Ciganos preparam flores para serem vendidas em Kiev, capital da Ucrânia| Foto: BRENDAN HOFFMANNYT

Os ciganos que vivem em acampamentos de lona e prédios abandonados em Kiev ou nos arredores da capital da Ucrânia dizem que ganham dinheiro de maneira inofensiva, colhendo flores silvestres e vendendo buquês para namorados nas ruas da cidade. 

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 Membros de grupos nacionalistas ucranianos, porém, afirmam que, em vez disso, os ciganos são batedores de carteiras, roubam peças de metal e estragam a cidade com sua presença, já que em geral andam esfarrapados ou com roupas de segunda-mão enquanto mendigam. 

 Tensões profundas

As tensões a respeito dos ciganos são tão antigas quanto a própria Ucrânia e tão profundas quanto em qualquer outro país do leste europeu. Recentemente, porém, a inimizade antiga tomou um novo rumo. 

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 A partir de abril, grupos nacionalistas ucranianos, que tiveram liberdade quatro anos atrás para combater a incursão militar russa, resolveram atacar os alvos mais frágeis dos acampamentos de ciganos, dizendo que estão "limpando" as cidades do país. 

 Em um ataque em abril a um campo no parque Lysa Hora, nos arredores de Kiev, um grupo nacionalista atirou pedras, borrifou spray de pimenta e queimou algumas tendas, algo parecido com um novo surto do antigo flagelo étnico, e o episódio atraiu críticas de governos do Oeste e de grupos de direitos civis. 

 O governo ucraniano parece ter visto o ataque por outro ângulo, pelo menos no começo. Longe de responsabilizar o grupo nacionalista, conhecido como C14, que filmou o ataque e publicou fotografias na internet, o governo lhe concedeu verba, sob a forma de aluguel gratuito de auditórios, para apoiar aulas de "educação patriótica". 

 Ninguém foi preso após a agressão. Rapidamente, cinco outros ataques de grandes proporções se seguiram, juntamente com dezenas de episódios menores. Depois que um grupo nacionalista, chamado Juventude Sóbria e Brava, matou um cigano, David Pap, no mês passado em Lviv (Oeste), a polícia prendeu os suspeitos. Nada havia sido feito contra esse grupo antes, apesar de os integrantes terem publicado na internet um vídeo de seus membros perseguindo pessoas pela cidade no que chamaram de "safari dos ciganos".  Em julho, um tribunal condenou um dos participantes do ataque de abril a dois meses de prisão domiciliar. 

 "Nenhum grupo tem o direito bárbaro de fazer o que foi feito", afirmou o ministro do Interior, Arsen Avakov, depois do assassinato em Lviv. Disse que a polícia iria agir "mesmo se essas pessoas se protegerem por trás do status de veteranos". 

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Dilema para o governo

Os ataques são um dilema para o governo apoiado pelo ocidente em Kiev, que analistas dizem está buscando um apelo populista antes das eleições para presidente que vão ocorrer na primavera. O governo é grato aos grupos nacionalistas paramilitares por causa de seu papel na guerra no leste, contra simpatizantes da Rússia, apesar de alguns desses grupos adotarem ideologias consideradas problemáticas. 

 "Fomos chamados de fascistas", disse Yevhen Karas, de 30 anos, líder do C14, referindo-se à reação ao ataque no parque Lysa Hora. Mas, segundo ele, "eu não ligo para a maneira como nos chamam". 

 O C14 também se identifica como um grupo educacional que organiza palestras e seminários para jornalistas, jovens e outras pessoas sobre vários assuntos, incluindo leis e segurança. Cerca de dez mil pessoas já participaram de seus seminários, de acordo com o grupo. 

 O grupo afirmou em um comunicado que seus membros "queimaram com segurança" o acampamento de tendas improvisadas, dizendo que estavam "limpando" Kiev. 

Intervenções  

Os ciganos afirmam que as intervenções são uma ameaça perigosa. "Eles começaram a jogar pedras e qualquer outra coisa que conseguiram encontrar", contou Aranka, uma cigana que deu apenas o primeiro nome, em uma entrevista por telefone do oeste da Ucrânia, para onde fugiu depois do ataque do C14 em abril. 

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 A cigana Olga Zhmurko, diretora de programa da International Renaissance Foundation, uma organização não governamental que promove a democracia, diz que "grupos de extrema direita se promovem como Robin Hoods que ajudam as comunidades a administrar o desconforto causado pelos ciganos", mas na verdade fazem pouco mais do que semear o caos. 

 A Ucrânia tem uma história sombria em relação a maneira como sempre tratou os ciganos. Durante a Segunda Guerra Mundial, pelo menos 22 mil dos cerca de 300 mil ciganos mortos pelos nazistas na Europa viviam no que hoje é território do país, segundo o historiador Mikhail Tyaglyy, que estudou o genocídio. 

 Depois que a Rússia anexou a Crimeia em 2014, os ciganos foram os alvos iniciais durante a intervenção no leste, com abusos começando no lado pró-Rússia. Os paramilitares apoiados por Moscou os cercaram, dizendo que eles estavam vendendo drogas. 

 Como reação aos ataques mais recentes, em junho os grupos de direitos humanos Anistia Internacional, Front Line Defenders, Human Rights Watch e Freedom House publicaram uma carta conjunta condenando a passividade do governo. As Nações Unidas demandaram que o governo da Ucrânia, que defende valores europeus e recebe ajuda financeira do ocidente, faça com que os "responsáveis prestem contas". 

 Essa não é uma tarefa fácil em um país onde membros de grupos paramilitares nacionalistas também são considerados por muitos como heróis de guerra. 

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 Karas, o chefe do C14, observou que seus membros confrontam todos os "criminosos", não apenas os das minorias étnicas. Ele disse que o grupo também procurou e envergonhou publicamente indivíduos que consideraram como simpatizantes russos. "Quando querem justiça, as pessoas nos procuram", afirmou. 

 

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