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Eleições

Com Espriella eleito e Fujimori quase, direita se aproxima de virada na América do Sul

O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, comemora em evento em Barranquilla na noite de domingo (21) (Foto: Juan Diego López/EFE)

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Com Abelardo de la Espriella vencendo o segundo turno da eleição presidencial na Colômbia neste domingo (21) e Keiko Fujimori liderando a conturbada apuração no Peru, a direita da América do Sul está perto de “virar” o jogo político no subcontinente.

No início de 2023, quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu seu terceiro mandato no Brasil, o subcontinente tinha oito mandatários de esquerda (na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Guiana, Suriname e Venezuela) e apenas quatro de direita (Equador, Paraguai, Peru e Uruguai).

Três anos e meio depois, o jogo político está perto de ser revertido. Contando já o triunfo de Espriella na Colômbia e a provável vitória de Fujimori no Peru – com 99,691% das atas eleitorais contabilizadas, ela tem cerca de 40 mil votos de vantagem sobre o esquerdista Roberto Sánchez –, a América do Sul ficará dividida entre sete governos de direita (Argentina, Paraguai, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru) e cinco de esquerda (Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Uruguai).

Nas eleições de 2025 na América do Sul, a esquerda manteve os governos do Suriname e da Guiana, mas perdeu a Bolívia (onde Rodrigo Paz foi eleito) e o Chile (com a vitória de José Antonio Kast) e viu o conservador Daniel Noboa ser reeleito no Equador.

No caso da Bolívia, o fracasso da esquerda foi ainda mais marcante porque o partido Movimento ao Socialismo (MAS), que estava no poder de forma quase ininterrupta desde 2006, sequer chegou ao segundo turno, que foi disputado por Paz e por outro candidato conservador, Jorge “Tuto” Quiroga.

Em 2026, já houve a vitória de Espriella na Colômbia e Fujimori está perto de conseguir o mesmo no Peru. Este ano, ainda haverá eleição presidencial no Brasil, em outubro.

Em entrevista à Gazeta do Povo, Frederico Dias, professor de relações internacionais do Ibmec Brasília, afirmou que grande parte do eleitorado sul-americano é atraída pelo discurso da direita de “ordem, previsibilidade e governabilidade mínima”, embora a situação de cada país e os perfis dos presidentes eleitos tenham suas particularidades.

“No Equador, por exemplo, Daniel Noboa venceu eleições com um discurso liberal e de linha-dura contra o crime, em reação direta à crise de violência e ao desgaste do movimento do ex-presidente de esquerda Rafael Correa”, afirmou.

“No Peru, Keiko Fujimori e [Rafael] López Aliaga [candidato de direita nacionalista que ficou fora do segundo turno por apenas 21 mil votos] capitalizaram três medos centrais do eleitorado: insegurança pública, colapso institucional e instabilidade econômica”, disse Dias.

“No caso peruano, a direita lidera não por consenso ideológico, mas pela ausência de alternativas confiáveis e pela promessa, ainda que frágil, de encerrar uma década de instabilidade extrema”, acrescentou, em referência aos oito presidentes que o Peru teve desde 2016, quando o esquerdista Ollanta Humala foi o último mandatário a cumprir na íntegra o mandato de cinco anos, e às condenações judiciais de vários ex-presidentes.

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À Gazeta do Povo, Adriana Melo, especialista em finanças e tributação, também afirmou que Noboa, Paz, Kast, o argentino Javier Milei, Fujimori e Espriella têm cada um suas características, “alguns são direita dura, outros são centro-direita pragmática, outros são fenômenos antissistema”, mas sua ascensão têm o ponto em comum de traduzir “uma mudança global de humor político”.

“O eleitor, em vários países, está menos interessado em grandes promessas ideológicas e mais preocupado com segurança, custo de vida, imigração, emprego, fronteiras, estabilidade e capacidade de entrega do Estado”, disse Melo.

“Na América do Sul, isso aparece de forma muito concreta. Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru têm histórias diferentes, mas compartilham uma sensação parecida: aumento da insegurança, desgaste de governos de esquerda, frustração econômica e percepção de que o Estado promete muito e executa pouco. Quando isso acontece, o eleitor não faz seminário acadêmico: ele troca o gerente”, afirmou a analista.

Nesse sentido, destacou a analista, os Estados Unidos “entram como acelerador desse processo”, já que, com Donald Trump na Casa Branca, “para mercados e elites econômicas, governos mais alinhados a Washington também tendem a ser lidos como mais previsíveis em segurança, investimento e política econômica”.

Victor Missiato, professor de história do Mackenzie Tamboré e analista político, disse que a América Latina vem passando por “pêndulos eleitorais” nas últimas duas décadas, com ondas de governos de esquerda e direita se alternando, e que o momento dos últimos três anos é mais favorável ao segundo espectro depois que gestões de “candidatos mais outsiders à esquerda” não conseguiram resultados.

“Então, isso faz com que a direita cresça novamente com o discurso principal da segurança pública e, ao mesmo tempo, do controle das contas públicas”, afirmou Missiato.

“Por estar vivendo um momento de inflação, por questões internacionais, mas também por questões nacionais, por estar vivendo um problema de déficit nas contas públicas, a sociedade latino-americana tende a aderir cada vez mais a uma busca por uma estabilidade das suas moedas, do controle econômico. Então, tudo isso favorece um discurso mais à direita”, concluiu.

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