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Literatura russa se torna aliada na recuperação de presos nos EUA

Iniciativa mostra que a “redenção” não é impossível como pensam alguns. Ensinar a pensar na vida e na morte tem consequências impensáveis

  • Susan Svrluga
  • The Washington Post
Os universitários Josh Pritchett (esquerda) e Amelia Wald participam de uma discussão sobre literatura russa com  presos nos Estados Unidos. | Timothy C. Wright/The Washington Post
Os universitários Josh Pritchett (esquerda) e Amelia Wald participam de uma discussão sobre literatura russa com presos nos Estados Unidos. Timothy C. Wright/The Washington Post
 
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Quando seus colegas da Universidade da Virgínia, no Sudeste dos Estados Unidos, discutiam a história de uma camponesa que encontrou alegria em meio à dor e ao isolamento, o estudante e ex-detento Josh Pritchett não fez nenhum comentário.

Isso porque ele estava relembrando sua própria experiência durante o tempo que passou preso, em uma solitária, por brigas violentas. Assim, enquanto os outros falavam sobre o simbolismo na literatura russa do século XIX, ele estava pensando em como, com a passagem dos dias naquela cela fria, os sonhos se tornavam bonitos e a raiva se transformava em serenidade.

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Nesta primavera, Pritchett voltou a ficar atrás das grades – por escolha própria. Ao fazer isso, ele mostrou o alcance inesperado e as poderosas consequências que uma ideia pode ter. Ele achava que já sabia alguma coisa sobre redenção, mas aprendeu o quão relevante e influente o passado pode ser.

Pritchett estava fazendo um curso de literatura russa, na Universidade da Virgínia, que forma parcerias entre alunos de classes abastadas e detentos em um centro prisional juvenil. Juntos, eles discutem obras de autores como Tchekhov, Dostoievski e Tolstoi.

Uma vez por semana, os alunos são revistados por guardas ao atravessar a barreira de arame farpado, e ouvem a batida da porta de metal se fechando atrás deles.

Entre quatro paredes

Josh Pritchett aprendeu a dirigir roubando carros. Aos 17 anos, criou seu próprio personagem – um garoto endurecido e entediado, sendo jogado da casa para o abrigo, do abrigo para a cadeia. Seus amigos mais próximos viviam os mesmos episódios repetitivos e vazios: drogas, brigas, raiva, tédio.

Quando finalmente foi expulso de sua escola na Virgínia, de onde saiu algemado, sentiu uma estranha sensação de alívio: poderia parar de tentar fugir do inevitável final.

Após sua condenação, ele foi temporariamente transferido para um prédio nas dependências do Centro de Correção Juvenil de Bon Air, Richmond, enquanto os funcionários terminavam sua papelada de admissão. Olhando os prédios baixos de tijolos e as altas cercas de Bon Air através da janela de sua cela, ele sentiu o crescente terror e a certeza de que se tornara alguém sem voz, sem poder – aprisionado. Ele estava preso.

Era uma sensação de que ele se lembrava visceralmente anos depois, na Universidade da Virgínia, semanas antes de voltar a Bon Air acompanhando os outros alunos.

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Ele continuava tendo o mesmo pesadelo, com cada vez mais frequência. Em seus sonhos, estava de volta àquela cela, esperando. Acordava no meio da noite com o coração batendo forte, perguntando desesperadamente em voz alta: “Por que estou aqui?”

Na sala de aula, seus pensamentos também continuavam inquietos. Os alunos leram um conto de Turgueniev, “Relíquia Viva”, sobre uma jovem camponesa confinada a uma cabana de apenas um cômodo, e acamada depois de ser acometida por uma doença grave. Apesar de sua condição, ela conseguiu encontrar alegria no som de abelhas zumbindo em sua colmeia, no vislumbre de um coelho selvagem, em sua fé permanente e em seus sonhos vívidos e capazes de transportá-la para longe.

Cada parte da história lembrava a Pritchett sua experiência na solitária, dormindo e dormindo, esperando por uma fuga através dos sonhos. “Eu me lembro de olhar para fora, através da pequena fresta de uma janela, traçando meu dedo no formato das árvores ao longe, olhando para as nuvens”, ele disse, “e tendo prazer com isso”.

Quando Pritchett contou aos colegas de classe sobre seu passado, sua voz tremia.

Mas, depois do choque inicial, seus colegas compartilharam suas próprias revelações; um deles contou sobre um membro da família na prisão. Outro falou de sua depressão. Uma aluna do primeiro ano confidenciou que não se sentia confortável no campus porque todos pareciam tão ricos e privilegiados.

“Foi um momento excepcionalmente íntimo”, disse Andrew Kaufman, membro do corpo docente da Universidade que criou o curso.

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Kaufman citou Tolstoi: “O homem está sempre fluindo. Nele existem todas as possibilidades: ele era estúpido, agora é esperto; ele era mau, agora é bom; e o contrário disso. Nisto está a grandeza do homem.”

Verdades libertadoras

A literatura russa pode parecer uma escolha esotérica para criar laços entre jovens de 19 anos. Mas as perguntas sobre a vida e a morte levantadas pelas histórias podem ser surpreendentes, até mesmo reveladoras. E com todos os envolvidos fora da rotina, há uma vulnerabilidade que facilita conexões.

O curso da Universidade da Virgínia faz parte do projeto de um documentário e de um livro, ainda a ser publicado, sobre como os cursos universitários devem ser profundamente repensados. O curso também estimulou um debate sobre mudanças no sistema de justiça para menores infratores.

Kaufman disse que a intenção do curso é, em sua essência, fazer sentido para o próprio aluno.

Ele força as pessoas a repensarem o que é possível em suas vidas, ponderou Andrew Block, diretor do Departamento de Justiça Juvenil da Virgínia. “Estamos tentando ajudar os jovens no sistema a mudar suas histórias.”

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Anos atrás, logo após Pritchett ser transferido para uma prisão adulta, seu ex-colega de cela fez o curso de literatura russa. Ele escreveu a Pritchett sobre algumas das questões que o curso havia levantado – espiritualidade, morte e o significado da vida.

Na época, Pritchett estava fazendo a si mesmo suas próprias perguntas difíceis, ele se lembrou daquelas cartas anos depois, quando estava fora da prisão, trabalhando duro, acompanhando as aulas na faculdade comunitária e orando por redenção.

Ele já havia provado ser confiável para a loja de ferragens que arriscara contratá-lo. Tornou-se líder no trabalho, na sala de aula e na igreja – alguém extremamente interessado em motivar as pessoas e a continuar mudando seu próprio futuro.

Depois de aceito e matriculado na McIntire School of Commerce, da Universidade da Virgínia, Pritchett se candidatou a uma vaga no curso de Kaufman. Geralmente, cerca de 60 alunos escrevem redações na esperança de participar do curso aberto para 14 pessoas. Aos 26 anos, Pritchett achou surpreendentemente fácil responder a um verso russo sobre solidão. “Algo no poema trouxe à tona, em mim, a luta entre ter controle e confiar em Deus”, afirmou Pritchett.

Foi assim que, nesse inverno, ele se forçou a passar pela cerca de arame farpado, usando sua fé para entrar, hesitante, no centro de detenção Bon Air.

Uma vez lá dentro, era fácil falar às pessoas sobre seu passado.

Ele e Amelia Wald, aluna do terceiro ano, formaram um grupo com Lance Elliott, de 19 anos, e Joseph Mitchell, de 20 anos. Pritchett imediatamente disse a eles: “Eu conheço essa vida, porque eu era um de vocês”.

“Eles quase caíram das cadeiras em que estavam sentados”, disse Amelia.

Risos e lágrimas

Certa tarde, Pritchett se inclinou para frente em uma cadeira de plástico, cotovelos fincados nos joelhos, pronto para falar sobre as histórias. Um forte zumbido mecânico tomou conta da sala construída em blocos de concreto, que servia como sala de aula improvisada, junto com as risadas e conversas de alunos reunidos em pequenos grupos. Elliott e Mitchell, com suas roupas quase idênticas e cabelos curtos, seguravam cópias dos livros.

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Depois de falar sobre determinado conto, eles leram em voz alta a carta que uma mulher escreveu para o marido em um campo de prisioneiros soviético, em algum lugar desconhecido.

Elliott e Mitchell ouviram atentamente uma passagem da carta, com as cabeças inclinadas para a frente: “Eu entendo tão claramente, e sofro com a dor de entender que aqueles dias de inverno, com todos os problemas, foram a maior e última felicidade a ser concedida a nós na vida.”

“Isso é profundo”, disse Elliott. “Escrever uma carta sabendo que você não pode enviá-la – isso é amor.”

Pritchett, de jeans e tênis de cano alto desamarrado, leu: “Todo o meu pensamento é sobre você. Cada lágrima e cada sorriso são para você. Eu abençoo todos os dias e todas as horas da nossa amarga vida juntos, meu querido, meu...”

“Vou usar isso”, disse Mitchell, e os outros riram.

“Estou falando sério”, disse ele. “Vou apenas adaptar um pouco.”

“Você está copiando o estilo de escritores russos!”, Amelia brincou com ele.

Ele balançou a cabeça e sorriu. “Isso vai me arrumar um casamento!”

Pritchett continuou lendo: “Agora choro e choro e choro.”

“Caramba”, disse Elliott. Longa pausa. “Gostei disso, de verdade – é um amor profundo.”

Ele e Mitchell conversaram sobre cartas que escreveram e que os fizeram chorar – uma para a ex-namorada, outra se desculpando com um familiar pela mágoa que causara por causa de seus crimes.

Pritchett havia escrito sobre sua irmãzinha, que o visitava quando ele estava preso – ela tinha 8 anos de idade e era revistada pelos guardas.

Elliott concordou com a cabeça. “Escrever é uma ferramenta poderosa. Muito poderosa.”

Algumas vezes riam tanto que tinham de enxugar as lágrimas. Outras vezes, eles ficavam tão sérios que precisavam tomar fôlego, para não embargar a voz.

Kaufman interrompeu todas as conversas: “Os seguranças chegarão a poucos minutos. Temos que encerrar.”

“Relíquia viva”

Quando os guardas levaram Pritchett e o resto da classe embora, Mitchell ficou em silêncio. Ele acabara de perder um membro da família. Algumas horas antes de os alunos chegarem, ele estava em silêncio, dilacerado pela morte e por não poder ir ao funeral.

Mas lembrou-se de que, ao ler “Relíquia Viva”, ele entendeu que algumas pessoas poderiam suportar o impensável se escolhessem encontrar alegria na vida. Mitchell se lembrou das pessoas que amava e sentiu-se grato. E pensou: “Eu preciso desta aula.”

Mitchell disse que se recordará da aula quando as coisas ficarem difíceis para ele do lado de fora, como Pritchett avisou que ficariam, enquanto ele estiver trabalhando para mudar seu futuro. “Vou escrever na minha mesa ou no meu carro: ‘Relíquia Viva’. Vou ficar olhando para a frase no painel.”

“Talvez eu faça uma tatuagem”, disse. “Eu sempre vou me lembrar disso.”

A conversa com Pritchett fortaleceu sua determinação de conseguir um emprego no estaleiro, quando fosse solto, e de ir para a faculdade.

“Ele não precisava fazer isso”, disse Mitchell. “Ele não precisava voltar e contar sua história.”

Valeu a pena?

Depois da aula na prisão, os alunos caminharam até os carros estacionados do lado de fora da fila de detentos que estavam sendo levados de volta para suas unidades.

A única coisa que os separava era a cerca, pensou Pritchett.

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Os alunos estavam rindo e conversando sobre aonde poderiam tomar um sorvete.

Pritchett ficou pensando na tênue linha que separava os dois grupos.

“Qualquer pessoa que eu esteja ajudando é quem eu costumava ser e quem eu ainda sou”, considerou. “E isso é mais importante do que qualquer outra coisa que eu possa fazer.”

Amelia Wald estava grata pela maneira como Elliott e Mitchell a ajudaram. “Eu me senti mais confortável estando vulnerável e compartilhando minha batalha de saúde mental com o nosso grupo em Bon Air do que com alguns dos meus amigos de mais longa data.” Amelia contou a Elliott e Mitchell sobre as consequências de uma séria lesão que sofrera na coluna quando uma picape a atropelou no primeiro ano da universidade.

“Relíquia Viva” também havia tocado Amelia, especialmente depois de ouvir Mitchell e Elliott falarem sobre o conto. “Eu deveria encarar o sofrimento como uma maneira de crescer e aprender.”

Em seu trabalho de conclusão de curso, Pritchett descreveu como aquele semestre havia sido intensamente surreal, ao confrontar um passado que ele vinha tentando enterrar por anos.

Essa sensação de surrealismo esteve presente do começo ao fim, até Pritchett começar seu estágio de verão em uma firma de investimentos, em Manhattan. Quando chegou o dia de entregar o trabalho final, Kaufman compartilhou, como exemplo, um ensaio escrito por um ex-aluno da universidade. Pritchett descobriu, para sua surpresa, que aquele aluno escrevera sobre sua experiência com alguns de seus amigos de prisão.

Ele se lembrou de quando jogava ping-pong com um deles, de comemorarem juntos aniversários e até Natais. O amigo era seu companheiro de cela, com quem ele compartilhara seu cubículo por cerca de oito meses, o mesmo amigo que escreveu a Pritchett, anos atrás, sobre o estudo da literatura russa.

Voltar a Bon Air e reconhecer esses nomes fez com que Pritchett sentisse a falta desses amigos e daquela parte de si mesmo. Quando procurou por um deles – com quem costumava rir, cantando letras de rap –, ficou sabendo que havia sido morto anos após ser solto, na época em que Pritchett estava deixando para trás seu passado.

Pritchett percebeu que havia se esquecido de onde viera, como personagem de romance russo. Percebeu que a vida é finita. Ele sabia como observar as nuvens passando pela fenda de uma janela para encontrar liberdade e beleza, mesmo nos momentos mais sombrios, mesmo em isolamento.

“Ainda não acabou”, disse Pritchett. “Não sei o que vai acontecer no ano que vem, ou nos próximos cinco anos. A história vai continuar.”

Pritchett entregou seu trabalho de conclusão. “Este curso”, escreveu ele, “foi inesquecível”.

©2018. The Washinton Post. Publicado com permissão. Original em inglês.

Tradução: Ana Peregrino

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