Roma – Silvio Berlusconi, afastado do poder em 2006, está apostando alto em sua tentativa de voltar ao centro do palco político. Fiel ao seu estilo, o extravagante líder conservador, abrindo caminho para um novo partido político, selecionou uma ruiva ex-rainha da beleza como sua abre-alas e prometeu unir sua fracionada coalizão em um partido único de centro-direita.

Enquanto seu novo Partido Della Libertà ainda é apenas um rótulo, seu registro oficial – feito pela ex-miss Itália, Michela Vittoria Brambilla – movimentou a cena política italiana durante um verão (boreal) que de outra forma teria sido sonolento.

Berlusconi insiste em que não está lançando um novo partido político – apenas registrou um nome e um símbolo para evitar que outros se apossem deles.

O registro, de qualquer maneira, alimentou especulações de que o líder conservador, que completará 71 anos em setembro, está finalmente realizando um sonho longamente acalentado de criar um grande partido de centro-direita. O movimento atraiu críticas imediatas de vários aliados que se opõem à idéia de um só partido; e lamentam que não tenham nem mesmo sido consultados.

"A idéia de um só partido de centro-direita é importante, mas nessa etapa nós estamos muito longe disso," diz Nicola Lupo, professor no departamento de ciências políticas na Universidade Luiss, em Roma. "De qualquer maneira, criar e levar adiante um símbolo – mesmo sem nada atrás dele – é uma manobra hábil que deixou os outros para trás."

O nome e o símbolo do Partido da Liberdade – um círculo azul colocado sobre o branco que está no centro da bandeira italiana, ladeado pelas cores verde e vermelha – foram registrados no dia 6 de agosto por Michela "sob as ordens de Silvio Berlusconi e agora estão à total disposição de Berlusconi," disse a ex-miss.

Berlusconi, que teve um marca-passo implantado no ano passado nos Estados Unidos, procura caminhos para revitalizar sua coalizão de centro-direita, que foi derrotada nas eleições de 2006 e acabou afundando em lutas internas.

O atual partido de Berlusconi, o Forza Italia, obteve 30% dos votos em 2000, mas no ano passado conquistou 24% dos sufrágios.

O papel que o novo partido deverá desempenhar na política italiana ainda permanece obscuro. Os caciques políticos da centro-direita ficaram em silêncio nas últimas semanas, possivelmente em uma tentativa de acalmar as tensões entre os aliados. Berlusconi disse que apenas o Forza Itália permanece "insubstituível", acrescentando que o tumulto causado pelo registro foi "grande por absolutamente nada."

Mas durante seu governo de 2001 a 2006 como primeiro-ministro, Berlusconi insistiu em que a Itália precisava de um sistema de dois partidos como nos Estados Unidos, ao invés de um cenário com vários partidos heterogêneos formando frágeis coalizões. Os políticos e especialistas que apóiam essa idéia acreditam que o sistema de dois partidos daria mais estabilidade aos instáveis governos de coalizão que dominam a política italiana desde 1946.

Como chefe do governo, Berlusconi lutou para manter sob controle aliados desobedientes, assim como o faz agora o atual primeiro-ministro Romano Prodi com sua coalizão de centro-esquerda, que vai dos democratas cristãos aos comunistas.

A centro-esquerda partiu para uma tentativa de mudança parecida neste ano, ao anunciar a fusão dos dois maiores partidos que formam a coalizão do atual governo em um único Partido Democrático – uma iniciativa ainda não concluída, mas que parece já trouxe nova vida à centro-esquerda.

Analistas acreditam que o Partido da Liberdade deverá substituir o Forza Italia – uma mudança arrojada, visto que o Forza Italia é atualmente o maior partido do país – e gradualmente atrair outros partidos de centro-direita, que se dissolverão no partido maior.

O Partido da Liberdade surgiu de uma rede de 5 mil clubes políticos, chamados Círculos da Liberdade, fundados por Michela a partir de novembro do ano passado para atrair e solidificar apoio. Segundo ela, os clubes atraíram não apenas antigos partidários do Forza Italia, mas também moderados que votavam na coalizão de centro-esquerda e eleitores desiludidos com a política convencional italiana.

"Ou nós mudamos rápido o curso, ou a crise de relacionamento entre cidadãos e políticos na Itália ficará sem ponto de volta, será irreversível," disse a bela ex-miss em recente entrevista ao diário La Stampa de Turim.

O registro do novo partido rapidamente levou Michela de volta ao centro da mídia, com alguns dizendo que a ex-miss, que ainda não completou 40 anos, foi escolhida por Berlusconi como sua sucessora política.

Como Berlusconi, ela vem de um mundo de empresários e tem uma abordagem não convencional da política. Ela usa minissaias e salto alto, se destacando fisicamente no universo cinza dos idosos políticos italianos. Ela rejeitou imediatamente os comentários de que sucederá Berlusconi, ao qual definiu como "líder incontestável."

Alguns analistas disseram que o Partido da Liberdade é uma prova da habilidade de Berlusconi em se reinventar, enquanto outros definiram a iniciativa como um plano de marketing que passa longe de enfrentar os verdadeiros problemas políticos da Itália. "É muito claro que o Partido da Liberdade é uma solução destinada a não resolver nada," disse Ernesto della Loggia, comentarista político, em artigo no diário milanês Corriere della Sera.

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