Aproximadamente 40% dos norte-americanos nunca viveu numa época em que não houvesse um Bush ou um Clinton na Casa Branca. E com Hillary Rodham Clinton esperando conquistar mais quatro ou oito anos, já começa a entrar em discussão um excesso da dobradinha Bush-Clinton.

O domínio das duas famílias sobre a política presidencial não tem precedentes -- a comparação mais próxima talvez seja com a dobradinha pai e filho de John Adams e Quincy Adams, cujos mandatos foram separados por 24 anos e pelas presidências dos primos de quinto grau Theodore Roosevelt e Franklin Roosevelt, cujos 20 anos de presidência juntos foram separados por um quarto de século.

"Agora temos uma geração mais jovem e uma geração de meia-idade que irá pensar em política nacional pelo prisma Bush-Cliton" disse o historiador político de Princeton Julian Zelizer, de 37 anos, cuja primeira oportunidade de votar para presidente foi em 1988, ano em que o primeiro Bush foi eleito.

E quando o assunto é fadiga, Zelizer acrescenta: "não é apenas o fato de termos ouvido o nome deles repetido muitas vezes, mas sim o fato de termos tido muitos problemas com esses nomes".

E agora, caso Hillary Clinton seja eleita e reeleita, os EUA poderiam passar por 28 anos seguidos das mesmas duas famílias governando o país. Acrescente à equação o mandato de Bush sênior com vice e isso significaria 36 anos direto de Bush ou Clinton na Casa Branca.

Para 116 milhões de norte-americanos, nunca houve uma época sem um Bush ou um Clinton na Casa Branca, seja como presidente ou vice-presidente. Será que um país de 303 milhões de pessoas só possui duas famílias qualificadas o bastante para comandá-lo?

Dinastias

David Gergen, diretor do Centro de Liderança Pública da Universidade de Harvard e consultor dos presidentes Nixon, Ford, Reagan e Clinton, disse que existe preocupação sobre a possibilidade de dar às "duas dinastias" mais quatro ou oito anos.

"Creio que seria fundamentalmente saudável se nós ampliássemos o espectro de candidatos que chegariam ao topo", ele disse. Historicamente, a política tem sido aberta para recém-chegados que se erguem para refletir os sentimentos de base de uma nação, disse Gergen.

Isso ainda é possível, declarou ele, "mas está ficando mais difícil do que antes, principalmente porque é muito difícil conseguir doações" para campanhas nacionais caras.

Os Clintons e Bushes, disse ele, construíram uma forte "imagem de marca" para seus nomes – da mesma maneira que os Kennedys, numa época de promessas que foram podadas antes da hora por assassinatos – fazendo com que seja difícil para recém-chegados competirem com eles.

Mas, às vezes, as pessoas querem tentar algo novo. Uma pesquisa da NBC/Wall Street Journal realizada no último verão descobriu que um quarto dos americanos disse que a perspectiva de terem mais 24 anos de Clinton ou Bush na presidência seria algo a se considerar em seu voto em 2008.

Mesmo entre os democratas, 17% disseram que isso seria levado em conta. Isso em comparação a um terço dos republicanos.

O país mudou muito desde que o primeiro Bush assumiu o Salão Oval em 1988: naquela época, a União Soviética estava experimentando a idéia de perestroika, uma internet pública ainda era apenas uma promessa, a gasolina custava cerca de US$1 o galão e Hillary Clinton ainda era uma advogada tentando virar sócia da Rose Law Firm, em Little Rock, Arkansas.

Clinton, atualmente uma senadora de 59 em seu segundo mandato, já foi questionada a respeito do longo controle da dobradinha Bush-Clinton sobre o Salão Oval em dois debates democratas, e tem uma resposta dividida em duas partes. Ela critica a parte de Bush na equação histórica e elogia o lado Clinton da história.

Questionada no debate pela "CNN/Youtube" em julho deste ano se acrescentar mais um Clinton à seqüência traria de fato alguma mudança verdadeira, ela contava com uma resposta na ponta da língua.

"Bom, acho um problema o fato de Bush ter sido eleito em 2000", disse ela: "Eu acho que na verdade outra pessoa foi eleita naquela eleição". Quando a questão surgiu novamente no debate desta semana em New Hampshire, ela disse ao público: "Achei que Bill foi um bom presidente".

Ela acrescentou ainda que ele está fazendo isso por conta própria e que também "está indo falar com as pessoas por conta própria".

Gergen disse que qualquer fator de fadiga que Clinton enfrente será "encoberto por uma nostalgia positiva por Clinton e pelos democratas".

Fadiga

A idéia é apoiada por Todd Gitlin, professor da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, que escreveu um novo livro sobre política nacional. Ele disse que enquanto algumas pessoas se sentem incomodadas pela dominância das duas famílias, "agora existe uma enorme fadiga nos EUA em relação a George Bush. Nenhum outro cansaço se compara a isso".

Mas, mesmo que as questões não sejam um problema para Clinton, Gitlin declarou ainda: "será que é um problema maior o fato de estarmos alternando entre dinastias? Sim, acho que uma democracia deveria se expandir além disso."

Até quando essa dinâmica própria de dinastias poderá ser sustentada? "Fique de olho nos filhos deles", diz Gergen. E há sempre o irmão presidencial Jeb Bush, ex-governador da Flórida. Seu filho mais velho, George P.Bush, é considerado um provável herdeiro da tradição política familiar para a próxima geração. Uma dobradinha Bush-Bush em 2012? É possível!

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