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Londres (Folhapress) – Se atentados terroristas se tornarem freqüentes na Grã-Bretanha, a ainda confortável posição do primeiro-ministro Tony Blair e a de seu ministro das Finanças e provável sucessor, Gordon Brown, deverão ser abaladas, de acordo com especialistas britânicos em geopolítica.. "Não pensava que Blair pudesse ficar enfraquecido só em razão dos atentados do dia 7, pois a oposição não podia atacar sua atitude sobre a guerra do Iraque por tê-la apoiado e ele teve uma reação à tragédia que inspirou a confiança das pessoas", analisou Torun Dewan, da London School of Economics and Political Science (LSE).

"A ocorrência de novos ataques deverá, todavia, mudar esse quadro e não deixará ileso nem o todo-poderoso Brown. Afinal, antes da eleição legislativa de maio passado, ele disse que, se fosse premier, também teria apoiado a invasão do Iraque. Ora, outros atentados deverão alimentar a percepção popular de que Londres é alvo do terrorismo por conta da aventura militar britânica no Iraque."

De fato, analistas afirmaram, antes do pleito, que Blair e Brown fizeram um acordo: em troca do apoio incondicional do ministro das Finanças, o primeiro-ministro teria concordado em abrir mão do poder em favor do fiel e popular aliado em um ano ou dois. Vale lembrar que a economia britânica vai bem (uma exceção dentro do quadro recessivo visto no restante da Europa) e que isso fortalece a posição de Brown.

O ministro tem procurado se manter longe dos holofotes ultimamente, talvez buscando distanciar-se de possíveis críticas ligadas à participação britânica no conflito iraquiano. "Brown não quer envolver-se com a crise atual", avaliou Dewan. Desde o início da guerra, em março de 2003, o governo de Blair tem sido um aliado incondicional do presidente dos EUA, George W. Bush, o que tem lhe custado críticas domésticas e externas. Blair enfrentou inclusive os principais sócios da União Européia – França e Alemanha – para seguir adiante no apoio à guerra do Iraque.

Assim, num quadro em que a oposição só pode atacar a ineficiência do governo no que tange à proteção do território (sem apresentar alternativas mais eficazes), sendo privada da oportunidade de criticar a guerra do Iraque, como fizeram os socialistas espanhóis após o 11 de março, o maior perigo para Blair e para Brown é a esquerda do próprio Partido Trabalhista.

"Há uma corrente trabalhista que é contrária à política econômica liberal de Brown e à política externa de Blair. Uma de suas figuras de ponta é o prefeito de Londres, Ken Livingstone, que já fez duras críticas às políticas ocidentais e de Israel e relacionou a guerra do Iraque ao terrorismo que agora domina Londres", disse Patrick Dunleavy, também professor da LSE.

"Não se pode descartar a possibilidade de essa tese ‘colar’ nem a de que uma parte considerável da população passe a pensar dessa forma, o que enfraqueceria tanto Blair quanto Brown em benefício do populismo de Livingstone."

É, portanto, vital para o futuro político de Blair e, sobretudo, para o de Brown, que não haja novos ataques terroristas na Grã-Bretanha a curto e médio prazos. Afinal, novas bombas e mortes deverão agravar o temor da população em relação à sua segurança. E, inevitavelmente, isso acabará atingindo o establishment político, por ora ainda favorável ao grupo do primeiro-ministro.

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