O presidente paraguaio, Federico Franco, disse que seu país não vai mais “ceder” energia ao Brasil| Foto: Lucaz Nuñez/Reuters

Senado

Collor afirma que ameaça do presidente paraguaio sobre Itaipu foi "infeliz"

Presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) pediu ontem ao Palácio do Planalto que comunique formalmente os membros da comissão sobre qualquer ação do governo do Paraguai no sentido de romper o fornecimento de energia do país vizinho para usina de Itaipu.

Collor classificou de "infeliz" a ameaça do presidente paraguaio, Frederico Franco, de que não está "mais disposto" a ceder energia ao Brasil e à Argentina.

"Acredito que essa declaração não tenha passado de uma declaração infeliz, mas pedi que qualquer afirmação oficial neste sentido seja comunicada a essa comissão", disse.

Segundo Collor, qualquer ação de Franco na direção da suspensão de energia não pode ser tomada "de forma monocrática". O senador disse acreditar que as declarações não terão "efeitos práticos".

Para o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), integrante da comissão, o governo brasileiro tem responsabilidade no impasse com o Paraguai pela prática de "aceitar tudo que é feito pelos países vizinhos pacificamente". Já a senadora Ana Amélia (PP-RS) classificou o impasse de "bobagem" por considerar uma ameaça que não se tornará verdadeira.

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O porta-voz do Itamaraty, Tovar Nunes, afirmou ontem que o Brasil "paga" pela energia extra da hidrelétrica de Itaipu e que o Paraguai "não a cede", como disse na quarta-feira o presidente do país, Federico Franco.

"Não existe cessão de energia, ela é comprada. Essa energia, o Brasil não vem de graça", declarou ele, em alusão à eletricidade gerada pela binacional Itaipu.

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As declarações de Franco tiveram uma grande repercussão no Brasil, sobretudo­­ pela afirmação de que o Pa­­raguai decidiu de forma "clara" que seu país "não continuará cedendo" energia.

"Notem que usei a palavra ‘ceder’, porque o que estamos fazendo é dar energia para o Brasil e a Argentina, pois não a estamos vendendo", disse Franco. Tovar lembrou que "tudo relacionado à represa de Itaipu" está regulado por um tratado, segundo o qual Brasil e Paraguai têm direito, cada um, a 50% da eletricidade gerada, que estabelece claramente que a energia não utilizada deve ser vendida ao outro sócio.

Como o Paraguai satisfaz sua demanda com apenas 5% da eletricidade de Itaipu, o restante acaba no Brasil, que desde 2011 paga cerca de US$ 360 milhões (R$ 729 milhões) ao ano pela energia.

Preço

O preço foi triplicado neste ano, após longas negociações lideradas pelo então presidente Fernando Lugo, que já tinha feito desse aumento uma bandeira desde a campanha eleitoral que o levou ao poder em 2008.

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Nunes disse ainda que o Brasil "não tem conhecimento de que se pretenda fazer ajustes" e que não recebeu "nenhuma comunicação oficial" sobre a suposta decisão de Franco, que para ser formalizada deveria ser "negociada" por ambos os países.

O Brasil mantém praticamente congeladas suas relações com o Paraguai desde a destituição de Lugo, em junho passado, e promoveu a suspensão temporária do país do Mercosul.

MercosulEmpresários da indústria argentina reagem com preocupação

As ameaças do presidente do Paraguai, Federico Franco, de interromper as vendas do excedente de energia elétrica paraguaia ao Brasil e à Argentina, trouxeram preocupação à indústria argentina. "A questão energética é crucial para a Argentina e nos preocupa se esse assunto não tiver uma solução rápida", disse ontem o presidente da União Industrial da Argentina (UIA), Ignácio de Mendiguren. "Nós acompanhamos o tema energético diariamente, sobretudo pelo déficit que temos", recordou o empresário.

Mendiguren diz que a questão política que envolve a suspensão do Paraguai no Mercosul e a entrada da Venezuela é a razão por trás do problema no bloco regional. "O Mercosul está em uma zona de indefinição e o quanto antes isto for resolvido melhor para todos", opinou. Ele disse que o tsunami da crise internacional vai chegar a todas as praias, e que os países do Mercosul, particularmente os dois maiores sócios, precisam ter visão estratégica conjunta para vencer esta etapa.

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O empresário disse que o objetivo da UIA é deixar de olhar atrás buscando erros e mirar adiante para desenhar estratégia de atuação conjunta e de interesse aos dois países e ao Mercosul como um todo.

"Não nos caracterizamos precisamente por termos sido eficientes no avanço no mercado comum, mas o mundo está dando oportunidade importante e queremos intensificar a integração", afirmou.