogo da UnB Marcelo Hermes Lima alerta para a pouca relevância internacional das ciências duras brasileiras. Não seria uma boa ideia usar um índice internacional em vez do Qualis, que é o índice estatal brasileiro?

O X da questão

Quanto aos concursos, o que importa não é ser de humanas ou ser de exatas, mas sim se a área está abarrotada de gente cuja única perspectiva de trabalho bem remunerado é concurso. Quem tem mais empregabilidade: um doutor advogado ou um doutor biólogo? O advogado tem como trabalhar fora da área acadêmica e tem até um maior leque de instituições de ensino para empregá-lo. Um biólogo, não. Ele tem currículo demais para se tornar professor de escola – e escola é a guilda dos pedagogos, ainda por cima. Sem beijar a mão de Paulo Freire numa licenciatura, ele não tem emprego em escola. Para os concursos se parecerem menos com o que eu descrevi, a área precisa de duas coisas: ter muita empregabilidade (direito, engenharia, medicina) ou pouca gente. Exemplo de curso com pouca gente? Grego. Biblioteconomia. Museologia.

Não pretendo que os concursos sejam feitos com provas de marcar, nem que haja uma análise cega dos professores que querem entrar. O que falta à universidade e à pesquisa brasileiras é uma autoridade que tome o seu partido. Reitor toma partido das corporações docente e técnica, não da universidade. Vejam o caso da cientista Suzano Herculano Houzel: a Universidade Vanderbilt tinha uma parte interessada que viu os feitos daquela cientista da UFRJ e lhe ofereceu um emprego. Aqui, se Einstein ressuscitar, não tem nem onde deixar currículo. Tem que esperar abrir concurso. E concurso é essa coisa.

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