Veja a evolução dos vazamentos pelo site Wikileaks e do cerco contra seu fundador |
Veja a evolução dos vazamentos pelo site Wikileaks e do cerco contra seu fundador| Foto:

Defesa

Prisão teria fundo político

Uma das instituições que saiu em defesa de Julian Assange, o fundador do site de vazamentos WikiLeaks preso na última terça-feira, foi a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF). A instituição defende a livre circulação de informações e acredita que, caso o australiano venha a ser acusado de espionagem, ficará comprovado que o processo por moléstia sexual aberto contra ele por duas suecas era só um pretexto para tentar interromper a onda de divulgações do site.

"É difícil imaginar que sua prisão não tem nenhuma relação com a reação internacional aos vazamentos", disse à Gazeta do Povo o responsável pelo escritório das Américas de RSF, Benoît Hervieu.

Novas acusações dependeriam de alguma manobra jurídica. "Ele não pode ser acusado de espionagem, porque não foi ele quem roubou dados. Apesar do desencontro de informações sobre a origem das informações, aparentemente os arquivos partem de funcionários do governo americano", pondera o coordenador do curso de Relações Internacionais do UniCuritiba Juliano Cortinhas.

Hervieu considera este o principal caso de publicação de documentos secretos de que se tem notícia, só possível graças à capilaridade da internet. "Por isso digo que a prisão de Assange não é o fim do WikiLeaks, porque agora, com toda a informação que já circula na rede, seria impossível pará-los."

O representante da RSF lembra ainda que o site ameaçou divulgar novos documentos sobre bancos norte-americanos e sua atividade durante a crise financeira – o que ele considera provável.

Sobre a crítica de que a reação aos vazamentos é desproporcional, já que o conteúdo divulgado pelos "telegramas" – como são chamadas as comunicações diplomáticas, ainda que enviadas de outra forma – é praticamente inócuo, Hervieu acredita que o interesse público se justifica. "A confirmação [de posicionamentos de governos] faz parte da informação", diz.

O cerco armado pelos Estados Unidos para barrar o fluxo de informações que sai dos computadores do WikiLeaks estimulou a reação de cyberpiratas ao redor do mundo. Quanto mais instituições e empresas tentam bloquear o funcionamento do site, mais os simpatizantes dos vazamentos se esforçam para prejudicar quem se colocar no caminho. O exército de ha­­ckers que tomou o lado de Julian Assange assumiu a missão de "mediar uma batalha entre o povo e os governos", nas palavras do ha­­cker "Coldblood", do grupo Anô­ni­mo, que chegou a tirar da web por alguns minutos as operadoras Mastercard e Visa, em represália ao bloqueio de pagamentos ao WikiLeaks.

Para analistas ouvidos pela reportagem, a campanha de defesa dos vazamentos está baseada num conceito de "segredo zero", o que é utopia dentro de governos. Os serviços de inteligência, utilizados por todos os países para defender seus interesses, estão fundados neles. "Não há como os governos simplesmente abrirem suas caixas-pretas, principalmente no as­­pecto de segurança internacional", diz o coordenador de Relações Inter­­nacionais do UniCuritiba, Juliano Cortinhas.

"Em qualquer relacionamento existem níveis de privacidade. Há coisas que não podem circular", acrescenta o presidente emérito da ONG Inter-American Dialogue, Peter Hakim.

O venezuelano Moisés Naim foi mais longe, em artigo publicado pelo jornal espanhol El País. Para ele, pressionar governos democráticos por transparência total, ainda mais na delicada questão da segurança, acaba por beneficiar ditaduras, terroristas e redes criminosas, que por definição não divulgam nada para ninguém e são menos pressionados.

Ponto fraco

Se guardar segredos é ponto pacífico em qualquer corpo diplomático, onde então está o ponto fraco que permitiu o vazamento de informações justamente dentro do governo americano, país que destina uma das maiores verbas para sua segurança?

Para Cortinhas, a vulnerabilidade dos EUA aumentou com o rápido inchaço do sistema de defesa do país, após os ataques do 11 de Setembro, em 2001. Ele diz acreditar que pessoas não comprometidas com o governo podem ter sido contratadas e até promovidas a altos cargos. "Eles têm um banco de dados enorme, e muitas pessoas têm acesso a esses documentos", pondera.

Outro ponto que aumenta a chance de vazamentos é a tendência de ampliar a quantidade de assuntos considerados como relativos à segurança, junto com o número de temas considerados secretos, que já cresceu muito na última década. É a supervalorização de informações secundárias – na avaliação dos analistas, a maior parte do que foi divulgado até agora já era conhecido e não compromete a segurança do país, ou seja, poderia circular livremente. Afinal, ninguém duvidava que a Arábia Saudita teme as investidas nucleares do Irã, por exemplo.

"Para os brasileiros não muda nada saber que os norte-americanos se preocupam com uma base de transmissão de dados em For­taleza, nem isso exige medidas de segurança", acrescenta o professor de História e Relações Interna­cionais da Universidade de Brasília Virgílio Caixeta Arraes. Revelações que não justificariam, portanto, a realização de tamanho cerco ao site WikiLeaks.

A razão por trás da reação desproporcional à ofensa seria desestimular novas revelações que pudessem realmente colocar em risco o sistema de defesa dos Estados Unidos. "Se alguém divulgasse algo como o esquema de segurança da Casa Branca ou a localização de ogivas nucleares no país, isso sim seria uma crise", julga Cortinhas.

Para quem divulga informações se­­cretas e é flagrado, a tendência é que o governo norte-americano trate o assunto cada vez mais pe­­lo aspecto militar. Ao considerar al­­gum tema como de relevância para a segurança nacional, o caso pode ser enquadrado como crime de guerra, o que possibilita a abertura de um processo militar – mais sigiloso e severo do que um civil.

É o caso do soldado de 22 anos Bradley Manning, suposto informante do WikiLeaks preso em uma solitária à espera de julgamento em corte marcial. Resta saber se, daqui para a frente, ficará mais difícil alguém obter documentos secretos com a aparente facilidade com que agiu o soldado Manning.

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