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Vacina para adolescentes
Itália: Adolescente recebe dose da vacina contra a Covid-19 em Rieti, na Itália, em 06 de junho de 2021. A agência italiana de medicamentos AIFA aprovou em 31 de maio o uso da vacina Pfizer-BioNtech para jovens entre 12 e 15 anos.| Foto: EFE/ EPA / MASSIMO PERCOSSI

Em maio deste ano, a FDA, importante órgão sanitário dos Estados Unidos, autorizou a vacinação para Covid-19 em crianças e adolescentes de 12 a 15 anos, efetivamente baixando a idade mínima de 16 para 12 anos. Desde a autorização, metade dos adolescentes americanos foram vacinados. No Brasil, diferentes políticas andam sendo adotadas, a cargo dos estados e municípios, como determinou o STF. A bula da vacina da Pfizer no Brasil já inclui autorização de uso a partir de 12 anos.

Agora, a Pfizer está propondo baixar essa idade para 5 anos, dando um terço da dose até os 11 anos, alegando que é segura para essas crianças.

No Brasil, as principais vacinas são a Coronavac, a AstraZeneca e a da Pfizer. Têm diferentes tecnologias.

  • Coronavac: tecnologia tradicional de vírus desativado. Para desativá-lo, a Sinovac trata o coronavírus com uma droga que se liga ao material genético dele, impedindo que se reproduza. Esses vírus são então injetados com substâncias para chamar a atenção do sistema imunológico, e o corpo produz anticorpos contra eles.
  • Oxford-AstraZeneca: inseriram um gene do coronavírus no DNA de um adenovírus modificado de chimpanzé, que entra nas células humanas, mas é incapaz de se replicar. A tecnologia é conhecida como vetor viral recombinante. Uma vez dentro da célula, o DNA com o gene do coronavírus é transcrito para mRNA (o “m” é de “mensageiro”), e o mRNA é traduzido na proteína de espícula (proteína S), que é apresentada ao sistema imunológico, que produz anticorpos contra ela.
  • Pfizer-BioNTech (e Moderna): esta vacina fez um atalho direto em relação à AstraZeneca, injetando no corpo o mRNA mencionado. Como ele seria destruído antes de chegar às células se fosse injetado nu, o mRNA é posto dentro de gotículas de gordura, que são as nanopartículas lipídicas capazes de entregá-lo dentro das células. As células então produzem a proteína S do vírus e acontece o resto do processo de imunização como nos outros casos.

Aqui, já é possível perceber por que motivo a Pfizer tem causado mais polêmica: é o método mais distante do tradicional. As nanopartículas têm muita facilidade em se fundir com a membrana das células. A Agência de Medicamentos Europeia (EMA) relata que, em roedores injetados com a vacina de mRNA, a molécula foi encontrada em níveis baixos em todos os tecidos, exceto rins. Foi encontrada no coração, pulmão, testículos e no cérebro. O nível no cérebro era menos de 5% do encontrado no sangue, mas isso mostra que as nanopartículas são capazes de atravessar a barreira entre a corrente sanguínea e o cérebro. Se isso é motivo para preocupação é um assunto ainda em debate. Há artigos de qualidade muito baixa sugerindo que ela pudesse desencadear algo parecido com o mal da vaca louca (não há evidências), e há, também, os que têm muita pressa de diminuir o risco de possíveis complicações no coração, que trataremos a seguir.

Que riscos a Covid-19 representa para crianças e adolescentes?

Considerando testes de anticorpos para o vírus encontrados na corrente sanguínea (seroprevalência) em oito localizações ao redor do mundo, a chance de crianças de zero a nove anos de serem hospitalizadas, uma vez que já se infectaram, é de um em 1000. Para os jovens de 11 a 19 anos, essa chance é de uma em 500. Já a mortalidade dos infectados é de uma em 200 mil para as crianças até nove anos e de uma em 55 mil para os jovens de 10 a 19 anos.

A título de comparação, nos Estados Unidos, o risco de crianças de cinco a 14 anos morrerem de câncer é de dois em 100 mil, similar ao risco de morrer em acidente de trânsito. Crianças, portanto, têm mais chance de morrer de câncer ou acidente de trânsito do que de morrer de Covid-19. Este é o caso geral, o caso para crianças portadoras de comorbidades pode ser outro.

Numa amostra italiana, descobriu-se que só 18% de menores de 20 anos infectados com coronavírus apresentavam sintomas. Em suma, jovens em geral, e crianças em particular, são o grupo mais resistente à Covid-19, seu sistema imunológico é o mais afiado e na vastíssima maioria dos casos lida bem com o vírus sozinho.

Numa amostra de mais de 40 mil pessoas, um estudo calculou que a proteção conferida pela imunidade natural contra reinfecções é de 95,2%. Resta agora comparar essa proteção com a proteção conferida pela vacina. Outro estudo ainda em revisão trouxe uma possível resposta: envolvendo milhões de cadastrados numa base de dados de Israel, descobriram que vacinados com duas doses da Pfizer tinham 13 vezes mais chance de se reinfectarem com a variante delta em comparação a quem teve Covid-19 e se recuperou. Quanto à vacina poder dar um incremento de proteção a quem já teve, há indicações positivas disso na literatura, mas o incremento de uma dose nesse estudo não se mostrou significativo.

Com o surgimento da variante delta do vírus, viu-se um aumento de casos de infecção e hospitalização (porém sem detecção de severidade maior) entre crianças não-vacinadas nos Estados Unidos. A diretora do Centro de Controle de Doenças dos EUA, Rochelle Walensky, declarou que “a cobertura de vacinação protege as nossas crianças”. Porém, a opinião americana não é unanimidade no mundo.

Em 3 de setembro, o Comitê Misto da Vacinação e Imunização (JCVI) do governo Britânico publicou declaração em que recomendou que não se vacine crianças e adolescentes (12 a 15 anos) que não têm problemas de saúde que os ponham em maior risco em caso de contraírem Covid-19. No entendimento do JCVI, o benefício conferido a esse grupo pelas vacinas é apenas marginal, e não ultrapassa um limiar acima dos riscos para justificar a ação. “Para a grande maioria das crianças”, declarou, “a infecção é assintomática ou levemente sintomática e se resolverá sem tratamento.” O comitê oferece uma lista de problemas de saúde para cujos portadores recomenda a vacinação contra Covid-19: problemas de neurodesenvolvimento severos, síndrome de Down, imunossupressão, problemas de aprendizado profundos, severos e múltiplos, neoplasias hematológicas, anemia falciforme, diabetes tipo 1, problemas cardíacos congênitos, asma descontrolada que requer uso contínuo de esteroides e com histórico de internação, fibrose cística, discinesia ciliar, e outras doenças sérias respiratórias, renais, hepáticas, digestivas, esplênicas e genéticas.

Coração Inflamado

O JCVI menciona evidências de associação das vacinas de mRNA à inflamação do músculo do coração (miocardite) nessa faixa etária, mas diz que esse seria um efeito colateral “extremamente raro” com implicações de longo e médio prazo desconhecidas. A literatura especializada relata, também, risco de inflamação do revestimento do coração (pericardite). Usa-se o termo miopericardite para juntar ambas as inflamações.

Essa inflamação associada à vacinação de mRNA foi relatada especialmente em homens jovens, abaixo dos 30 anos, em Israel, França e nas forças armadas americanas. Alarmados pelos relatos jornalísticos, duas equipes se puseram a trabalhar na investigação da associação. Uma publicou um artigo revisto por pares, outra tem um artigo ainda sem revisão.

Em maio, Alex Fleming-Nouri e colaboradores coletaram dados de nove centros de emergência no estado americano de Connecticut, envolvendo 18.671 pacientes entre 16 e 25 anos que tomaram duas doses da vacina da Pfizer (Pfizer-BioNTech BNT162b2), 5.999 que receberam duas doses da vacina da Moderna (também de mRNA), e três que receberam as duas. Os cientistas identificaram, nessa amostra, oito pacientes que desenvolveram miopericardite após tomar a segunda dose, sete deles sentindo dor no peito após três dias. Todos os afetados eram homens. O teste de anticorpos revelou que nenhum deles teve Covid-19 antes. Os afetados tinham níveis elevados de troponinas I e T, específicas do músculo cardíaco, na circulação. Nenhum tinha histórico de problemas cardíacos. Depois de hospitalização por um a quatro dias, todos foram liberados com tratamento medicamentoso. Nessa amostra, o risco de miopericardite foi de 0,03%. Não devemos considerar este um risco geral na população, pois não há garantia que a amostra seja representativa.

Um grupo que se focou especificamente em avaliar a miopericardite infantil associada às vacinas de mRNA foi o da dra. Tracy Høeg, da Universidade da Califórnia, e colaboradores. Este é um estudo que não passou da fase de pré-prelo (preprint), ou seja, ainda não foi revisado por pares e aceito em uma revista científica. O principal resultado do estudo seria que o risco de meninos de 12 a 17 anos terem inflamação no coração após a vacina seria de quatro a seis vezes mais alto que seu risco de hospitalização em até 120 dias após contrair Covid-19. Porém, essas estatísticas não devem ser repetidas acriticamente.

O risco que a equipe usou deriva de dados do VAERS, o Sistema de Relatos de Eventos Adversos das Vacinas dos EUA. O próprio VAERS, criado em 1990, avisa que seus dados não são amostras representativas, portanto, não servem para esse tipo de estudo. Usar o VAERS como fonte desse tipo de informação é como usar enquete política de rede social como se fosse pesquisa de intenção de voto. Qualquer pessoa nos Estados Unidos pode introduzir um caso ao sistema. Sua razão de ser é criar um alerta inicial para motivar mais investigações, não estabelecer relações causais entre problemas relatados e as vacinas. Portanto, como está, o estudo provavelmente será rejeitado pelas revistas científicas por má metodologia. O VAERS foi usado de forma igualmente inadequada por pessoas que insistem numa relação causal entre vacinas e autismo, que já está mais que desacreditada na área. O governo dos Estados Unidos não usa o VAERS como fonte de dados a respeito da segurança das vacinas, usa os bancos de dados VSD e CISA, do Centro de Controle de Doenças. No Brasil, temos os sistemas VigiMedNotivisa e e-SUS Notifica.

Procurada pela reportagem, a Anvisa diz que “a ocorrência de eventos adversos como miocardite e pericardite já são conhecidos da Anvisa, bem como sua maior ocorrência entre homens mais jovens. Isto já está descrito em bula.” A Anvisa ressalta também “que não existem óbitos de adolescentes com relação de causa comprovada relacionada à vacina da Pfizer”.

Um problema nessas notícias e estudos, portanto, é que as amostras raramente têm a qualidade necessária para tirar conclusões mais precisas sobre riscos. No momento, não é possível afirmar que meninos e rapazes correm mais risco de miopericardite por conta da vacina de mRNA do que de serem hospitalizados por Covid-19, especialmente em se tratando da variante delta. Ainda é possível que este seja o caso, mas teremos que esperar por estudos mais bem conduzidos que o pré-prelo da dra. Høeg.

De qualquer forma, até no estudo dela, excetuando o grupo dos meninos até 17 anos, o caso geral é que a vacina de mRNA parece apresentar menos risco que a Covid-19. Isso, porém, não é razão suficiente para decidir a favor de vacinar pré-adolescentes e adolescentes, já que ambos os riscos são baixos e a vacina sozinha não parece dar uma proteção melhor que a imunidade natural, embora possa dar-lhe um incremento. Merecem eco as palavras do comitê britânico (JCVI): as consequências a médio e longo prazo das miocardites são no momento desconhecidas.

Conflitos de interesse

Basta ter uma certa idade para já se ter ouvido falar de situações de atuação antiética por parte de empresas farmacêuticas, incluindo as que agora firmaram contratos com governos ao redor do mundo para imunizar a população contra a Covid-19. Não é monopólio dos paranoicos ou adeptos de conjecturas conspiracionistas uma atitude de desconfiança em relação a essas empresas: basta olhar para o passado.

A campeã de malfeitos é a Pfizer, cujo experimento antiético com o antibiótico Trovan, na Nigéria, durante uma epidemia de meningite em 1996, em que a farmacêutica não informou aos pacientes que havia um tratamento de eficácia já conhecida oferecido no mesmo lugar pelos Médicos Sem Fronteiras, foi tão escandaloso que motivou o livro O Jardineiro Fiel, de John le Carré, e o filme de mesmo nome. Na década seguinte, a Pfizer foi acusada de ocultar dados a respeito da eficácia de seu analgésico Celebrex; Scott Reuben, o médico que a empresa contratou como porta-voz da droga, confessou em 2009 que seus 21 estudos com resultados positivos pela sua eficácia eram fraudes.

É claro que as farmacêuticas ganham a confiança do público todos os dias com suas drogas que são eficazes. São empresas grandes, complexas, que não devem ser tratadas como entidades monolíticas que ora fazem o mal, ora o bem, conscientemente. No entanto, são sujeitas a incentivos: quanto maior for o incentivo a achar atalhos, maior deve ser o escrutínio sobre suas ações. A pandemia trouxe os prováveis incentivos mais fortes de toda a história para essas empresas terem pressa e atropelarem protocolos. Havia a pressa, e havia o dinheiro. Se há uma hora para confiar desconfiando, é agora. Mas não é verdade que a tecnologia de mRNA em nanopartículas foi desenvolvida só com a pandemia, na verdade há um histórico de testes que a antecedem.

Nem todas as informações relevantes estão em publicações oficiais, revistas por pares. Por exemplo, a Academia Americana de Pediatria (AAP) recentemente recomendou a vacinação da Covid-19 para adolescentes. Observadores levantaram desconfiança nas redes sociais, mostrando que a entidade já foi financiada pela Pfizer, que tem interesse na recomendação. Uma checagem jornalística confirmou: houve um investimento de 150 mil dólares da Pfizer na AAP em 2017, e a menção foi removida logo após a polêmica levantada pelo conflito de interesses nas redes sociais.

Para que os ânimos se acalmem nos debates a respeito das vacinas, é preciso lembrar a importância do debate interno à ciência e da competição entre hipóteses. O que está acontecendo, agora, é que autoridades, redes sociais e agências de checagem saltam a tomar um lado de um debate que mal entendem, o que prejudica a necessária resolução dessas controvérsias, que tem como premissa a liberdade de expressar ideias impopulares.

Como diz a filósofa Susan Haack em Defendendo a Ciência, “há uma grande área cinza onde opiniões podem divergir razoavelmente a respeito de uma alegação ser garantida o suficiente para ser posta em manuais, ou se deve ser sujeitada a mais testes, avaliada com mais cuidado diante de uma alternativa, ou o quê; (...) “o” melhor procedimento é que cientistas diferentes, alguns mais ousados, outros mais cautelosos, procedam de formas diferentes”. Nós precisamos de todos: dos cautelosos que se preocupam com os efeitos da proteína S e das nanopartículas no organismo, e dos ousados que impulsionam as descobertas, cortando burocracias no caminho como desbravadores de matas cortam trilha com um facão. A polarização da diversidade cognitiva dos indivíduos em tribos é algo que atrapalha esse processo: tribos são muito piores em se ouvir do que indivíduos.

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