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Os oficiais que mataram o brasileiro Jean Charles de Menezes buscar tinham recebido instruções de usar táticas novas, mortíferas e "incomuns" para deter um possível terrorista suicida, afirmou nesta terça-feira (2) a advogada de acusação Clare Montgomery, no julgamento da Scotland Yard.

Jean Charles, de 27 anos, foi morto a tiros em 22 de julho de 2005, na estação de metrô de Stockwell (sul de Londres) por policiais que o confundiram com um terrorista suicida. A morte ocorreu um dia depois dos atentados frustrados contra a rede de transportes londrina, que foram registrados duas semanas após os ataques terroristas que mataram 52 pessoas e deixaram centenas de feridos em 7 de julho de 2005.

Na segunda audiência do julgamento, Montgomery disse nesta terça-feira (2) que a equipe de policiais recebeu pistolas carregadas com uma munição especial capaz de causar uma morte rápida e impedir que a pessoa pudesse reagir.

Segundo Montgomery, os agentes receberam instruções em uma reunião especial, realizada duas horas após uma operação de vigilância - também em 22 de julho - em um bloco de apartamentos do sul de Londres. Acreditava-se que lá vivia o terrorista Hussain Osman, um dos envolvidos nos atentados fracassados de 21 de julho de 2005 contra a rede de transportes da capital britânica.

Os agentes pensavam que tinham que realizar disparos na cabeça de algum possível suicida, segundo Montgomery. Durante a reunião, os agentes foram informados de que teriam que "usar táticas incomuns que o departamento não tinha usado antes", acrescentou.

A advogada afirmou que o líder da equipe de agentes armados, que respondia pelo pseudônimo de "Ralph", recebeu a confirmação por rádio que Jean Charles era "definitivamente" quem procuravam, mas no final descobriu que era uma pessoa totalmente inocente.

A Scotland Yard é processada por crimes contra a lei de Segurança e Higiene no Trabalho, de 1974, que obriga as forças de segurança a velar pela integridade inclusive daqueles que não são seus empregados.

O julgamento

A morte do brasileiro Jean Charles de Menezes foi resultado de "erros fundamentais" da polícia. A afirmação foi feita pela promotoria britânica, após a abertura nesta segunda-feira (1) em um tribunal de Londres do julgamento contra a Polícia Metropolitana.

"Esta morte poderia ter sido evitada", afirmou ao júri a advogada da promotoria, Clare Montgomery QC, que acusou a Polícia Metropolitana de não ter garantido a segurança do brasileiro, que foi baleado por policiais ao ser confundido com o terrorista etíope Osman Hussein, em 22 de julho de 2005.

"A morte foi resultado de erros fundamentais da polícia, que não implementou a operação planejada de maneira segura e razoável", acrescentou a advogada, antes de acusar a Scotland Yard de violar as normas de saúde e segurança, já que não executou a operação antiterrorista no metrô Stockwell sem expor a perigo o público, incluindo Jean Charles.

O julgamento no tribunal Old Bailey teve início depois que os seis homens e seis mulheres selecionados como membros do júri prestaram juramento.

Os familiares de Jean Charles de Menezes criticaram novamente nesta segunda-feira, antes da abertura do julgamento, a decisão da justiça britânica de não processar individualmente os 15 policiais envolvidos na morte por falta de provas.

Mesmo se for considerada culpada, a Scotland Yard deve ser no máximo condenada a pagar uma multa.

A previsão é de que o julgamento contra a Scotland Yard, a ser realizado no tribunal criminal de Londres, conhecido como Old Bailey, dure um mês e meio. Livro sobre o caso

A trágica história, que mistura imperícia, negligência, erros e arrogância de uma das polícias mais famosas do mundo foi recontada pelo escritor Ivan Sant’Anna, no livro "Em Nome de Sua Majestade" (editora Objetiva). Uma tragédia que começou quando o agente secreto, que urinava atrás da árvore, identificou o alvo errado.

"O agente estava em frente ao prédio desde 6h04. Exatamente às 9h30, ele foi atrás de uma árvore, porque estava vontade de ir ao banheiro. Neste momento, o Jean Charles saiu de casa. Foi um erro absurdo porque ele não decorou a cara, a fisionomia do terrorista que estava procurando. Então, ele teve que filmar com um celular e mandar para o comando da polícia para que a central decidisse se era o Osman - o terrorista -, ou não", explica Ivan Sant’Anna.

A partir da falsa identificação, foram 33 minutos de perseguição pelas ruas da área em que Jean Charles morava. Três outros agentes, identificados pelo codinome "hotel", partiram no encalço do brasileiro. Jean Charles foi de ônibus até a estação do metrô mais próxima. Os agentes secretos também embarcaram.

"Se o Jean Charles era um homem-bomba, porque o deixaram entrar no ônibus? Se, 14 dias antes, um homem havia se explodido em um ônibus, em Londres, matando um monte de gente", indaga o escritor.

Apesar de todas as provas, os policiais envolvidos foram inocentados. Segundo a Justiça britânica, eles teriam agido em defesa da coletividade. Harriet Wistrich, advogada da família de Jean Charles, ainda insiste. Ela pretende recorrer, alegando o erro da polícia, que, em vez de proteger, matou um cidadão inocente. A advogada reconhece que, se ganhar a causa, a indenização pode não passar de 10 mil libras, cerca de R$ 40 mil.

"O importante não é o valor", conforma-se a advogada. "O que eu quero é corrigir essa história", afirma.

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