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Ao cruzar para a Colômbia, comida venezuelana vale 10 vezes mais

Mesmo com os venezuelanos passando fome, a comida subsidiada pelo regime chavista continua passando para a Colômbia, onde é vendida por até 10 vezes mais do que custa na Venezuela

  • Oscar Medina, Matthew Bristow
  • Bloomberg
Policiais Fiscais e Aduaneiros patrulham as rotas de contrabando perto de Cúcuta, na Colômbia | Ivan Valencia/Bloomberg
Policiais Fiscais e Aduaneiros patrulham as rotas de contrabando perto de Cúcuta, na Colômbia Ivan Valencia/Bloomberg
 
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Uma semana depois de o regime de Nicolás Maduro trancar a fronteira, não há sinais de que os caminhões de ajuda humanitária sejam permitidos na Venezuela a partir de sua rota no leste da Colômbia. Os alimentos, na verdade, estão indo na direção contrária: da Venezuela para a Colômbia.

As prateleiras dos mercados na humilde cidade colombiana de Puerto Santander estão lotados com farinha de milho venezuelana, arroz, queijo. Estes e outros bens de consumo altamente subsidiados estão sendo contrabandeados por funcionários do governo e cidadãos comuns e vendidos com grandes margens de lucro. A gasolina também é contrabandeada da Venezuela, já que as pessoas buscam lucrar com as oportunidades criadas pelas distorções extremas de preço. 

Levar comida para fora de um país onde a fome está se tornando epidêmica é um retrato de como o governo socialista de Maduro criou um desastre econômico e humanitário. Embora esse comércio no mercado negro já ocorra há anos, é chocante testemunhar isso num momento em que grande parte do mundo tem apoiado os esforços do rival de Maduro, Juan Guaidó, para levar suprimentos de emergência para o país.

"Deixa você irritado ao ver esses produtos à venda", disse Lisbeth Cisneros, 28, grávida e mãe de quatro filhos que fugiu da cidade venezuelana de San Cristobal há três meses e trabalha como vendedora ambulante no lado colombiano da fronteira. "A situação é horrível por lá."

Para amenizar essa situação – e reforçar sua tentativa de acabar com o regime autoritário de Maduro – Guaidó convocou protestos para pressionar o governo a deixar que os alimentos e outros bens doados pelos EUA passem. Na terça-feira (12), ele disse que os materiais devem entrar no país no dia 23 com a ajuda de milhares de voluntários, em uma operação que começará a ser organizada neste fim de semana . Para Maduro, os suprimentos são um pretexto para uma invasão, enviados para humilhá-lo e enfraquecê-lo e a vice-presidente Delcy Rodríguez chegou a dizer que a comida trazida dos EUA estava envenenada. As forças de segurança do regime estão usando contêineres e um reboque para bloquear uma ponte internacional não utilizada perto do armazém em Cucuta, onde as doações estão armazenadas.

Saiba mais: Guaidó diz que ajuda humanitária entrará na Venezuela ‘quer queiram, quer não’

Transação lucrativa

O tráfego de contrabando, enquanto isso, continua em movimento. O volume de alimentos que passam pela fronteira diminuiu recentemente, à medida que a crise na Venezuela se aprofundava, de acordo com vendedores na Colômbia, mas muitos disseram que ainda têm muito a vender, enquanto os venezuelanos esperam em longas filas pelo pouco que está disponível em suas lojas. 

O comércio é rápido nas bancas do mercado em Puerto Santander, onde os pacotes de farinha de milho venezuelana – usada para fazer arepas, um alimento básico em ambos os países – custam 2.500 pesos, ou cerca de 80 centavos de dólar. Isso é cerca de 30% menos do que é cobrado por produtos lícitos. E na Venezuela? O preço subsidiado para a farinha é de cerca de 7 centavos de dólar.

Ao longo de uma estrada próxima à fronteira, dezenas de postos de gasolina improvisados vendem abertamente o combustível venezuelano. A taxa atual: US$ 10,60 por cerca de 22 litros, comparado a US$ 14 em uma bomba de gasolina colombiana regulamentada (que não há nesta estrada).

Os dois governos trabalharam juntos no passado para reprimir o contrabando, mas agora não mais. "Não há comunicação agora", disse o coronel Carlos Giron, chefe da polícia alfandegária na província colombiana de Norte de Santander, mesmo "com uma fronteira tão turbulenta como esta".

Leia mais: Em meio a protestos, círculo interno de Maduro continua sem rupturas

O combustível pirata chega em barcos estreitos de madeira que fazem a travessia do rio até Puerto Santander, em plena vista da Guarda Nacional Venezuelana e das autoridades colombianas nos postos de controle entre os dois países.

Um comerciante disse que gangues armadas que controlam o comércio cobram uma taxa de 4.000 pesos, o equivalente a US$ 1,30 por cada contêiner. Como a gasolina na Venezuela custa quase nada, os maiores custos são subornar funcionários do país e pagar a máfia na Colômbia. Giron disse que as pessoas que vendem o contrabando de petróleo podem obter lucros que superam o que o traficante de cocaína obtém.

Os problemas venezuelanos

No momento, a gasolina ainda é abundante na Venezuela, embora as últimas sanções dos EUA, impostas no mês passado à estatal petrolífera, possam levar a interrupções no fornecimento. As pessoas já estão vivendo com entregas esporádicas de eletricidade e água.

Saiba mais: Na Venezuela de Maduro, milhares de bebês são abandonados

O país foi atacado por um colapso econômico selvagem, com inflação anual de 380.000%, segundo o Cafe Con Leche Index, da Bloomberg. Está em turbulência política também, com Maduro, reeleito como presidente no ano passado em uma votação fraudulenta, enfrentando Guaidó, presidente da Assembleia Nacional reconhecido por dezenas de países como o legítimo chefe de governo. 

Na segunda-feira, o campo de Maduro jogou seu mais recente cartão em um impasse de ajuda humanitária. Freddy Bernal, ex-comissário de polícia e prefeito de Caracas, disse em uma coletiva de imprensa que o Partido Socialista Unido de Maduro planejava abrir um acampamento de jovens no lado venezuelano da ponte bloqueada. Bernal descreveu: "Um campo pela paz e contra a interferência imperialista na fronteira".

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